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terça-feira, outubro 09, 2018

De onde vem a expressão...

Ele/a é um vira-casacas!

wpsCA1B.tmp Toda a gente conhece esta expressão bem antiga, e são muitos os que a utilizam no “futebolês”: é o indivíduo que muda sempre de opinião ou de equipa vencedora, sempre que lhe convém e lhe dá muito jeitinho.

Porém, este chavão popular está mais ligado aos jogos políticos e às batalhas de exércitos do que ao Futebol, e referia-se a todos os que mudavam de partido ou ideologia, assim wpsCA3B.tmpque reparavam que as coisas não estavam lá muito boas para o lado deles. Este hábito é tão antigo que, nos séculos XVIII e XIX, Espanhóis, Franceses e Portugueses já tinham uma casaca com duas cores: o forro, virado ao contrário, passava a ser um segundo casaco! É muito estranho explicar este uso antigo às massas de hoje, mas os deputados/soldados e revolucionários de então vestiam-se mesmo com as cores das bandeiras e ideologias que professavam seguir! Hoje já ninguém anda de vermelho ou verde ou azul às bolinhas... O que torna as coisas bem mais fáceis para os oportunistas...

Quem começou este requinte de hipocrisia foi – reza a lenda – o rei Carlos Emanuel III de Savóia (século XVIII): sempre que queria defender o seu ameaçado património territorial, aliava-se aos Franceses ou aos Espanhóis, conforme a utilidade, usando alternadamente as cores nacionais desses países em sua casaca de gala. A partir daí, muitos perceberam as vantagens de usar a roupa para ganhar pontos e safar-se até de uma execução, de uma bancarrota ou prisão!

As casacas de duas cores já não existem. Mas o mundo ainda está cheio de “vira-casacas”...

Imagens retiradas daqui e daqui :

Citação retirada daqui :

domingo, maio 17, 2009

De Onde É Que Vem A Expressão…

Para Inglês Ver

clip_image002Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali! 
Um de raiva delira, outro enlouquece,  
Outro, que martírios embrutece, 
Cantando, geme e ri! 

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar, 
Diz do fumo entre os densos nevoeiros: 
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros! 
Fazei-os mais dançar!..." 

E ri-se a orquestra irónica, estridente. . . 
E da ronda fantástica a serpente 
          Faz doudas espirais... 
Qual um sonho dantesco as sombras voam!... 
Gritos, ais, maldições, preces ressoam! 
          E ri-se Satanás!... 

(Excerto do poema Navio Negreiro, de Castro Alves)

Para quem está ou esteve atento às aulas de História, as palavras “navio negreiro” não são desconhecidas. Tratava-se de embarcações que tinham como objectivo capturar negros e “despachá-los” para as zonas de comércio de escravatura.

As condições desses mesmos barcos são lendárias e ainda hoje arrepiam: estes pobres seres humanos eram amontoados como se fossem sacos de batatas, não recebiam quaisquer tratamentos médicos, morriam de fome e as mulheres negras eram sistematicamente violadas pelos marinheiros (para quem quiser saber mais pormenores, consultem o artigo http://www.geocities.com/zumbi2000/trafico.htm). É triste dizer isto, mas foi graças aos portugueses e o seu vasto império que a escravatura foi reintroduzida na Europa e, mais tarde, nos Estados Unidos da América. É uma herança muito dura que o nosso país carrega. Porém, a História é a História, não se pode branqueá-la ou modificá-la. Serve-nos o consolo de sabermos que o Passado oferece-nos sempre lições de vida e pistas para aquilo que será o futuro da Humanidade.

clip_image004 Por volta do século XVIII, o Brasil firmou laços diplomáticos, políticos e económicos com a Inglaterra. Supostamente, um desses tratados tinha como objectivo reprimir o tráfico de escravos. Era suposto as duas nações estarem atentas às chegadas desses navios e impedir que estes “empresários” enriquecessem à custa do sofrimento de muitos seres humanos. O governo brasileiro tinha a obrigação expressa de patrulhar os mares e avisar os ingleses de qualquer embarcação suspeita.

Porém (onde é que já ouvimos isto…), ficou tudo no papel. Segundo o filólogo brasileiro R. Magalhães, (…) o tráfico continuava, fazendo o governo vista grossa à traficância. Dizia-se, por isso, que o nosso patrulhamento era fictício, isto é, apenas para inglês ver, como uma satisfação platónica aos acordos oficialmente firmados.

Desde então, a expressão “para inglês ver” serve para falarmos de algo que é “só fachada”, algo que não passa de uma mentira, de uma farsa. Ou, utilizando uma expressão que já referimos, “atirar poeira para os olhos”.

Ilustrações retiradas de:

http://flickr.com/photos/75347676@N00/265656027

www.maltabrasil.de

segunda-feira, março 30, 2009

De Onde É Que Vem A Expressão…

clip_image002Não Dizer/Perceber Patavina

Esta palavra é tão comum, que até o meu próprio computador Toshiba não a identifica como um erro. E, no entanto, “patavina” não é um vocábulo português, mas sim, italiano. Ora, por que motivo uma palavra destas aparece no nosso vocabulário?

