sexta-feira, outubro 13, 2023
Estante do Mês e Livros da Semana para o mês de outubro.
quarta-feira, maio 24, 2023
Livro(s) da Semana: Orlando, Virginia Woolf e Alice no País das maravilhas, Lewis Carroll.
Se olharmos só de relance, parece que estes dois grandes
clássicos da Literatura Mundial não podiam ser mais diferentes um do outro: no
1º caso, temos a história bizarra de um homem imortal que acorda no corpo de
uma mulher; no 2º caso, assistimos às aventuras de uma menina que persegue um
coelho com um relógio e, como consequência, vai parar a um reino mágico. Mais
ainda, Alice no país das maravilhas parece ser um livro para crianças e,
na verdade, nada mais é do uma iniciação ritualística a uma série de crenças
ligadas a duas sociedades esotéricas: A sociedade Rosacruz e a Teosofia. E
estas são as conclusões a que chegamos SÓ de olharmos de relance.
Na verdade, estamos a lidar com duas obras-primas da
literatura inglesa que não podiam ser mais emblemáticas do mal-estar do século
XIX inglês: tanto Orlando como Alice focam a questão da Realidade
VS Fantasia. Numa época em que a Ciência estourava em todos os departamentos – Biologia,
Psicologia, Arqueologia, Geologia, Medicina, Química, etc. – a realidade simples
e prática da “Velha Sociedade” estava em cacos. O mundo da Astronomia e da
Física tinham sofrido abalos gigantescos como, por exemplo, a descoberta da
teoria da relatividade, de Einstein, em 1905. No entanto – e isto é fascinante!
– há muitas passagens da obra de Lewis Carroll que parecem já apontar para
essas conceções do espaço e do tempo, apesar de Alice ter sido publicada
40 anos antes de Einstein escrever os seus ensaios!!
Orlando é outro episódio da literatura mundial bastante interessante: escrito
com o objetivo de satirizar o género biográfico – estava na moda toda a gente
famosa publicar a história da sua vida – Woolf foi buscar inspiração à vida
atribulada da sua grande amiga e amante Vita Sackville-West. Aliás, segundo a
própria autora deste livro, Orlando é esta mulher fabulosa. E é aqui que as
coisas se tornam interessantes: por detrás dos relatos – para a época –
“picantes” desta personagem-camaleão, há também alusões à angústia do Tempo
que, segundo o poeta Baudelaire, nada mais era do que um “momento fugidio”.
Segundo os modernistas do século XIX, se não fosse o chão e a segurança do
passado, o presente enlouquecer-nos-ia. Porque tudo é vago, fugidio,
passageiro, tudo muda e morre. E, de facto, Orlando muda. Mas não morre. Depois
de levar a sua metade da vida masculina “sempre atrasado”, sempre sem tempo,
Orlando acorda no corpo de uma mulher que parece encontrar finalmente a paz. Há
quem diga mesmo que este livro pondera a possibilidade da existência de
universos paralelos: algures, existe alguém igual a nós, mas esse outro “nós” é
do sexo oposto. Se calhar, o que nós vimos não foi uma transformação, mas sim,
uma espreitadela para o “outro lado do espelho”.
A equipa da biblioteca aconselha os leitores a lerem estes
dois livros um a seguir ao outro. E saquem de um caderno de apontamentos e de
uma caneta. Vocês irão ficar espantados com a quantidade de pontos em comum que
as duas histórias focam. Mas não se percam nestes dois labirintos narrativos:
há sempre um chocolate quente à espera de vocês, neste mundo material.
segunda-feira, maio 15, 2023
Livro da Semana – A Divina Comédia, de Dante Alighieri
Oh,vós
que entrais, abandonai toda a esperança!. Quem nunca ouviu ou leu esta famosa frase? Aparece no
filme Pirata das Caraíbas, aparece no livro Psicopata Americano,
de Brett Easton Ellis, aparece no jogo World of Warcraft. Mas, à exceção
do povo italiano, que estuda esta obra-prima nas escolas, poucos sabem de onde
vem esta citação.
E poucos
atualmente sabem que, durante muito tempo, as pessoas acreditavam em patamares
do céu, do purgatório e do inferno. Ou seja: consoante o crime/pecado que
alguém cometia, essa pessoa era enviada para o 1º, 2º ,3º até ao 7º círculo do
Inferno. Daí as expressões “ir para o quinto dos infernos”, “estar nas sete
quintas”: estas são ecos de crenças já passadas. Não foi Dante quem inventou
esta hierarquia dos espaços infernais e celestiais, mas ele claramente
aprimorou esta superstição, com alguns toques modernos.
Dante foi o
Camões e o Cervantes da Itália. A Divina Comédia é O livro da
Itália, sim, mas também é a trilogia que anunciou a chegada do Renascimento e,
por muito estranho que vos pareça, esta é uma obra que influenciou o nosso
pensamento, mesmo que nunca tenhamos lido um único verso desta obra-prima. Ora,
vejamos:
1- Foi Dante quem influenciou a imagem que
temos do Céu, do Purgatório e do Inferno. Já afirmámos acima que não foi ele o
autor das hierarquias celestiais, mas foi ele quem as cristalizou e eternizou.
Depois desta obra-prima, a imagem que temos dos mundos depois da morte passou a
ser aquela descrita por este génio. No entanto, ele deu-lhes um toquezinho
especial: o arrependimento, por exemplo, pode fazer com que uma alma saia de um
círculo do Inferno e consiga subir para um círculo melhor. É como se o castigo
eterno fosse uma dívida que precisa de ser paga e, uma vez saldada, a alma pode
ser salva. Ou seja, Dante introduziu a Esperança na vida depois da
morte;
2- Dante fundiu o Paganismo com o
Cristianismo de uma maneira hábil e elegante e, por muito estranho que nos
pareça, o espaço do Céu apresenta mais sexualidade e desejo do que o próprio
Inferno: é através do livro III – sim, esta obra é uma trilogia – que este
escritor/poeta revela muito do seu amor e desejo pela única mulher que ele amou
em toda a sua vida, uma jovem chamada Beatriz que morreu cedo demais, e que foi
amada à distância pelo autor;
3- Beatriz transformou-se no ideal da
Mulher: bela, doce, inteligente, elegante, discreta, virtuosa. Presente, mas
distante, ao mesmo tempo. É esta mulher – cujo rosto desconhecemos – que
inspirou toda uma legião de pensadores, autores, artistas, teólogos, e – ainda
hoje! – faz parte do nosso imaginário coletivo;
4- É graças a Dante Alighieri que o
Vernáculo Florentino Toscano– ou seja, a língua comum, falada nesta região que
agora pertence a um país chamado Itália - passou a ser chic. Antes, este
género era sempre escrito nas línguas “superiores”: o Latim e o Grego. Aliás,
esta obra fez tanto, tanto sucesso, que todos os reinos desta zona que hoje
chamamos “Itália” decidiram aprender o Toscano Florentino, para poderem ler
esta epopeia. Resultado? Hoje, a língua Florentina-Toscana deu origem à língua
italiana;
5- E é melhor nem falarmos de todas as
acusações a figuras célebres, personagens históricas, ditadores, e muito, muito
mais…
Muito mais
podia ser dito, mas o texto já vai longo. E não, não é para rir: a palavra
“Comédia”, no século XIV, tinha um outro significado. A palavra italiana commedia
referia-se a qualquer narrativa que tinha um final feliz.
