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sexta-feira, outubro 07, 2022

Estante do mês de outubro 2022, Ano Europeu da Juventude.

 

Ainda faltam dois meses para terminarmos este ano, mas ainda dá para falarmos nele, até porque a nossa escola anda entusiasmada à volta do tema da Mochila Cultural. Ora, tendo em conta de que estas duas últimas gerações – a dos milénios e a dos Z – têm sido precisamente as que mais viajaram em toda a História da Humanidade, faz todo o sentido que comecemos este ano prestando homenagem aos nossos alunos, muitos deles já com sonhos de viver alguns anos num país estrangeiro.

Esta estante deste mês não pretende ser literária e artística. Pretende, isso sim, abordar as eternas grandes questões que preocupam as crianças e adolescentes de todo o mundo: a guerra, a depressão, o suicídio, projetos futuros, a amizade, a escola, a dor de crescer, a desilusão, o espírito de equipa e a vontade individualista de sermos nós mesmos. Além disso, esta estante irá também servir para outras atividades deste mês, por isso todos estes livros foram selecionados e planeados com cuidado.

As aulas começaram no final de setembro e muito já foi feito, mas outubro é sempre o mês que estreia as nossas exposições e conselhos de leitura. Como sempre, desejamos que as nossas escolhas sejam apelativas para todos!

Podem ver um vídeo com a apresentação de tudo aqui.

Bom ano letivo e boas leituras!

terça-feira, outubro 15, 2019

Livro(s) da Semana Série Harry Potter


A história já foi contada, a história já foi filmada, mil e uma versões das personagens já foram recriadas pelos fãs, a série já foi politizada pela extrema-esquerda e caluniada pela extrema-direita. Livros foram queimados e rasgados em público, há personagens que já mudaram de cor e de sexo, já há papéis de parede, malas, sapatos, parque de diversões, bandas musicais dedicadas exclusivamente a este mundo...
Era suposto tudo ter terminado no ano de 2011, data do último filme. No entanto, este universo está mais do que vivo, ao ponto de já ter entrado no vocabulário comum da sociedade moderna. Então, por que motivo estamos a aconselhar-vos a (re)leitura deste mundo mágico, se já toda a gente conhece o desfecho da história?
Para começar, Harry Potter era suposto ser uma série de volumes escritos para crianças, mas é com a chegada do terceiro livro que começamos a sentir que há algo negro a rastejar devagarinho neste mundo. Toda esta narrativa é contada através dos olhos de uma criança que vai crescendo e amadurecendo. Do olhar encantado e inocente da Diagon-Al na Pedra Filosofal, vamos notando a interferência dos feiticeiros negros. E é de tal forma grande que, já na obra final, a famosa praça mágica transformou-se num esgoto cheio de lojas fechadas, magia negra e pedintes nas ruas. Podemos sentir o colapso económico de uma sociedade outrora próspera, agora nas mãos de fanáticos que esgotam os seus recursos em nome de ideologias “neo-nazis”. O que nos leva a chegar a uma conclusão: por detrás do olhar “fofucho” do mundo dos feiticeiros, o que existe na realidade é uma feroz crítica à nossa sociedade atual. Com efeito, o livro cinco é um verdadeiro libelo contra o Sistema de Educação moderno, que tende a valorizar tópicos como “atitudes e valores”, em vez de dar valor a conteúdos programáticos que serão úteis para o mercado de trabalho. No mundo dos mágicos, o professor ensina, o pai educa e os dois trabalham juntos. Em Hogwarts, os docentes têm total autoridade sobre os alunos, de tal forma que podem recusar a entrada de um deles na sala de aula (para sempre!!), caso falte ao respeite ou não trabalhe o suficiente (claro que tal não acontece, as crianças nunca chegam a ser expulsas, porque a sua postura é quase sempre cordial e respeitosa). A guerra cerrada entre Dumbledore e Umbridge não é apenas uma guerra de poderes: é também uma sociedade antiga, mais meritocrática, mais hierárquica e mais exigente, que se vê ameaçada por teorias de ensino demagógicas e doutrinadoras e que, pior ainda, retiram o valor a esse ser humano que é o “professor”, transformando-o numa mera roldana da Máquina, nada mais. Não se esqueçam, afinal de contas, de que a autora desta série foi professora, e conheceu muito bem o sistema de ensino por dentro.
Como se tais críticas não bastassem, nota-se o olhar mordaz e altamente severo do “jornalismo moderno”: voltando ao livro cinco (A Ordem da Fénix), não é difícil percebermos até que ponto os canais de informação estão ligados aos grandes poderes, e até que ponto eles conseguem transformar uma mentira numa verdade. Devagarinho, como um veneno de longa duração, vidas e reputações vão sendo destruídas uma a uma, só porque certas pessoas se tornaram incómodas para o Novo Regime. Não vos faz lembrar nada?
E quem é que não reparou na influência fortíssima dessa célula da sociedade chamada “família”? E é de tal forma importante, que até os próprios Malfoys traíram várias vezes o próprio Voldemort, só para se salvarem uns aos outros! Família está primeiro, ponto final. As figuras do pai e da mãe são cruciais para o bem-estar psíquico de cada personagem deste livro: Lilly sacrificou-se para salvar o seu filho Harry; Molly Weasley largou a sua independência para se dedicar exclusivamente à educação dos seus filhos; Narcissa Malfoy, mãe de Draco, traiu duas vezes o próprio Voldemort, para tentar salvar o seu filho... As mães e os pais que falham criam monstros. Podemos também falar da influência da figura paterna, mas assim este texto nunca mais teria fim.
Por fim, ler esta coleção de uma assentada permite-nos ver até que ponto a própria escrita de J.K.Rowling foi sofrendo evoluções: da linguagem simples e clara – perfeita para crianças – passamos para uma narrativa cada vez mais descritiva, mais metafórica e mais rica. Mais ainda, o tom da escrita torna-se cada vez mais profético, anunciando nas entrelinhas sinais de perigo que estão a aparecer no NOSSO mundo. Por isso mesmo, reler esta série é um dever. Vão ser muitos aqueles que irão ficar espantados com todas as “segundas leituras” que não conseguiram detetar no passado, e que agora são tão claras como a água.
São assim, as obras-primas: intemporais e cheias de surpresas.