Pádua, uma cidade italiana lindíssima, era conhecida no antigo Império Romano por Patavium. Os cidadãos naturais dessa bela terra eram chamados (adivinhem lá…) patavinos. A população de Pádua tinha e tem o que nós chamamos um dialecto, ou seja, uma versão popular, regional e muito adulterada de uma língua, tão adulterada que quase chega a ser uma nova língua (o mirandês e o barranquenho são dois exemplos típicos de dialectos em Portugal). Na verdade, Itália está carregada de dialectos: o napolitano, o siciliano, o romano, o gaetano, o toscano, o lombardo, o milanês, etc. Já agora, a título de curiosidade, quando dizemos “eu falo/não falo italiano”, o que queremos na verdade dizer é “eu falo/não falo toscano”, o falar das gentes de Florença. Este dialecto foi elevado à categoria de “língua oficial”, graças ao génio incomparável de um escritor florentino, Dante Alighieri, o autor da esplendorosa obra “A Divina Comédia”.

Mas voltemos ao que interessa: Pádua foi a terra natal de um dos maiores escritores italianos de sempre, Tito Lívio. Os seus documentos históricos ainda são tidos como muito fiéis às verdades da História e estão extraordinariamente bem escritos. O problema é percebê-los: Tito escrevia no dialecto de Pádua, o que quer dizer que quem não entendesse o falar destas gentes, não perceberia…Patavina do que tinha lido. Aliás, diz-se que a sua obra Décadas está minada de “patavinitas”, ou seja, palavras ou construções frásicas típicas das gentes de Pádua.

Há também duas outras explicações possíveis: os intelectuais têm tendência para desprezar os “rústicos do campo” ou as sabedorias das terras de interior. Esse desprezo pode muito bem ter tido consequência na adulteração do significado da palavra. Por outro lado, Pádua, no século XIII, rivalizava fortemente com Bolonha, uma vez que ambas as cidades possuíam duas fabulosas faculdades. Ora, nenhum estudante que quisesse ser juiz poderia ignorar a sabedoria da ciência jurista de Pádua. O que era o mesmo que ser um idiota que não percebe nada da matéria, ou seja, patavina…

Foto retirada de:

http://www.sebodomessias.com.br/sebo/(S(t1utqsuwka4gly55oylhvl55))/detalheproduto.aspx?idItem=6118

terça-feira, março 03, 2009

De onde é que vem a expressão…

Lançar poeira nos olhos

clip_image002 Quase nos custa a acreditar que, há umas simples décadas atrás, as ruas estavam inundadas de pó! E tal situação desagradável agudizava-se nas grandes capitais. O número gigantesco de pessoas a circular de um lado para o outro; as carroças e, mais tarde, os carros; a quantidade infindável de animais que partilhavam o espaço da cidade com os humanos (cães, gatos, cavalos, porcos, ovelhas, burros, etc); sem falarmos das construções de edifícios e reparações de muitas estruturas; tudo isto provocava imensas avalanches de pó a pairar no ar. Diz-se que, no início do século XX, Nova Iorque era um lugar onde só se podia circular com um lenço na boca, tal era a massa das multidões e tal era o seu galopante crescimento. Hoje, a esmagadora maioria das urbanizações do mundo ocidental possuem ruas e estradas devidamente pavimentadas, o que facilita e muito a diminuição da poluição no ar.

Hoje, o efeito desagradável do pó (comichão no nariz, tosse compulsiva, falta de ar e olhos a arder) só é sentido, actualmente, nas grandes corridas de automóveis. Porém, na Grécia antiga, os atletas dos jogos olímpicos corriam em caminhos arenosos. Ora, aqueles que corriam à frente levantavam imensas massas de poeira àqueles que estavam mais atrasados, o que os confundia bastante e os atrasava ainda mais!

Podemos concluir que, embora o sentido literal da expressão se tenha perdido, a mensagem continua a ser a mesma: “lançar poeira nos olhos” é confundir o vizinho do lado, distraí-lo, para podermos fazer sossegadamente aquilo que nos interessa.

 

Larga o osso! (ou Larga o osso, piranha!, no Brasil)

clip_image004 É o que costumamos dizer, quando um homem/mulher não pára de perseguir teimosamente a sua presa, ou seja, o seu futuro namorado ou futura namorada. Mas esta expressão, curiosamente, está mesmo ligada a um monte de ossos!

Expliquemo-nos então. Quando Vasco da Gama morreu, os seus ossos foram inicialmente trasladados para a Capela da Quinta do Carmo, na Vidigueira, e lá ficaram sossegadinhos durante doze anos (não nos esqueçamos que este português famoso era conde da Vidigueira). Porém, assim que a construção do célebre mausoléu do Mosteiro dos Jerónimos terminou, o governo de então achou por bem transferi-los para a capital do país. Como devem calcular, os vidigueirenses, orgulhosos da honra de terem restos mortais tão ilustres, não acharam piada nenhuma à decisão das autoridades. Vai daí… Trocaram os esqueletos!

A mentira não durou muito tempo: a comissão encarregada de recolher o defunto depressa constatou que aqueles ossos não podiam, de forma alguma, pertencer ao grande Vasco da Gama. Para começar, este português era conhecido por ser um homem muito forte e espadaúdo. Além disso, sabia-se que os ossos, enquanto estiveram enterrados na Índia, tinham adquirido uma coloração avermelhada, devido à natureza do solo que os cobrira. Com efeito, os restos mortais que tinham nas suas mãos, não correspondiam a nenhuma destas características.