A nossa
biblioteca possui a tradução de Vasco Graça Moura, uma tradução que foi muito
polémica, na altura em que foi feita e que, no entanto, não deixa de ter o seu
mérito.
Este
clássico não é para qualquer um. Só as mentes muito maduras e muito
inteligentes conseguem penetrar nos mistérios desta epopeia. Por isso mesmo,
guardem esta leitura para o momento certo das vossas vidas.
Até lá,
esperamos que esta análise vos tenha aguçado o apetite e a curiosidade.
Imagens
retiradas daqui e daqui.
Para mais
informações sobre esta obra:
sexta-feira, março 17, 2023
Livro da Semana - Robot Selvagem, de Peter Brown
Lembro-me tão bem!: estava eu nos anos oitenta do século passado. Era uma criança feliz e ingénua, como todas as crianças devem ser. E devorava tudo o que fosse ficção científica: Star Trek, Espaço 1999, Galactica, Star Wars, revistas da Marvel e da DC… E como todas as crianças da minha geração, queria ter um robot com quem brincar e falar. Os anos oitenta foram uma década em que a Fé nas tecnologias estava muito perto de um culto religioso, eram uma espécie de papá máquina que iria salvar a Humanidade, livrá-la dessa coisa chata chamada “trabalho”, libertando assim os humanos para fabricar Arte, Filosofia, etc.
Hoje, no ano
de 2023, o olhar que temos da tecnologia e da Inteligência Artificial é cada
vez mais um olhar desiludido e assustado: uma a uma, as profissões estão a desaparecer,
até aquelas que nós julgávamos que não poderiam ser substituídas, porque
necessitavam da tal “mente humana”. Estamos muito mais perto do filme “IA” de
Steven Spielberg, do que do futuro imaginado na série Star Trek.
Tudo isto a
propósito do nosso livro da semana: claramente, estamos a falar de um futuro
próximo, dominado por uma humanidade que quase não faz nada, e há robots a
servi-la em toda a parte. Esta é a história de um(a) robot, vítima de um navio
que naufragou com 500 pacotes de robots. Cinco deram à costa numa ilha deserta,
quatro foram destruídos pelas ondas e pelas rochas. Apenas sobrou um que –
acidentalmente – foi ativado por uma família de lontras. A partir deste
momento, a Roz – Rozzie é o nome da série de robôs a que ela pertence - começa
a aprender e a tentar compreender como a Natureza funciona: sistema de
camuflagem, linguagem dos animais, como dialogar com eles, como construir uma
casa, como alimentar uma cegonha bebé, como fazer amigos, como abrigar-se do
frio de Inverno. E tudo parece correr bem… até o dia em que outros robots
começam a ir à procura dela.
Obviamente
que este livro é uma metáfora da Humanidade, e a nossa Roz representa todos
aqueles que, por serem diferentes, levam tempo a serem aceites pelos outros.
Porém, esta história também nos mostra que, com persistência, paciência e afeto
pelos outros – mesmo aqueles que nos querem mal – é sempre possível quebrar
barreiras, fazer amigos, contribuir para a comunidade. Porque há de chegar
sempre aquele momento em que alguém vai precisar da nossa ajuda. E se nós
entendermos a mão nessa ocasião, arriscamo-nos a fazer um amigo para a vida. O
preconceito pode ser grande, mas a persistência e o amor conseguirão,
devagarinho, quebrar os mitos. Este é um livro que menciona uma das mais
importantes lições de vida: a mudança parte sempre de nós. Não são os outros
que têm de nos aceitar, somos nós que temos que mostrar aos outros que não há
razões nenhumas para alguém fugir da nossa presença.
Por fim,
este livro também aborda outra lição de vida muito importante: o que é isso de
“existir”, “amar”, “ter personalidade”? Onde estão a Alma e as Emoções?
BicoBrilhante – o filhinho adotivo de Roz – encontrou outros robôs exatamente
iguais a à sua mãe. E, no entanto, eles não se pareciam nada com ela. Roz era
um “robot especial”. No ano de 2023 estamos, de facto, a um passo de criar um
robot “emocional”, capaz de sentir e de amar. E a ficção científica está cheia
de filmes e de séries que falam precisamente desse tema. Se tal acontecer,
então teremos criado uma nova espécie de vida, que necessita de
responsabilidades, sim, mas também de direitos e regalias.
Mas por que
motivo estamos a falar de assuntos tão profundos a propósito de um livro para
crianças? E é aqui que nos enganamos todos: à semelhança de obras como O
Principezinho, este livro é uma obra para crianças “dos 8 aos 80”. As mais
pequenas não vão perceber as 2ªs, 3ªs leituras desta história. Apenas se
identificarão com a Roz e desejarão o melhor para ela. São precisamente as
crianças mais crescidas – ou seja, nós os adultos - que entenderão as mensagens
veladas, e uma delas até aborda a questão das mudanças climáticas.
Esta é uma
história que se lê de uma assentada. A sério, não estamos a brincar, bastou uma
tarde para folhearmos a última página desta moderna fábula. Por isso
aconselhamos a sua leitura a todas as crianças, pequenas e grandes, que não
gostem de ler. Este é um excelente livro para oferecer àqueles que torcem o
nariz, assim que veem muitas palavras. E, já agora, ajuda bastante o facto de a
história estar maravilhosamente ilustrada pelo próprio autor.
Agora, toca
a ler a sequela: “Robot em Fuga”!
sexta-feira, março 10, 2023
Livro da Semana - História de um caracol que descobriu a importância da lentidão, de Luis Sepúlveda
Só o título
já diz tudo, e capta a nossa atenção. Uma vez que a nossa estante deste mês
está relacionada com o Dia Mundial da Felicidade - 20 de março, precisamente o
1º dia da primavera – não podíamos escolher uma obra literária que mais puxasse
pela alegria de viver como este pequenino e deslumbrante conto para crianças
dos 8 aos 80.