segunda-feira, outubro 30, 2017

Livro do Mês - As Brumas de Avalon de Marion Zimmer Bradley

   O clássico “As Brumas de Avalon” regressa ao mercado português para dar a conhecer, a uma nova geração, esta história mágica e intemporal centrada nas mulheres que, por detrás do trono de Camelot, foram as verdadeiras detentoras do poder.
     No volume I - A Senhora da Magia -  Morgaine é ainda uma criança quando testemunha a ascensão de Uther Pendragon ao trono de Camelot. Uther deseja Igraine, a mãe de Morgaine, presa a um casamento infeliz com Gorlois. Mas há forças maiores que estão em curso e que se preparam para mudar as suas vidas para sempre. Através da sua sacerdotisa Viviane, Avalon conspira para unir Uther a Igraine e dessa aliança nascerá Arthur, a criança que salvará as Ilhas. Morgaine, dotada com a Visão, é levada por Viviane para Avalon onde irá receber treino como sacerdotisa da Deusa Mãe. É então que assiste ao despertar das tensões entre o velho mundo pagão e a nova religião cristã. O que Morgaine desconhece é que o destino irá armar-lhe uma cilada e pô-la, de novo, no caminho do meio-irmão Arthur da forma que menos espera…

quinta-feira, maio 04, 2017

Livro do Mês -O Gerânio, contos dispersos - Flannery O’Connor

Livro do Mês
O Gerânio, contos dispersos - Flannery O’Connor

          Contar uma história em poucas páginas é das coisas mais difíceis de se fazer. A tendência de um ser humano é a de exagerar na narrativa, decorar as personagens com
mil e um pormenores, inventar bastantes personagens, relatar peripécias paralelas… Mas sintetizar uma narrativa simplificando os pormenores, ao mesmo tempo em que a história não perde o seu brilho e a sua beleza é das tarefas mais difíceis para um escritor.
     São, de facto, poucos aqueles que conseguem dominar estar arte: Maupassant, Eça de Queirós, Vercors, estes são alguns exemplos que ficaram para a História da literatura.E Flannery O’Connor.
 Escritora dos Estados Unidos da América, o seu olhar sobre a discriminação racial, bem como outros preconceitos sociais – particularmente a discriminação que vem dos estados do Sul – gerou um impacto muito forte nas mentalidades dos anos 50 e 60, à semelhança de outras grandes obras como Não matem a cotovia e A cabana do pai Tomás. O Gerânio é uma das muitas histórias asfixiantes sobre o racismo: eis o caso de um homem branco, que não consegue ultrapassar a diferença de cor, ao ponto de se tornar perigoso para o vizinho do lado.
Fortes, brilhantes e, muitas vezes, depressivos, os contos de Flannery O’Connor não são para se ler quando estamos a passar por momentos mais tristes. No entanto, são uma leitura indispensável para tentarmos compreender a evolução do pensamento que teve lugar na era dos anos sessenta, bem como o seu impacto mundial na nossa sociedade atual.

          

sexta-feira, março 17, 2017

Livro do mês - A Divina Comédia, de Dante Alighieri


A Divina Comédia de Dante Alighieri

           