Como é de se calcular, foi enviada outra delegação a Vidigueira e, desta vez, debaixo da fúria da multidão, levaram o verdadeiro defunto para Lisboa. E, durante muito tempo, os vidigueirenses passaram a ser conhecidos por “Larga o osso”…

Corredores olímpicos retirados de:

http://www.britannica.com/EBchecked/topic-art/1453062/76169/Ancient-Greek-vase-depicting-Olympic-runners-525-BC

Túmulo de Vasco da Gama retirado de:

http://tumulosfamosos.blogspot.com/search?q=

terça-feira, fevereiro 03, 2009

De Onde É Que Vem A Expressão…

Vai Plantar Batatas!

clip_image002 Os portugueses demonstraram, ao longo dos tempos, uma enorme criatividade, no que se refere a mandar alguém “dar uma curva”: “Vai bugiar”, “Vai à fava”, “Vai para o quinto dos infernos”, “Vai pentear macacos”, “Vai ver se eu estou ali”, entre outras expressões correntes deliciosas. Só não se percebe lá muito bem por que razão a batata está ligada a indivíduos que nós desprezamos e que, por isso, não desejamos ver à nossa frente…

Uma das razões mais prováveis para a origem desta expressão reside num livro de nome Locuções, Adágios, Anexins, de António Tomás Pires. Segundo o autor, nos finais do século XIX, Portugal estava a enfrentar uma crise económica profunda. Com efeito, a situação económica das pequenas indústrias do norte era tão pouco convidativa, que muitos operários largavam-nas para se dedicarem ao trabalho da lavoura, e os que ficavam compensavam os maus salários com a agricultura de subsistência.

Não foi só o povo que teve que se agarrar à enxada para sobreviver. Os oficiais de ourives de Gaia e de Gondomar, assim como os oficiais de marceneiro em Paredes também tiveram que plantar este apetitoso legume, uma vez que perderam os seus empregos. “Ir plantar batatas” significava na altura “ficar desempregado”. Hoje, serve para exigirmos a alguém que nos deixe em paz.

Vai Para os Quintos Dos Infernos!

clip_image003 Eis outra expressão que muita gente ainda usa, e que tem exactamente o mesmo sentido de “Vai plantar batatas”. No entanto, a Igreja Católica ensinou-nos que só existia UM inferno. Então… Porque é que este dito corrente utiliza a palavra “inferno” no plural??

No livro A Vida Misteriosa das Palavras, de Gomes Monteiro e Costa Leão, a palavra “quinto” referia-se a um imposto que a monarquia portuguesa cobrava das minas de ouro do Brasil. Ora, a nau que vinha de Portugal buscar esse pecúlio chamava-se (ou era conhecida por) Nau dos Quintos.

Mas a história não acaba aqui. Esta embarcação era também usada para transportar os degredados, condenados a viver e trabalhar no Brasil. As condições de viagem, como devem calcular, eram terríveis. Porém, o que os esperava em terra também não era pêra doce. Finalmente, muitos deles estavam convencidos que o nome do lugar para onde iam chamava-se “Quintos”. Assim, os familiares que ficavam em Portugal lastimavam-se dizendo: “Ai, ele foi para os quintos dos infernos!!”.

Fotografia da batata retirada de: http://poesiasflavio.blog.uol.com.br/

Ilustração do Inferno retirada de:

http://www.templodeapolo.net/Civilizacoes/grecia/artigos/2007-dezembro/04-12_vida-morte.html

S.C.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

De Onde É Que Vem A Expressão…

Do Tempo Da Maria Cachucha/ Maria Castanha

clip_image002 É o que costumamos dizer, quando falamos de algo ou alguém que pertence a um passado já muito distante. Os brasileiros têm outra expressão, para exprimirem exactamente a mesma coisa: “Do Tempo Do Rei Charuto”. Mas… Quem foi esta “Maria Cachucha”??!!

Esta frase corrente é, pelos vistos, bastante antiga: já o escritor espanhol Cervantes (século XVI/XVII) a usou na sua obra El Casamiento Engañoso. De facto, tudo aponta para que esta expressão muito utilizada pelos portugueses seja… Espanhola. A nossa “Maria Cachucha” foi uma tal “Maricastaña” que, segundo a lenda (pouco ou nada se sabe dela), convenceu o seu marido a não pagar certos impostos exigidos pelo reino castelhano.

Já agora, importa referir que os portugueses foram pródigos a imaginar expressões correntes, relacionadas com tempos bastante antigos: No tempo em que a Berta fiava, Do tempo do arroz de quinze, Do tempo do avô do Padre Inácio, Do tempo do bacalhau a pataco

 

clip_image001Vira-Casacas

Todos nós já ouvimos falar desta expressão: o “Vira-casacas” é aquele ser humano oportunista que, consoante as circunstâncias, muda de política, de opinião e de amigos, sempre que isso lhe convém. São pessoas que não merecem o nosso respeito, pois não se pode confiar nelas para coisa nenhuma e, por isso mesmo, são muitas vezes vistas como traidoras.

Hoje em dia, a casaca é uma espécie de casaco preto, próprio para cerimónias especiais e que é vestido pelo sexo masculino. Todavia, há muito tempo atrás, esta “fatiota” era uma longa capa com mangas, quentinha e muito confortável para todos aqueles que andavam a cavalo. Além disso, convém lembramo-nos que, há séculos atrás, a maior parte dos cavaleiros pertencia a uma ordem militar (o cavalo foi sempre um animal caro) e cada uma delas possuía uma cor que as distinguia umas das outras.

Em tempos de instabilidade e de guerra, era normal os guerreiros “trocarem de cor/casaca”, sempre que tinham que atravessar território inimigo, ou quando as suas vidas se encontravam em perigo. Com o tempo, o acto de “Virar a casaca” deixou de ser visto como um acto de sensatez e de esperteza, e passou a ser interpretado como um gesto de falsidade e de hipocrisia.