E numa época
em que se fala cada vez mais do slow living, esta pequena história não
podia ser mais contemporânea: esta é a aventura de um caracolzinho que,
lentamente, sai devagarinho da sua zona de conforto, e começa a procurar a
razão porque a sua espécie é tão lenta, não tem nomes próprios e vive sempre no
mesmo lugar.
Histórias de
animais que vão à procura do sentido da Vida são bastante comuns: Fernão
Capelo Gaivota, O Tigre e o Acrobata e Firmin são uns dos
muitos exemplos. Neste caso, Luis Sepúlveda, com a sua mestria para a palavra –
sobretudo no que diz respeito a histórias para crianças – criou mais uma fábula
moderna, que supostamente é para miúdos mas – no fundo – acaba também por ser
para os graúdos.
Esta edição
da Porto Editora é uma pequena joiazinha: está magistralmente ilustrada e a
história lê-se de um fôlego, com prazer, em menos de duas horas. Para quem não
gosta de ler, este é um livro ideal para levar para casa. Aliás, esta semana já
foi requisitado, por isso vão ter que esperar para que seja devolvido.
Aguardamos a
próxima fábula de Sepúlveda. E, quem sabe, poderá ser um lince a experienciar a
importância da rapidez. Até lá, e só para aguçar o apetite, vejam o booktrailer.
Imagem
retirada do site wook.
quinta-feira, fevereiro 16, 2023
Livro(s) da Semana: A Imperatriz, de Gigi Griffis e Bridgerton - Crónica de Paixões e Caprichos, de Julia Quinn.
Não é por
acaso que estes dois “livros da semana” aparecem, desta vez, agarradinhos um ao
outro: não só servirão como tema para as próximas “StorytellingTime” – projeto
“Escola a Ler” – no final deste mês, como também abordam o mesmo assunto:
amores e desamores da famosa Aristocracia do século XIX. Para terminar com
chave de ouro, estas histórias foram escritas por mulheres do século XXI.
Sim, o
assunto é sem dúvida o mesmo. Mas precisamente porque as escritoras são do
nosso tempo, a forma como elas descrevem esta elite é – admitamos – um
bocadinho nostálgica, mas arguta: por um lado, há muito frou frou, muita
beleza, requinte, elegância, romantismo. Estes romances acabam por ser uma
espécie de “conto de fadas” para as jovens e mulheres maduras. Por outro lado,
este mundo muito bonito já não é um mundo “Disney”: Julia Quinn e Gigi Griffis
não escondem o facto de que a condição do sexo feminino não era das melhores
coisas que existiam no século XIX, e as mulheres nada mais eram do que
mercadoria para ser trocada, sempre que era necessário fazer contratos com
outras famílias ricas. Sejamos honestos: estas belas e requintadas moças da sociedade
eram “vendidas” pelos pais, para fins de trocas comerciais. Apesar de tudo,
havia sempre a esperança de elas poderem encontrar o “Homem certo” e, desta
forma, serem felizes nas suas prisões douradas.
Outro ponto
a ter em conta: A Imperatriz é um livro baseado na história real da imperatriz
Sissi da Áustria. Aliás, este romance deu origem a uma série da Netflix, que
está a ter muito sucesso de audiências. Descreve o encontro entre Sissi e o
imperador austríaco Franz até ao dia do casamento. Por isso mesmo, o futuro
trágico e negro da nossa heroína não é mencionado. Ficamo-nos pelo lindo conto
de fadas de dois aristocratas que se encontram, e que se apaixonam um pelo
outro.
Bridgerton, por outro lado, é toda uma série de
livros fictícia, que tem lugar na Inglaterra do século XIX. Julia Quinn é, para
todos os efeitos, a Barbara Cartland do século XXI: as histórias leem-se
bem, agradam a uma audiência feminina (mas também há um clube de fãs masculino),
têm como único objetivo entreter – e nada mais. E não há nada de errado nisso.
Nem sempre um livro tem que mudar um mundo. Outra curiosidade a apontar é o
facto de que Bridgerton é um conjunto de nove volumes, dedicados a cada
um dos oito irmãos desta família (o último é um epílogo e mostra o final de cada
um deles), e cada uma das histórias pode ser lida separadamente.
Mas… então…
para quê tanta polémica à volta deste universo??
A culpa, mais uma vez, é da Netflix. A obsessão da “inclusão e diversidade” – custe o que custar – gerou uma
série de televisão em que famílias negras e indianas convivem lado a lado com a
aristocracia branca do século XIX… e até a rainha de Inglaterra é negra! Nada
disto é historicamente correto: havia sem dúvida famílias aristocráticas
africanas e asiáticas, mas essas não punham os pés no palácio de Buckingham.
Muita gente alertou – e com toda a razão! – para o facto de que muitos jovens
não caucasianos de hoje começarem a acreditar que, no passado, todos eram
tratados como igual, apagando, assim, todo o sofrimento e luta pela igualdade
dos cidadãos “de cor”. Tais opiniões obrigaram a Netflix a deixar bem claro aos
fãs que este mundo é uma “realidade alternativa”, onde as desigualdades
continuam a existir, mas estas estão mais ligadas às desigualdades sociais e
não rácicas. Escusado será dizer que a escritora Julia Quinn – que imaginou um
universo monárquico mais historicamente correto, ou seja, é só brancos! - aceitou
as mudanças e adora a série.
Aliás: o
mais interessante a apontar nesta polémica não foi o facto de as massas ficarem
em estado de choque, ao verem um negro e uma branca fazerem amor. O que mais
chocou as audiências foi o facto de um casal destes não poder existir na “Era da
Regência Britânica” do século XIX, e, por isso mesmo, esta intriga é
historicamente incorreta. E isto faz-nos chegar a uma conclusão: ao contrário
do que os media dizem, os humanos hoje são bem menos racistas do que
eram há 100 anos. Chegámos a um ponto em que dois seres humanos com
pigmentações diferentes podem casar-se, ter filhos, desempenhar os mesmos
empregos e conviver na mesma classe social. E poucos franzem o sobrolho.
Graças a Deus. Afinal, em alguma coisa nós tínhamos que avançar, não é?
As capas dos dois livros foram retiradas do site de compras WOOK.
segunda-feira, janeiro 16, 2023
Livro(s) da Semana – Coleção Os Livros estão loucos!
No ano de 2023, já assistimos a muitos “recontos” de
histórias que pertencem ao nosso imaginário, e essa prática é hoje conhecida
pela palavra inglesa “reboot”: novas versões da Guerra das Estrelas,
novas versões dos Ghostbusters, novas versões do Rei Artur, novas
versões do Senhor dos Anéis, do Rei leão e da Bela e do
Monstro… Recontar uma história e “modernizá-la” está hoje muito na moda. O
problema é saber contá-la.