          De todos as obras escritas pela Humanidade, a Divina Comédia tem sido aquela que mais paixões, mais fascínio e mais polémica tem criado. Altamente simbólica; carregada de críticas ferozes à sociedade de então; extremamente influenciada pela fé Católica, embora a mesma seja olhada de uma maneira mais pessoal; um verdadeiro baú de ocultismo, numerologia, mitologia greco-romana e cosmologia religiosa; este longo poema, dividido em três partes (Inferno, Purgatório e Paraíso) é, para os Italianos, o que Os Lusíadas é para os Portugueses. As grandes grandes grandes obras-primas contam-se pelos dedos e, pelos vistos, cada nação tem a sua.
            Porém, o que significa, antes de mais, a palavra “Comédia”? É que basta lermos as três primeiras páginas desta obra para chegarmos à conclusão de que esta é tudo menos cómica. Ora, a palavra “comédia” sofreu uma evolução semântica, isto é, o vocábulo é o mesmo mas o seu significado modificou-se. Originalmente, este significava “poema narrativo”. Assim, o título deste livro pode ser entendido como sendo uma espécie de “Divina História da Vida Humana”. Agora, as coisas já começam a fazer sentido…
            Dante viveu num século e numa região da Europa onde o Inferno, o terror das chamas eternas e o castigo divino eram factos e não lendas (século XIII, Itália, mais concretamente a região Toscana). Pior ainda, devido às suas constantes ideias políticas, foi exilado. É nesse período conturbado, cheio de guerras e de terrores profundos, que Dante escreve a Divina Comédia. E não é muito difícil percebermos a razão por que foi exilado: não só este autor se atreve a colocar figuras importantes e altamente poderosas da época nas chamas do Inferno, como também a sua fé religiosa era várias vezes contrária aos Cânones da Igreja Romana. A título de exemplo, Dante acreditava firmemente que o arrependimento ajudava sempre a alma a ascender. A pior alma humana, através deste sentimento doloroso, poderia lentamente sair do Inferno, chegar ao Purgatório e, finalmente limpa de toda a maldade, ascender ao Céu. Tal ideia era liminarmente rejeitada pelo papa: o medo do castigo eterno era muito muito conveniente para os poderosos de então…
            Muito mais poderíamos dizer deste génio da literatura, mas o artigo já vai longo. Vasco Graça Moura criou uma das mais polémicas traduções desta obra, bastante “livre” e pouco interessada no purismo da forma. Infelizmente, a literatura – particularmente a poesia- sofre de uma grande falha: ao contrário da música, pintura ou fotografia, a barreira da língua é sempre um inconveniente e, por mais “perfeita” que uma tradução seja, há sempre algo que se perde. Sobra-nos, assim, o conceito, a ideia, a beleza da metáfora.

            Talvez um dia a Humanidade invente uma máquina que ajude o nosso cérebro a decifrar TODAS as línguas…

sexta-feira, maio 08, 2015

Livro do Mês- Coleção Clube das amigas

           Livro do Mês- Coleção Clube das amigas


 À semelhança dos anos passados, a nossa biblioteca está a preparar a “Semana da Adolescência”. Por isso mesmo – para variarmos um bocadinho – os livros deste mês serão dedicados não apenas a uma obra, mas a uma coleção inteirinha. 