O exemplo perfeito do “Vira-Casacas” foi Carlos Manuel, o duque de Sabóia. Sendo um nobre francês e também espanhol, o “honrado senhor” tanto apoiava um país como, logo a seguir, apoiava o outro, sempre que lhe dava jeito. Aliás, o seu cinismo era tão grande, que chegou a mandar fazer uma casaca que tinha duas cores, vermelha de um lado e branca do outro. Assim, cada vez que atravessava uma fronteira… Virava a casaca!

(Foto das Ruínas do Carmo: upload.wikimedia.org)

(Exemplo de uma casaca: http://www.fotoplus.com/dph/info17/i-estudos.htm)

terça-feira, janeiro 13, 2009

De Onde É Que Vem a Expressão…

Arrotar Postas de Pescadaclip_image002

 

Como todos nós sabemos, alguém que arrota postas de pescada é um gabarolas, um convencido, um mentiroso que se faz passar pelo que não é. Mas o que é que a pescada tem a ver com a vaidade?!

Ao longo de séculos e séculos, a carne foi a refeição preferida das classes endinheiradas. Com efeito, a imagem que muitos nós guardamos dos ricos é a de um gordo monstruoso, vestido com as roupas mais caras e fumando charuto. A obesidade era sinal de dinheiro, de muita riqueza. Os pobres, por outro lado, eram sempre descritos como criaturas famélicas, esqueléticas, e alimentavam-se do peixe que pescavam nos rios, quase sempre acompanhado por uma côdea de pão e azeitonas.

Foi preciso chegarmos ao final do século XX, para a obesidade ser encarada como um mal da sociedade. Além disso, (ironia das ironias!) os gordos, hoje em dia, são os pobres! Afinal, toda a gente sabe que uma refeição de peixe e legumes custa o dobro ou o triplo do que custaria um hambúrguer com massa.

Apesar destes apetites carnívoros, isto não quer dizer que as classes abastadas SÓ comessem carne: até há muito pouco tempo, o salmão era um peixe consumido apenas pelos ricos. E, durante longos séculos, a pescada foi considerada muito valiosa, uma iguaria que só aparecia nas mesas dos nobres. De facto, no Foral de Lisboa, em 1500, este peixe está no topo da lista das preferências, seguido dos gorazes, dos cachuchos ou cavalas, e assim por adiante. O bacalhau, claro, era o “fiel amigo” dos portugueses…

 

Elefante Branco

clip_image004 Qualquer leitor/espectador que esteja atento às crónicas dos jornais, aos debates e a comentários relacionados com a política, já deve ter ouvido esta expressão. Um “elefante branco” é uma obra ou construção bastante cara e que não tem qualquer utilidade para quem quer que seja. A título de exemplo, quando a ponte Vasco da Gama estava a ser construída, muitos jornalistas, economistas e arquitectos consideraram-na inútil para o país: não só seria bastante dispendiosa, como nem sequer serviria para diminuir o tráfego da Ponte 25 de Abril (mais conhecida por Ponte Sobre o Tejo). O tempo provou que todas estas pessoas estavam certas…

Mas falemos, então, da origem desta expressão: há séculos atrás, na Índia e na Tailândia, sempre que um cortesão entrava em desgraça, o rei oferecia-lhe… um elefante branco. Ora acontece que estes animais, por serem bastante raros, eram sagrados. Não serviam para trabalhar, não serviam para passeios, não serviam para nada. No entanto, eram um rombo financeiro na carteira de qualquer um. Um elefante não é propriamente um alegre e fofinho caniche: são necessárias toneladas de comida por dia, para o manter feliz e bem alimentado. Em suma: o “feliz contemplado” não podia negar este presente envenenado (não se diz “não” a um rei!) para além do facto de que, a partir daí, levaria o resto da sua vida a contar todos os tostões…

Ilustrações:

Pescada- Retirada do site

http://www.pescadosme.com.br/produtos/detalhes.asp?familia=Pescada%20Amarela

Elefante Branco Real- Século XIX, artista desconhecido

S.C.

terça-feira, dezembro 16, 2008

De Onde É Que Vem A Expressão…

A Pensar Morreu Um Burro

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Utilizamos risonhamente esta expressão, quando nos referimos de alguém que leva imenso tempo a tomar decisões, por mais simples que elas sejam. Ou seja, nunca mais se chega a uma solução concreta, porque a pessoa que devia estar encarregada de a resolver, “empata” tudo com a sua lentidão.

A origem desta expressão vem famoso dilema criado pelo filósofo Jean Buridan (século XIV), de nome “O Asno de Buridan”. Ao querer condenar todos aqueles que levam imenso tempo a tomar decisões, este pensador imaginou um burro cheio de sede e cheio de fome. Pior ainda, a sua sede era tão forte e tão intensa como a sua fome. De repente, vê-se à frente de duas tigelas. Uma estava cheia de água e a outra de comida. O que fazer? Deverá beber primeiro? Mas a barriga aperta tanto…

Não é difícil adivinharmos o fim da história: o burro ficou confuso de tal maneira, que acabou por morrer devido às duas carências. Como nunca mais se decidia…

 

Depois De Mim, O Dilúvio

clip_image003 Esta é outra expressão que, infelizmente, já está a cair em desuso. No entanto, ainda pode ser encontrada em vários jornais e revistas deste país. Normalmente, esta é uma frase que muitos escritores de crónicas ainda gostam de utilizar nas suas opiniões. Mas… “Dilúvio” porquê?