Com efeito, não basta apenas pegar num universo antigo e
dar-lhe uns pozinhos de modernidade. É preciso – acima de tudo – captar as
audiências mais novas, ao mesmo tempo em que se presta homenagem a esse antigo
imaginário ou obra clássica. Não vale a pena recontar a história do Harry
Potter se esse universo for completamente reformulado, ao ponto de se tornar
irreconhecível. Para que um reboot/reconto resulte, tem que existir
respeito e amor por aquilo que já foi feito. Ora, a coleção Os livros estão
loucos foi criada precisamente para incentivar as gerações mais jovens a
reencontrar as grandes obras clássicas, sem que estas não sejam alteradas na
sua essência.
Vários autores foram chamados para recontar grandes clássicos
da literatura moderna, mas, desta vez, fizeram-no em jeito de brincadeira,
usando um linguagem moderna e “tipo aos jovens”, como eles próprios o afirmam.
Eis uma maneira muito engraçada de motivar as massas a ler: brincando com os
clássicos.
Temos seis exemplares desta coleção. Estão à vossa espera!
Imagem retirada de: https://insensatez.blogs.sapo.pt/os-livros-estao-loucos-189537
sexta-feira, outubro 28, 2022
Livro da Semana - O País das Laranjas, Rosário Alçada Araújo
Hoje, vou
contar-vos uma história da minha família: quando a minha mãe nasceu, toda a
gente ficou espantada com o facto de ela ser tão loura. É que no Alentejo, no
tempo de Salazar, não era comum haver crianças de cabelo dourado e, por isso
mesmo, elas faziam sempre sensação. Sim, elas existiam no nosso país, mas era
mais para o norte de Portugal, o sul era uma região de gente mais pequenina e mais
trigueira. Pois bem: minha avó conta que, sempre que ela ia de férias para uma
terra do centro ou sul, toda a gente perguntava se ela tinha adotado “uma das
austríacas”. Ninguém conseguia compreender como é que um casal tão moreno tinha
uma menina tão loura. Só podia ter sido adotada, é claro!
Tudo isto
vem a propósito do nosso livro da semana, O país das laranjas, de
Rosário Alçada Araújo. Embora estes dois irmãos sejam personagens fictícias,
muitas das peripécias desta narrativa são reais. Como a própria autora assume na secção dos
“Agradecimentos”, este foi um livro que, embora de ficção, se apoiou em
testemunhos verdadeiros. E foi com base em inúmeras pesquisas, testemunhos
e entrevistas, que este país das laranjas foi criado.
Estamos,
portanto, a falar de um romance histórico cuja ação teve lugar no Portugal do
século XX. Martha, personagem fictícia, é separada da família e do irmão para
ir viver temporariamente em Portugal. Áustria, o seu país natal, está
totalmente devastado pela guerra, e a família inteira está a passar fome. Com a
ajuda da Cáritas, ela será acolhida numa família extremamente abastada, e
viverá anos felizes, apesar das imensas saudades da sua família. No entanto,
chegará o momento em que ela terá de partir. Partirá feliz? Adaptar-se-á a uma
Áustria que já não conhece?
Contado
pelos olhos de uma criança amada, a imagem de Portugal é a imagem de uma
família acolhedora, boa, cristã, cheia de compaixão. Mas não deixa de ser um
país genuíno: as 5500 crianças austríacas que foram acolhidas voltaram para a
sua terra cheias de histórias e vivências bonitas para contar aos seus. Pelos
vistos, a experiência foi boa, houve muito amor e muita dedicação. Esta
história serve para mostrar que, em tempos difíceis, é sempre possível fazermos
algo para ajudar os mais necessitados. E esperemos que as crianças do século
XXI, vindas de terras também devastadas pela guerra, consigam encontrar em
Portugal o acolhimento caloroso que as crianças austríacas mereceram, no século
XX.
Esperemos
que a História se repita.
sexta-feira, outubro 21, 2022
Livro da Semana - Manuscrito encontrado em Accra, Paulo Coelho
Supostamente
este manuscrito existe. Supostamente foi encontrado no Egito, juntamente com o
famoso espólio de Nag Hammadi, descoberto em 1948. Supostamente um tal de Sir
Walter Wilkinson encontrou-o e traduziu-o. Porém, quase tudo é uma ilusão de
artista.
Sim, o
espólio de Nag Hammadi é verdadeiro e criou sensação em 1948. Sim, é verdade
que existiu um tal de Walter Wilkinson, mas este era um escritor, era botânico
e era um apaixonado pela arte das marionetas. No entanto, tudo o resto foi
inventado. E não, Paulo Coelho não está a mentir, esta é uma estratégia
literária inventada pelos românticos, há quase 300 anos, com o objetivo de
tornar uma história mais verosímil, mais realista, mais verdadeira. O escritor
italiano Umberto Eco utilizou exatamente o mesmo truque na sua obra-prima O
nome da Rosa. E Paulo Coelho fez exatamente o mesmo: com base em factos
reais, criou um lindíssimo texto filosófico que poderia ter sido escrito e dito
no século XI.
A sinopse é
simples: Jerusalém está prestes a ser invadida – para não variar – desta vez pelo
exército dos Cruzados. Um filósofo conhecido pelo nome “Copta” convoca a
população desta cidade - cristãos, judeus e muçulmanos – para ouvirem algo
muito importante que ele tem a dizer. Todos esperam um apelo às armas e à guerra
e, no entanto, o que acontece é exatamente o contrário. Este filósofo não pede
a guerra, pede a paz. E é precisamente este discurso na praça pública que
chegou até nós…
No ano de
2022, às portas de uma III Guerra Mundial, vale a pena ler um livro destes? As
mensagens são, sem dúvida, conflituosas: devemos aceitar o presente ou temos
que lutar contra ele? Queremos a rendição da Ucrânia ou queremos passar fome?
E, já agora, que poder é que NÓS, o povo, temos para mudarmos o mundo? Estas
são as questões que nos surgem quando estamos a ler esta obra de Paulo Coelho.
E isto demonstra até que ponto este livro é atual.
Porque os
livros que nos fazem pensar e questionar são SEMPRE atuais.
sexta-feira, outubro 14, 2022
Livro da Semana - Uma Questão de Cor, Ana Saldanha
-Mas o
que é que eu fiz? Nada. Só estou aqui a conversar com o teu primo escurinho.
Não sabia que tinhas disto na família.