       O “Clube das amigas” não é obviamente um conjunto de histórias que sejam do agrado dos rapazes. Todavia, são um olhar muito interessante e muito fiel do mundo das adolescentes, um mundo cheio de mágoas, ansiedades, vaidades, complexos, desejos, e muitos, muitos sonhos para conquistar.
         Qualquer aluna de 13, 14 anos facilmente se identificará com os grandes dramas e alegrias das heroínas destes livros: escrevem diários, confessando os seus amores e brigas que acontecem sempre numa família, descrevem a sua turma e escola, falam de blusões de cabedal e modas coloridas, zangam-se com as amigas, apaixonam-se pelo rapaz errado e, se sobrar algum tempo, É Tempo de Pensar na Minha Vida!
        Longe vão os tempos em que existiam duas bibliotecas: os “livros para as meninas” e os “livros para os rapazes” já não são tão óbvios e, atualmente, já é comum depararmo-nos com uma história de amor numa obra de ficção científica (os Jogos da Fome são o exemplo perfeito disso). Mas temos que admitir que os homens e as mulheres não pensam da mesma forma – se bem que sejam perfeitamente capazes de chegarem aos mesmos objetivos. Assim sendo, este mês vamos ser um bocadinho “cor-de-rosas” e darmos a conhecer às meninas deste agrupamento um conjunto de livros que se leem sempre com prazer e com muitas gargalhadas.

segunda-feira, março 16, 2015

Semana da Leitura: Livro do Mês – Samarcanda, de Amin Maalouf



Livro do Mês – Samarcanda, de Amin Maalouf

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
          Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
           E cala. O mais é nada.
Morre tão jovem ante os deuses quanto
          Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
                                                                                E cala. O mais é nada.

Fernando Pessoa/Ricardo Reis?? Nem pensar! Este poema pertence a Omar Khayyam, um poeta persa (antigo Irão), entre os séculos XI e XII d.C. Homem apaixonado pela vida e pela alegria das coisas simples que nos trazem a alegria de viver, toda a sua poesia é um hino à compreensão das fraquezas humanas, que nos tornam tão perfeitos e tão imprevisíveis. Pior ainda, Omar Khayyam é o poeta da pior transgressão que existe numa terra onde a religião pode ser fanática: a transgressão do vinho podia (e ainda pode!) trazer a morte ou a humilhação pública num país muçulmano.
Ora, Samarcanda, a terra das Mil e uma noites e da Rota da Seda, é o local onde toda a ação do livro se passa. Hoje situada no Uzbequistão, Omar assiste ao declínio da Civilização Persa, outrora grandiosa e agora vítima do fanatismo religioso. Aliás, o livro começa com uma tentativa de linchamento: um discípulo do célebre filósofo Avicena, já louco e pobre, está em vias de ser espancado até à morte por uma multidão enfurecida, quando Omar, que assistia a tudo isto, intercede a favor do pobre homem. O azar, como é de esperar, bate à porta: desta vez é ele que é espancado e levado às autoridades.
Todo o livro nos magoa e nos enfurece: eis um homem na Era errada e no lugar errado. Mas o trágico é constatarmos que não existe propriamente aquilo que chamamos “um tempo errado”: não estamos hoje, em pleno século XXI, a passar exatamente pela mesma situação? Ou será que, como dizem os sábios, “a história repete-se até à Eternidade?
Amin Maalouf revela-nos, através de um romance muito intimista e muito “árabe”, o que é ser-se iluminado numa civilização em declínio. Não é de espantar, portanto, que este grande filósofo, matemático e poeta só voltasse a ser respeitado e reverenciado nos inícios do século XX, na Europa e nos Estados Unidos da América. E é lendo os seus poemas – compilados numa obra de nome Robaiyat – que constatamos até que ponto este génio da literatura mundial ainda hoje é um escritor maldito em tantos países!

Uma vez que a Semana da Leitura, na nossa escola, foi dedicada ao culto do chá e das palavras mundiais, não é, portanto, de espantar que o livro do mês seja precisamente dedicado a este grande romance contemporâneo. Aliás, não se admirem se, na quarta-feira desta semana, entrarem na biblioteca e encontrarem… um “chá do deserto” pronto a receber os alunos: na quinta-feira, por volta das 14. 30 m., a escola falará de desertos, do convívio à mesa… e da tradição do chá.