Segundo o livro sagrado dos cristãos, a Bíblia, Deus fartou-se da crueldade dos homens e decidiu inundar o planeta de água, afundando, assim, todos os seres humanos que estavam cheios de maldade e de perversidades. Só uma família escapou à fúria do Criador: a família de Abraão escapou da tragédia porque construíra uma gigantesca arca, cheia de todas as espécies animais do mundo.

Rezam as más-línguas que quem proferiu esta frase pela primeira vez foi o Rei francês Luís XV (uma outra versão da história afirma que quem disse tal disparate foi a sua amante, a Madame Pompadour). No entanto, os estudiosos franceses são quase unânimes: Luís XV era um péssimo monarca. Só se interessava por caçadas e por viver no maior dos luxos, totalmente indiferente ao sofrimento do seu próprio povo, que morria à fome.

O sentido desta expressão já começa a ser claro: as pessoas que dizem “depois de mim, o dilúvio” são pessoas egoístas, que só se preocupam consigo mesmas e que não sentem qualquer emoção ou interesse pelos problemas ou sofrimento dos outros. É como se dissessem: o mundo pode explodir, que eu não quero nem saber.

S.C.

quinta-feira, dezembro 11, 2008

De Onde É Que Vem A Expressão…

Não Poder Ver Uma Camisa Lavada (A Um Pobre)

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Foto retirada do Site O Covil

Usamos esta expressão quando nos referimos a alguém que está sempre “de olho gordo”, a morrer de inveja de tudo aquilo que os outros têm, ao ponto de se tornar uma pessoa ridícula e digna de desprezo.

Mas a sua origem é trágica e refere-se aos tristes tempos da Inquisição., instaurada, como já dissemos, no século XVI. Ora, estes “santos padres” estimulavam as denúncias, mesmo que fossem anónimas. Ou seja, bastava um indivíduo detestar o vizinho, para imediatamente denunciá-lo à Igreja Católica, acusando-se de ser judeu ou bruxo. Na verdade, não era raro, durante as partilhas entre membros da família, alguém “livrar-se” de um maçador tio, filho ou primo através desta via terrivelmente injusta, ficando, assim, com a fortuna que lhe cabia.

Um dos meios de identificar um “Herege”, isto é, um não-cristão, era através… da roupa lavada. Os judeus foram sempre um povo extremamente limpo, com hábitos de higiene muito arreigados, ao contrário dos cristãos que, durante séculos, não tomavam banho porque era pecado (os padres acreditavam que tal acto podia estimular “pensamentos sujos”). E apesar de as bruxas serem retratadas como sendo mulheres sujas, de cabelos desgrenhados, também havia aquelas que gostavam dos secretos e proibidos prazeres de um banho quente…

Em suma: se alguém na casa do lado lavava as roupas mais vezes do que devia, isso era um indício de que podiam ser judeus ou bruxos…



Despedir-se à Francesa

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É o que dizemos daquelas pessoas que, de mansinho, desaparecem de uma festa, reunião ou evento, sem se despedirem de ninguém. O “Despedir-se à Francesa” está ligado à má educação, a convidados ingratos que, depois de se fartarem de comer e de beber, nem sequer agradecem com decência a simpatia dos donos da casa. Enfim: é dedicado a todos aqueles que se vão embora sem dizerem “Obrigado” ou “Até Amanhã”…

Porém, há cerca de duzentos anos atrás, em França, esta atitude era sinal de cortesia e de boa educação! Expliquemos: se alguém pretendia abandonar uma sala a abarrotar de convidados, despedir-se de todos seria considerado “indelicado”, pois essa pessoa estaria, provavelmente, a interromper uma conversa estimulante, um jogo que exigia concentração, um namorico que estava a começar, uma coscuvilhice entre duas solteironas ou, quem sabe, uma discussão científica…

Este costume acabou por se generalizar em muitos países e, com o tempo, passou a adquirir o sentido exactamente contrário: quem não se despede não tem “boas maneiras”.

S.C.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

De Onde É Que Vem A Expressão…

 

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Fazer Alarde

A palavra “alarde” significava perfeitamente o mesmo que “alardo”, e foi só no século XVI que passou a ter o sentido que hoje utilizamos: “armar-se em bom”, vangloriar-se, gabar-se. Porém, na Idade Média, “fazer alardo” era um termo utilizado pelos militares, que designava a revista que anualmente se fazia aos exércitos, ou quando um combate iria ter lugar. O escritor Fernão Lopes usou precisamente estas palavras na sua Crónica De D. João I, quando o Mestre de Avis fez a vistoria das suas tropas, antes de entrar no campo de batalha, contra os castelhanos.

Hoje em dia, usamos esta expressão para falarmos daquelas pessoas irritantes que se fazem passar por mais inteligentes, mais cultas, mais sedutoras ou mais corajosas do que efectivamente são…

Fazer Fiasco ou Ser um fiasco

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Ora aqui temos uma expressão ainda hoje muito usada: “fazer fiasco” ou “ser um fiasco” é o mesmo que dizer que algo ou alguém fracassou ou não correspondeu às nossas expectativas. Além disso, a palavra “fiasco” é italiana. E vale a pena conhecer a origem desta expressão, porque a história é bem hilariante!