E foi assim que
o primeiro dia na nova escola do Danny correu: com “bocas foleiras”,
professores espantados por verem a sua prima com um rapaz escurinho, gente que
não acreditava que ela tinha negros na família, colegas a dizerem “gracinhas” à
volta de cores de pele…
Na verdade,
toda esta história gira à volta de Nina, a prima do Danny. É ela quem conta na
primeira pessoa todas estas peripécias que se estão a desenrolar. E, no início,
ela nem achou piada nenhuma à mudança: estava tão feliz com o seu novo
computador e o seu quarto e de repente, vindo do nada, teve de ceder o seu
quarto para o Danny, que sofre de asma e vai morar na sua casa, para estar mais
perto da nova escola. Mais um pequenino
pormenor: Daniel é mestiço, e tal característica física irá trazer muitas zangas
e conflitos à nossa personagem principal. No entanto, até a própria Nina vai
ter de enfrentar os seus próprios preconceitos. É que o paternalismo nada mais
é do que um racismo escondido e educado…
Escrito em
2002, este livro continua a ser bastante atual, 20 anos depois. Sim, é verdade
que a loucura agora já não é os desktops, é os smartphones. E, no entanto, a
mentalidade continua a ser quase a mesma. Sim, é verdade que as pessoas já
começam a ter consciência de certas palavras e ações, mas a mentalidade
continua a ser quase a mesma. Sim, é verdade que os emigrantes já não são quase
todos da África, muitos até já começam a vir da Ásia e até da Europa… mas a
mentalidade continua a ser quase a mesma. Por isso mesmo, esta obra, uma
geração depois, continua a ser bastante atual. E, por isso mesmo, continuamos a
aconselhar a sua leitura.
Afinal, a
mochila cultural veio para ficar.
sexta-feira, outubro 07, 2022
Livro da Semana - O pintor debaixo do lava-loiças, Afonso Cruz
Não há nada
a fazer: Afonso Cruz está na moda. Só a nossa biblioteca dispõe de vários
títulos, entre eles o famoso Os livros que devoraram o meu pai, já muito
molinho e cheio de rugas, sinal de que esta obra tem sido lida por muitos.
Desta vez, O pintor debaixo do lava-loiças começou a fazer sensação por
causa do Plano Nacional de Leitura, mas também é necessário referir que esta
obra possui um título bastante apelativo e misterioso, capaz de cativar a
curiosidade dos alunos.
Afonso Cruz
é um escritor de uma imaginação prodigiosa, como já há muito tempo não víamos.
O último grande mestre das narrativas cativantes foi José Saramago, um escritor
que nunca contava a mesma história duas vezes. Mas, pelos vistos, Afonso Cruz
parece seguir o mesmo caminho: desta vez já não estamos a falar de um filho que
anda à procura de um pai perdido num oceano de palavras, agora estamos a falar
de um episódio real, ligado ao passado do autor e, obviamente, reinventado: Esta
é a história, baseada num episódio real (passado com os avós do autor), de um
pintor eslovaco que nasceu no final do século XIX, no império Austro- Húngaro,
que emigrou para os EUA e voltou a Bratislava e que, por causa do nazismo, teve
de fugir para debaixo de um lava-loiças. Pelo meio, conhecemos o Livro dos
Olhos Acesos e, mais tarde, O Livro dos Olhos Fechados; conhecemos o seu
imaginário, os seus amigos, o grande amor da sua vida, uma máquina de fazer
areia, um crocodilo voador, uma empregada D.
Rosa que tem medo de um pintor escondido na cozinha de uma casa de um
país que vive numa ditadura. Aliás, o capítulo Uma ponte entre dois
fracassos foca precisamente o contraste entre um mundo em guerra e um país
ilusoriamente feliz, eternamente fatalista, apesar do imenso sol que ilumina os
portugueses.
Este livro
consegue surpreender-nos sempre e não o conseguimos largar. É também um livro ligado ao mundo: um
eslovaco austro-húngaro perdido na Alemanha, em fuga para Portugal, com desejos
de viver nos Estados Unidos da América. Por isso mesmo, esta é uma obra excelente
para inaugurarmos a nossa mochila cultural!
Como diz o
livro – e muito bem! – A criatividade é o maior crime que existe.
Citação
retirada de:
https://www.wook.pt/livro/o-pintor-debaixo-do-lava-loicas-afonso-cruz/10952310
quinta-feira, maio 05, 2022
Livro da Semana - Histórias e lendas da Europa, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada
Sim, é
importante celebrarmos a diversidade das culturas no mundo inteiro, mas também
é importante sabermos quem somos, de onde viemos e para onde vamos. As várias civilizações
vindas do continente europeu são ancestrais, ricas, complexas e donas de uma
imaginação extraordinária. A Europa é como uma cebola: há camadas, camadas,
camadas, culturas antigas, ecos do passado, rituais que se perpetuam, traumas
que ainda existem, outros que desapareceram, religiões que nos definiram a bem
ou a mal, fomes, pandemias, invasões, guerras, velhas e novas alianças. E
quanto mais a “descascamos”, mais compreendemos a razão por que somos hoje o
que somos. E é longa, muito muito longa, a História da Europa.
Ora, para a
simplificar para os mais jovens, estas duas escritoras portuguesas, bem famosas
cá neste “quintalinho à beira-mar plantado”, criaram uma compilação de histórias
pequenas, que entretêm e ensinam ao mesmo tempo. Algumas são lendas, outras são
verdadeiras. Fala-se de Joana D’Arc, de Mozart, de Hans Christian Andersen, mas
as crianças também ficam a conhecer lendas como o Flautista de Hamelin ou a
lenda de Dédalo e do Minotauro. Mais ainda, cada país da Europa é contemplado com
um mapa e algumas curiosidades sobre ele.
Este é um
livro dos 8 aos 80, até os “crescidos” podem aprender curiosidades
interessantes de que nunca tinham ouvido falar. E lê-se com rapidez e com
prazer. Por isso, se quiserem atrair os vossos filhos/alunos para a leitura,
esta é uma obra que vale a pena aconselhar!
quinta-feira, março 24, 2022
Livro da Semana - História Trágico-Marítima, adaptação de António Sérgio
Já foi leitura obrigatória nas escolas portuguesas, depois
não foi, depois voltou a ser, depois não foi, depois voltou a ser… Por que
motivo insistimos tanto num livro que já não tem nada a ver com um século XXI
que é mais digital do que orgânico, e está mais ligado aos caminhos aéreos do
que marítimos?
Ou será que esta compilação é mais contemporânea do que
pensamos?