Biancolletti foi um actor italiano muito famoso no século passado e era sobretudo conhecido pelos seus truques de malabarista. Fazia muitas representações teatrais que envolviam imensos objectos, desde cadeiras até vassouras, desde espelhos até frascos de vidro. Ao mesmo tempo, “conversava” com o público e os seus utensílios de palco. Os italianos adoravam-no…

Mas houve um dia em que nada lhe correu bem. O número que tinha imaginado com tanto cuidado não tinha a menor graça, e o público pura e simplesmente recusava-se a rir. Tinha preparado uma série de gracejos e trocadilhos à volta de uma garrafa (“fiasco”/frasco) que, para espanto seu, não provocava nem à força uma única gargalhada. Ao fim de muitas tentativas, e já farto, teve um ataque de fúria e jogou a garrafa ao chão, estilhaçando-a em mil bocados. A partir daí, sempre que uma peça de teatro ou espectáculo falhava, os italianos diziam: “Olha, foi um fiasco!”

O termo generalizou-se em muitos países, particularmente aqueles que tinham muitos emigrantes de descendência italiana.

S.C.

quarta-feira, novembro 26, 2008

De Onde É Que Vem A Expressão…

Procurar Um Bode Expiatório

clip_image002William Holman

Os portugueses conhecem muito bem o sentido desta expressão: atirar as culpas a alguém, não importando sequer se ele ou ela é culpado/a de algum mal que foi feito.

A origem deste dito vem de há milhares de anos atrás e tem origens hebraicas: todos os anos, os judeus celebravam “O dia da Expiação”, e para que esse ritual fosse eficaz, um bode era escolhido entre os melhores dos melhores. Seguidamente, cada membro judeu colocava a mão em cima da pobre besta e, à frente de todos, confessava publicamente todos os pecados e pecadilhos que fez ou teve vontade de fazer, ao longo de todo esse ano. Quando terminava, dava o seu lugar a outro que, por sua vez, fazia exactamente o mesmo.

Quando finalmente o grupo inteiro “descarregava” os seus pecados, o coitado do animal era apedrejado até à morte levando, assim, todos os males da comunidade para outro mundo, o mundo dos mortos

. Desde então, “bode expiatório” passou a ser qualquer ser humano que tem que pagar pelos erros que alguém fez ou que todos fizeram…

Brilhar Pela Ausência

clip_image004 Herald Angel

Esta é uma expressão que, infelizmente, está a cair em desuso: dizemos “brilhar pela ausência” quando reparamos que alguém não está presente numa cerimónia, festejo ou ritual de grande importância para a sociedade ou para um grupo. Normalmente, este dito é expressado com muita ironia, pois uma pessoa pode, de facto, “dar nas vistas”… Por não se encontrar num determinado sítio.

Custa a acreditar que esta velha expressão tenha nascido de uma história perfeitamente verídica e muito bem documentada: quando Júnia, viúva de Cássio e irmã de Bruto, morreu, o seu cortejo fúnebre não tinha as máscaras fúnebres nem do seu marido nem do seu irmão. O historiador Tácito escreveu, a propósito deste episódio: “Mas as imagens de Bruto e Cássio, mais que todas, lampejavam por ali não estarem”. Outra tradução não utiliza o verbo “lampejar”, mas sim, as palavras “brilhavam pela sua ausência”.

Por que razão este acontecimento ficou para a história? Expliquemos, então: quando um familiar de uma família muito importante morria, fazia-se um cortejo fúnebre com TODOS os membros da dita. No caso dos mortos, eram criadas máscaras fúnebres. Era como se eles tivessem sido convidados para a cerimónia do enterro. No entanto, Cássio e Bruto assassinaram Júlio César, pelo que os seus rostos “brilharam pela sua ausência”… Em poucas palavras, quando um romano caía em desgraça, era banido da sociedade de muitas maneiras. Uma delas era a chamada “Danação da Memória”, isto é, deixava de ser falado, retratado e mencionado, como se nunca na vida tivesse existido.

quinta-feira, novembro 20, 2008

De Onde É Que Vem A Expressão…

Agarrar a ocasião/oportunidade pelos cabelos

clip_image002 A Deusa “Fortuna”

Muito podemos nós falar do cabelo, e de como ele tem sido olhado, ao longo da História da Humanidade: a título de exemplo, os egípcios, por questões higiénicas, tinham o hábito de o rapar completamente, o que não os impedia de usarem perucas, para parecerem mais belos e jovens. Mas tirando algumas excepções, durante muitos, muitos séculos, os homens usavam-no comprido e lustroso, tal como as mulheres. Porém, uma farta cabeleira, no sexo feminino, era sinal de sensualidade e de feminilidade, enquanto que, no “sexo forte”, era sinal de força viril e de poder. Afinal, todos nós conhecemos a história de Sansão e de Dalila: quando a mulher deste herói da Bíblia descobriu que a força dele vinha dos seus cabelos, depressa arranjou maneira de os cortar, enquanto o seu esposo dormia.

De facto, foi só no século XIX que a Europa começou a achar que os cabelos compridos eram “coisa de mulheres”. Até lá, os homens tinham-nos bem compridos e bem cuidados. Com efeito, o próprio Jesus Cristo é retratado em milhares de ilustrações e quadros com uma lindíssima cabeleira que lhe emoldura os ombros.

Mas agora, voltemos ao que importa: de onde vem a origem desta expressão?

Os romanos tinham uma deusa, de nome “Fortuna” ou “Ocasião”. A sua função consistia em estar presente na vida dos homens, precisamente no momento em que a nossa vida podia mudar. Era representada muitas vezes com asas e uma enorme mecha de cabelo na parte dianteira, embora fosse careca na parte de trás. Um dos pés estava apoiado numa roda (a “Roda da Fortuna” ou “Roda da Vida”), enquanto que o outro ficava suspenso no ar. Dizia-se que a única forma de a agarrar, era pela sua enorme cabeleira de frente… Ora, esta tarefa, como devem calcular, não era fácil: Fortuna era rápida como a luz, por isso, só os humanos corajosos, que não tinham medo de arriscar, é que se atreviam a fazer tal coisa. Como reagia a Deusa? Recompensava os destemidos heróis, é claro! Daí o significado desta expressão: “agarrar a ocasião pelos cabelos” é o mesmo que dizermos que vamos dar tudo por tudo, arriscar. Ou seja, não vamos ficar à espera que as coisas nos caiam do céu…

Andar Com O Credo Na Boca

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É o que dizemos, quando conhecemos alguém que anda cheio de preocupações ou dificuldades financeiras.

A expressão está ligada ao sofrimento do povo judeu e da criação da Santa Inquisição no século XVI, em Portugal, pelo rei D. João III. Quando este poderosíssimo tribunal católico iniciou a sua perseguição, muitos judeus fizeram-se passar por cristãos (e quem os censura?). Para que o disfarce fosse eficaz, decoravam a oração mais importante de então, o “Credo” (“Creio” em latim), e debitavam-na à frente dos carrascos e dos santos padres da Igreja. Foi assim que vários conseguiram escapar à fogueira…

Já agora, aproveitamos para lembrar que, ainda hoje, o “Credo” é, segundo a religião católica, a mais importante oração da manifestação da nossa fé, mais importante ainda do que o “Pai Nosso” ou a “Ave Maria”. O povo, no entanto, habituou-se a dar mais valor às duas últimas orações…

quinta-feira, novembro 13, 2008

De onde é que vem a Expressão…

As Paredes Têm Ouvidos!



Obra de Norma Desmond





É o que costumamos dizer a amigos e familiares, quando o assunto que está a ser debatido é delicado ou até perigoso. No entanto, ao contrário do que todas as pessoas pensam, esta expressão não vem do tempo dos microfones escondidos e das escutas telefónicas. Para todos os efeitos, é muito antiga, e tem (provavelmente) origem no século XVI.
Catarina de Médicis, Rainha de França por casamento com Henrique II, não era apenas uma mulher bonita. Era uma senhora muitíssimo inteligente e astuciosa. Pior ainda, queria o poder a todo o custo! Aliás, era ela quem mandava na França, o marido não passava de um simples fantoche (a “Lei Salónica” não permitia que a França fosse governada por mulheres. De facto, este país NUNCA teve uma rainha como governadora principal!).
Esta mulher, para conseguir os seus intentos, servia-se das artimanhas mais imaginativas e criativas, para apanhar os seus inimigos em falso. Ora, uma delas consistia em ligar tubos acústicos escondidos nas paredes para que, através deles, pudesse escutar, atrás de paredes secretas, os planos e as intrigas dos seus adversários.
Daí a expressão As Paredes Têm Ouvidos


Discutir O Sexo dos Anjos ou Discussão Bizantina
Angels in America

Esta é uma expressão que, infelizmente, está a entrar em desuso, entre as gerações mais jovens, e tem origem num dos mais tristes, violentos e bizarros episódios da História da Humanidade. Uma “discussão bizantina” ou “discutir o sexo dos anjos” significa gastar tempo inútil a falar e a debater assuntos que não têm qualquer interesse para a Humanidade.
Ora vamos aos factos históricos: quando os turcos, no século XI, decidiram invadir a cidade de Bizâncio, capital do Império Romano do Oriente, o que fizeram não foi nem um pouco delicado: a cidade ficou literalmente em chamas, as mulheres foram sistematicamente violadas, as crianças foram degoladas, os velhos decapitados, e o próprio imperador Constantino XI não escapou à tragédia: foi assassinado à frente das suas gentes!
Entretanto, e completamente indiferentes ao sofrimento do seu povo, um grupo de padres, bispos e altas figuras da Igreja Romana reuniram-se num concílio, para discutir uma questão que, segundo eles, era deveras importante: os anjos teriam sexo? Assim, e enquanto a cidade era invadida por gritos e sangue, estes “nobres cristãos”, impávidos e serenos, liam documentos antigos, teses religiosas, liam a Bíblia… Tudo isto para provarem que, da cintura para baixo, os anjos não “pecavam”…

terça-feira, novembro 04, 2008

De Onde É que Vem a Expressão…

Ficar a ver navios


A expressão completa é “Ficar a ver navios no alto de Santa Catarina”, e vem do tempo dos Descobrimentos, quando os mercadores, todos os dias, subiam a esse lugar e ficavam à espera de que as suas cargas caríssimas e valiosas chegassem a Lisboa. Ora, como vocês já sabem, ser comerciante, naquele tempo, era quase como jogar no Euromilhões: tão depressa uma pessoa enriquecia estupidamente como, no ano seguinte, andava a pedir nas ruas. As tempestades, as naus excessivamente carregadas, os piratas e as más condições dos navios davam quase como certo o naufrágio de um bom número delas.
Existe também uma outra história, à volta desta expressão: conta-se que um certo milionário do Porto assistiu aterrado ao fim de TODA a sua frota, devido a um temporal terrível que tinha estourado no preciso momento em que as naus estavam a chegar a bom porto. Só que ele assistiu à sua ruína não no Alto de Santa Catarina (em Lisboa), mas sim, na Torre da Marca (no Porto).