Todos estes relatos de naufrágios do século XVI foram
compilados no século XVIII por “um tal” Bernardo Gomes de Brito. Não sabemos
nada dele, a não ser três coisas: era um homem muito erudito/culto
(provavelmente devia ter “sangue azul”); foi ele quem arquivou uma série de
relatos de testemunhas de naufrágios em dois volumes, dando mais tarde o título
acima mencionado; provavelmente nasceu em 1688 e provavelmente morreu em 1760.
É tudo. Não lhe conhecemos o rosto, não sabemos se casou, se teve filhos, se
foi feliz, se vivia na Corte ou viajava muito, se vivia em Portugal ou fora
dele, se era progressista ou conservador. Há especulações, há hipóteses, mas, à
exceção destes três factos, não há nada que se possa considerar historicamente
credível.
No entanto, pelos relatos verídicos que selecionou,
percebe-se que era contra a ganância e o desperdício, era muito crítico da política
portuguesa e económica da Época dos Descobrimentos e, indiretamente, explica
por que motivo o Império Português, tão promissor, acabou por se transformar
numa máquina perdulária, pesada, que nos levou à falência a todos os níveis:
social, económica, cultural, espiritual. De certa forma, Bernardo Gomes de
Brito é uma espécie de pré Antero de Quental: ele entendeu 100 anos antes o que
Antero, com o seu estudo Causas e decadências dos povos peninsulares, entendeu
nas famosas Conferências do Casino. Por isso mesmo, estes dois volumes são
bastante modernos para a época: longe de glorificarem a “nobre causa
Portuguesa”, deixam no leitor um gosto amargo na boca. Não se enganem: aqui não
há Lusíadas para ninguém. Bernardo não opina, simplesmente mostra,
relata, exemplifica. E isto torna a leitura não só mais
angustiante e mais acutilante, como se torna impossível negar o lado sombrio da
Época dos Descobrimentos. Reparem que ele não relata os casos de sucesso,
grandiosos, felizes. Ele guia o leitor para os casos que fizeram de nós uma
nação falhada. É quase como se fosse um cientista a elaborar uma prova
empírico/científica das causas da queda de Portugal. “Ah”, exclama o leitor,
“agora é que eu percebo porque é que nós, portugueses, somos hoje uns
pelintras. Foi por causa disto!”.
Como a língua portuguesa está sempre a mudar, António Sérgio
readaptou estes testemunhos num português mais “moderno” e mais acessível aos
leitores dos séculos XX e XXI. Nesta edição da Porto Editora – coleção Educação
Literária – são apresentados os cinco relatos mais famosos, entre eles o Naufrágio
de Sepúlveda (1552). O livro não só se lê muito bem, como ainda por cima, é
lindíssimo: está magnificamente ilustrado (os desenhos são de Jorge Mateus). É
uma pequena joia que se leva com prazer a todo o lado, porque nem sequer é
pesada.
Leiam com muita, muita atenção.
E aprendam a lição máxima: quem tudo quer, tudo perde.
quinta-feira, março 10, 2022
Livro da Semana - O Animal Humano, de Desmond Morris
A propósito
do mês de Março – em ligação com o Dia Mundial das Florestas, 21 de março – a
Biblioteca da Escola Secundária de Serpa vai dedicar-se à Natureza. Para além
da exposição do mês, vai ser criada também uma exposição “florestal” no nosso
espaço, que irá servir de inspiração para aulas de escrita criativa com os
alunos da professora Teresa Espada, entre os das 21 e 25 de março . E sim!, os
livros da semana vão andar lado a lado com o mesmo tema.
Ora, nada
melhor do que começar esta celebração com uma das grandes obras-primas do
Estudo da Zoologia: O Animal Humano. Este estudo científico e
divertidíssimo foi escrito por um dos maiores génios da Zoologia, ainda hoje
vivo com 94 anos. Desmond Morris nunca foi muito de acreditar na ideia de que
nós, seres humanos, estamos acima de qualquer outra espécie no Planeta Terra,
muito pelo contrário: duas das suas obras mais famosas foram O Macaco Nu e
As Tribos do Futebol, duas edições que provam cientificamente até que
ponto nós os Humanos ainda estamos muito “animalizados”. Basta só olhar para a
nossa linguagem corporal; os nossos rituais de acasalamento; as hormonas que
largamos dependendo das nossas emoções; como reagimos psíquica e biologicamente
quando sentimos que precisamos de salvar a nossa vida e a nossa família; a
nossa relação com os nossos filhos; a nossa linguagem, que não ultrapassa os 6%
de palavras – tudo aquilo que chamamos “comunicação” NÃO está na linguagem.
O Animal
Humano também teve
direito a uma série de televisão da BBC, e fez muito sucesso quando estreou
(1994). Em Portugal, a primeira tradução só foi feita dois anos depois, mas
este livro foi instantaneamente um best-seller na Europa e nos Estados Unidos
da América. Tempos felizes, em que as pessoas liam mais…
Leiam este
livro. Irão largar imediatamente a ideia pré-concebida de que somos melhores do
que todos os outros animais deste planeta…
segunda-feira, fevereiro 21, 2022
Livro da semana - Os sítios, Licínia Quitério
Com tuas
mãos falantes é que me anunciavas
o piar
das andorinhas e dizias o desenho
do
relógio de sol. Como se eu entendesse
As tuas
viagens nos passos em redor da sala.
Foi
preciso ver as asas saindo dos teus dedos
e a
sombra da haste no declínio do dia.
Nessa
hora os teus passos fecharam a viagem.
(…)
E é assim
que começa o poema 7 da página 14. Até chegarmos a este momento do livro, já o
nosso pensamento está a voar para outras dimensões e outros mundos, e um ser
que tem pássaros a sair dos seus dedos já nos soa a um gesto tão normal como
regar uma planta ou levar os filhos à escola. Porque este é o mundo de Licínia
Quitério: um mundo onde as ações mágicas e paranormais transformam a mesquinhez
e marasmo do nosso mundinho controlado por computadores, bancos e relógios. Porque
este é o poder da Poesia: o Poder da Metamorfose.
E que me
perdoem os mais jovens, mas raramente a boa poesia sai dos seus corações. É
preciso viver, experienciar, amar, sofrer, desiludir-se, aprender, conhecer os
homens, as coisas, as árvores. A juventude também tem a sua própria poeria,
sim, mas aquela que nitidamente nos esmaga; aquela que nos obriga a pousar um
livro porque o que lemos é tão extraordinário; aquela que nos faz recordar de
um eco distante, mas familiar; essa vem das almas já maduras, já saciadas, já
em paz. Um pouco feridas, um pouco desapontadas, um pouco cínicas, sem dúvida.
Mas sábias.
Poucos
conhecem Licínia.
Este
anonimato não irá durar muito.
quinta-feira, fevereiro 10, 2022
Livro da Semana - Luís Vaz de Camões, Poesia lírica
Aquela
cativa,
que me
tem cativo
porque
nela vivo,
já não
quer que viva.
E é assim que começa um dos poemas de amor mais lindos da História da Humanidade: Endechas a Bárbara Escrava é considerado por todos os estudiosos da Literatura Mundial como sendo um dos primeiros poemas antirracistas escritos na Civilização Ocidental. E foi precisamente este poema que criou polémica em 2019, quando João Miguel Tavares o recitou em público no dia 10 de Junho de 2019, e aproveitou para afirmar que talvez precisemos de um pouco menos de Lusíadas e de um pouco mais de lírica camoniana. (Podem encontrar a história completa aqui).
É verdade
que Os Lusíadas são de uma grandiosidade e quase perfeição. No entanto,
os seus restantes poemas possuem uma Humanidade que, embora existente na obra
acima citada, é mais “mundana” e, por isso mesmo, mais fácil de entender e de
criar laços nos nossos corações. Leva-se tempo a gostar d’Os Lusíadas.
Isso não acontece com a restante poesia lírica. Pelo contrário!: há sempre um
soneto ou uma endecha ou uma redondilha ou uma ode que nos toca. Há sempre uma
migalhinha de Camões que se aloja no nosso coração e que toca as cordas da
nossa alma. Pode parecer pouco, mas essa pequena luzinha cá fica brilhando e,
quando nos lembramos dela, ficamos sempre espantados pela sua beleza, como se a
tivéssemos lido ou ouvido pela primeira vez.
É o Homem
que nos toca, não a máquina propagandística do país: as suas paixões, as suas
desilusões com o mundo, o medo do Tempo e da Mudança, o eterno Azar que o
persegue, a eterna (quase) Pobreza que não o deixa dormir. Porque ao contrário
do que se pensou durante muito tempo, Camões foi pobre, sim, mas não foi
miserável. Vivia de fazer poemas para os outros (hoje seria um freelancer…)
e, como é de se esperar com este tipo de “profissão”, teve dias bons e maus.
Mas, no geral, até conseguia pagar com alguma regularidade as contas. O povo
amava este grande poeta. Era a Elite do seu tempo, medíocre e invejosa, que não
podia com ele. Ah, e também havia a maldita pensão real, que nunca chegava a
horas.
Sim, nós
sabemos que é piroso dizermos isto, mas Camões é Portugal, tal como Dante é
Itália, Cervantes é Espanha e Goethe é Alemanha. Depois deste génio, os
lusitanos nunca mais foram os mesmos. E o melhor elogio que podemos dar à nossa
História e língua é guardarmos no nosso coração pelo menos um poema dele. Para
nós e para as futuras gerações.
Qual é o seu, caro(o) leitor(a)?
Sérgio Godinho, Endechas a Bárbara Escrava (ao vivo): https://www.youtube.com/watch?v=B7VS9LGyFtk
segunda-feira, fevereiro 07, 2022
Livro da Semana - Florbela Espanca, Poesia Completa
O país, secretamente, amava-a. Mas só depois da sua morte é que teve coragem de o assumir publicamente. Enquanto respirava, Florbela era aquele tipo de ser humano incómodo, caótico, escandaloso, capaz de provocar paixões e ódios ácidos. Florbela foi uma mulher que nasceu no século errado, na década errada, no local errado. Já Vergílio Ferreira também falava de um Alentejo atrasado, na sua obra “Aparição”. Florbela sonhou com o Futuro, quis concretizá-lo no Presente… e queimou-se por isso mesmo.
Teria
adorado o século XXI, as redes sociais, a liberdade de estar num café às duas
da manhã com um homem que não fosse da família dela, a liberdade de escolher
qualquer carreira, qualquer roupa, qualquer casa, qualquer música. Teria feito
parte do projeto Erasmus, estaria ansiosa para sair do “marasmo” do
campo alentejano e ter-se-ia enfiado em Londres, Paris, Berlim, Madrid. Era uma
mulher cosmopolita, que gostava do luxo, das peles, da beleza, da natureza.
Queria mais, sonhava com mais. Nem Lisboa chegava para ela, quanto mais o
Alentejo.
E seria
infeliz na mesma. Porque os seres humanos como ela estão fadados a ser
eternamente infelizes. Chega a um ponto em que todos nós assentamos. Ainda bem,
é assim que as coisas deve ser. A Sofreguidão – quando é demais – paralisa,
sufoca, anestesia.
Hoje, lemos
os poemas dela com prazer e sentimento. Identificamo-nos com ela. E –
secretamente – pedimos para não acabarmos como ela. São poemas de uma clarividência
e de uma Humanidade deslumbrantes, mas só quem sofre é que escreve e pensa
assim.
E… Sejamos
honestos…
…quem é que
realmente quer sofrer neste mundo?
quinta-feira, dezembro 16, 2021
Livro da Semana: Chernobyl - A história de uma catástrofe nuclear, de Serhii Plokhy
Antes da
minissérie Chernobyl - da companhia Netflix - ter estourado em todas as
televisões do mundo, poucos eram os jovens que estavam a par deste desastre na
Ucrânia. Com efeito, à exceção do povo ucraniano, esta explosão numa central
nuclear era coisa do Passado e de manuais escolares. Foi graças a esta
adaptação – se bem que com algumas falhas históricas – que este episódio
trágico da Humanidade voltou a estar nas luzes da ribalta.
Tal não quer
dizer que tenha sido completamente esquecido, muito pelo contrário: no mundo
dos historiadores, jornalistas e cientistas, tudo tem sido feito para manter a
memória acordada, através da preservação de arquivos, entrevistas,
documentários, etc. Mas também tudo tem sido feito para evitar que a catástrofe
volte: é que esta central nuclear continua a largar radioatividade e pode
voltar a explodir a qualquer momento. Daí a determinação da comunidade
científica de todo o mundo em conter o problema da melhor maneira possível. E
este problema também é ecológico, porque só agora é que esta zona começa a recuperar
das altíssimas cargas de radioatividade que foram despejadas no ano fatídico de
1986 (500 bombas atómicas!).
Um dia
depois dos portugueses terem estado a festejar o dia em que a democracia voltou
a Portugal, os ucranianos sofriam um dos episódios mais traumáticos da sua
História: uma das usinas da sua central nuclear, na cidade de Pripyat,
explodiu, obrigando toda a cidade a evacuar. 35 anos depois, quase ninguém
voltou, e Pripyat é hoje uma cidade-fantasma que se transformou numa atração
turística, após a série de televisão acima mencionada. Embora os ares já
estejam respiráveis, este cantinho da Ucrânia degradou-se tão depressa que,
atualmente, é mais barato deixá-lo cair do que restaurá-lo. No entanto, se
lermos e virmos os vídeos do link da Euronews (abaixo indicado), esta
cidade continua a ter zonas de exclusão e continua a ser relativamente perigoso
visitá-la.
Serhii
Plokhy é um professor e Historiador da Universidade de Harvard. Há quem diga
que foi este o livro que inspirou a série da Netflix. No entanto, o que torna a
sua leitura fascinante é o facto de que toda esta investigação histórica está
escrita como se fosse um romance de suspense, sem nunca retirar a dignidade das
vítimas e faltar ao respeito de quem lutou para salvar o mundo. É considerado
por muitos críticos como o primeiro livro que conseguiu explicar às massas
leigas - de uma forma muito clara e objetiva - o horror que aconteceu há 35
anos. Por isso mesmo, a equipa da biblioteca escolar não hesitou em adquirir
uma cópia para os nossos alunos.
Não é uma
leitura muito feliz para se ler na época natalícia. E, no entanto, é a leitura
perfeita. É que o dia de Natal celebra o nascimento de um Deus que morreu para
salvar a Humanidade. Lembrarmo-nos do nosso passado e dos nossos erros só nos
faria bem à alma. Às vezes, uma dura lição de humildade faz melhor à construção
da nossa personalidade do que um elogio.
Clarividente
e trágico, uma leitura que deve ser feita no silêncio do Inverno e da lareira.
Link da
Euronews.travel:
quinta-feira, dezembro 09, 2021
Livro da Semana - O Sal da Terra, de Miguel Real
Já que temos
andado toda esta semana a falar de Direitos Humanos – uma boa parte graças ao Departamento
de Ciências Sociais e Humanas – A equipa da nossa biblioteca escolar decidiu
também celebrar o dia 10 de Dezembro, através de uma estante do mês e livros da
semana, todos eles dedicados a este assunto. Ora, O Sal da Terra, de
Miguel Real, é um romance que cai que nem uma luva, nesta nossa seleção de
livros para este mês.
Há duas
coisas muito interessantes a mencionar, no que diz respeito a este romance. Em
primeiro lugar, cada capítulo foi escrito como se fosse um conto independente,
onde se narra um episódio – verídico ou imaginário – da vida deste fascinante
padre jesuíta. Com efeito, o leitor pode ler este livro de trás para a frente,
abrindo no meio, começando na primeira página. No entanto, é um romance porque
deve ser lido como um todo. Simplesmente, não importa o capítulo que serve de
início para a viagem. Em segundo lugar, esta narrativa pertence a um ciclo de
seis romances dedicados ao Império de Portugal no Brasil. Cinco já foram
escritos e editados, falta o último. E O Sal da Terra é precisamente o
primeiro volume desta longa saga.
Embora este
livro esteja centrado na figura de António Vieira, este romance histórico é,
acima de tudo, um olhar entre os portugueses do século XVII, a invasão dos
holandeses, as inúmeras tribos índias, os escravos africanos capturados para o
Brasil e o choque de culturas entre todas estas faces da Humanidade. Miguel
Real é um professor de Filosofia, por isso mesmo as grandes questões humanas –
quem sou? De onde vim? Para onde vou? – são extremamente importantes para ele.
A personagem de Vieira torna-se, assim, uma figura catalisadora de todas estas
perguntas que assombram a Humanidade.
No entanto, Miguel Real é também um apaixonado
pela História. Se olharem para a sua página na wikipedia, não é difícil
constatar que a disciplina de História foi provavelmente a disciplina que ele
mais adorou, enquanto andava na escola. É raro o livro que não se debruce sobre
uma figura histórica ou um período importante para Portugal. Há, claro,
exceções como, por exemplo, O Último Europeu, um romance que é, acima de
tudo, uma obra literária do género de ficção científica. Porém, uma coisa é
certa: os direitos humanos estão presentes em todos os seus romances e ensaios.
Surpreendente
e magnífico, O Sal da Terra é uma obra para ler com atenção… e prazer.
segunda-feira, novembro 15, 2021
Livro da Semana: Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago
Se tivéssemos que descrever este romance numa só palavra,
provavelmente o adjetivo “profético” assentar-lhe-ia que nem uma luva. E não
será difícil explicar porquê.
Estávamos no ano de 1995. As torres gémeas ainda não tinham
caído; o DAESH ainda estava para nascer; a ideologia do “politicamente correto”
da extrema-esquerda só existia nos Estados Unidos da América e ainda não tinha
infetado o resto do planeta; as teorias de conspiração – muitas delas ligadas à
extrema-direita - ainda não tinham chegado à Europa; o radicalismo religioso só
existia nos livros de História; os refugiados eram uma coisa do passado; a Wikipedia
ainda não tinha sido imaginada, quanto mais as redes sociais; a internet
ainda era uma coisa de poucos e os smartphones só existiam nos filmes de
ficção científica; o veganismo era um movimento residual e o Reino Unido ainda
estava na União Europeia; o euro estava a ser criado; a China ainda não era
dona do mundo; os jornais de papel ainda eram senhores da Verdade, as lojas de
aluguer de vídeo ainda davam lucro, as salas de cinema ainda enchiam e os
leitores de MP3 flutuavam no Éter, à espera de que um carola os inventasse.
Podíamos ficar aqui durante horas a recordar tudo o que
existia há mais de 20 anos e já desapareceu ou está em vias de desaparecer.
Porém, uma coisa é certa: os anos 90 foram anos de inocência, estavam cheios de
otimismo e de fé no Futuro. Até que um homem chamado Saramago veio estragar a
festa.
Ensaio sobre a Cegueira é obviamente uma alegoria. A dita “cegueira” que de
repente ataca toda a Humanidade nada mais é do que a cegueira do Espírito
Humano. Este é um livro que, no ano de 1995, colocava uma questão: e se a
Humanidade voltasse a “cegar”, o que aconteceria se Ela se esquecesse de todas
as lições do Passado? Com base nesta interrogação, Saramago criou um mundo onde
toda a gente perdeu a capacidade de VER, e só uma mulher parecia estar imune a
esta “doença” contagiosa e epidémica.
Mas nós, que pertencemos ao ano de 2021, já não precisamos de
colocar esta questão. Só precisamos de ligar a TV ou o smartphone, e
assistirmos de camarote a um planeta que está e enlouquecer e a morrer. Tal
como este romance previu, no final do século XX.
Sufocante, clarividente, brilhante. E profético.
Felizmente, a sequela tem um final feliz.