Músico de Pancada


Todos nós conhecemos o seu significado: um “músico de pancada” é uma pessoa que não tem talento nenhum para tocar qualquer instrumento, nem sequer ferrinhos.
No entanto, há cem anos atrás, era precisamente este o nome que se dava a todos os membros de uma orquestra que tocavam instrumentos como o tambor ou o bombo, ou seja, instrumentos que, para serem ouvidos, precisavam de levar umas boas “pancadas”. A título de exemplo, o Corpo de Marinheiros da Armada Real, em 1855, tinha incluído na sua lista um “Mestre de Música”, oito “músicos” e dois “músicos de pancada”.

segunda-feira, outubro 27, 2008

De onde é que vem a expressão…

Ir à Fava

Custa a acreditar mas é verdade: durante muito tempo, esta planta, bastante saborosa para a maioria dos portugueses, foi considerada “impura”, “suja”, “mortífera”.
Já na Grécia Antiga, as populações olhavam-na como algo que chamava a morte e, embora estas também fossem de vez em quando oferecidas ao Deus Apolo, os sacerdotes estavam virtualmente proibidos de as ingerir. O grande filósofo e matemático Pitágoras deixou bem claro aos seus discípulos: comer esta planta é comer a alma dos mortos. Ingerir este legume, para muitos sábios, era ingerir comida corrompida.
Na Idade Média, a desconfiança em relação à fava também era o pão-nosso de cada dia. Porque as favas se parecem com pequenos fetos, as populações achavam que estavam a comer alminhas de futuras crianças.
Mas… De onde virá todo este medo absurdo por uma simples planta?
Sabe-se hoje que existe uma doença chamada Favismo. Trata-se de uma alergia fortíssima, e muitas vezes mortal, a este legume. Mas os nossos antepassados não sabiam como explicar cientificamente a súbita morte de um dos seus familiares ou amigos. Tudo o que viam à sua frente era alguém sentir-se, de um momento para o outro, terrivelmente mal e acabar, consequentemente, na cova. Daí o medo de a ingerir.
Então… Por que razão a comiam? Bom, a resposta é simples: a fome aperta. A fava é um legume extremamente resistente ao clima mediterrâneo. Em tempos de seca, de cheias, de pragas na seara, de guerras e de abusos de poder por parte dos reis e dos nobres, o povo, graças ao desespero e à necessidade, a perdeu o medo, e começou a ingeri-la com bastante frequência. Obviamente que vários acabavam por morrer vítimas desta alergia, mas tal facto não impediu que as massas pobres continuassem a usufruir deste apetitoso legume.
“Mandar alguém à fava” era, portanto, desejar a morte a essa pessoa. Hoje em dia, é o equivalente a um “Vai Bugiar!”

Vai Bugiar!

Boa pergunta: de onde é que vem a palavra “bugiar”? E por que razão tal palavra é um insulto??
Precisamos, para já, de perceber uma coisa: a palavra “bugio” teve vários significados, ao longo dos tempos. No século XIII, um “bugio” era o nome que se dava a uma vela de sebo. No século XVI, a mesma palavra podia também significar “macaco”. Porquê? Porque quando o último rei de Granada foi deposto, passou o resto da sua vida numa cidade argelina chamada Bugia, onde habitavam muitos macacos. Por fim, “Bugio” também era o nome que se dava a um instrumento, que servia para pregar estacas em terras alagadiças (foi assim que o Terreiro do Paço foi construído!). Ora, quem “bugiava” (trabalho bem pesado, diga-se de passagem) eram os criminosos e os vadios que, gentilmente, eram “convidados à força” a desempenharem esta tarefa.
Talvez o sentido actual que atribuímos a esta palavra esteja no meio destes dois últimos significados: “bugiar” é coisa de macaco e de escravo. Em todo o caso, “mandar bugiar” era tão ofensivo para os nossos antepassados, como hoje em dia é utilizar certos palavrões……

segunda-feira, outubro 20, 2008

De onde é que vem a expressão…

Ser um parasita


A palavra “parasita” veio do grego parásitos que, em português, significa “aquele que come junto de”. E, acreditem se quiserem, era uma profissão!!!
Há muitos, muitos anos atrás, existia na Grécia Antiga um funcionário encarregado de tomar conta do trigo e das terras que pertenciam aos templos dos deuses. Ora este sujeito não era um “empregadozeco” qualquer: graças à sua tarefa sagrada (estamos a falar de alguém que geria os terrenos das entidades divinas!), o seu cargo era extremamente importante e de tal forma o era, que os próprios sacerdotes convidavam-no a sentar-se à sua mesa, uma honra que só era concedida às famílias mais nobres. Com o passar do tempo, parásitos passou também a ser o nome que se dava a um alto magistrado que vivia às custas do Estado.
Estas profissões desapareceram, assim como o seu prestígio. Hoje, “parasita” é aquele ser humano que vive às custas dos trabalhos dos outros. Ou seja, que janta às custas do suor dos outros. Deixou de ser um indivíduo importante e passou a ser “um inútil”, um parasita


Andar ao Deus-Dará



Todos nós conhecemos o significado desta expressão: “andar à toa”, “não ter um chavo”, “viver entregue à sua própria sorte”.
Contudo, a sua verdadeira origem vem de um episódio anedótico: no século XVII, existia no Brasil, na zona de Pernambuco, um negociante chamado Manuel Álvares. E foi também nesta altura que estalou a guerra entre a Holanda e Portugal.
Ora acontece que, muitas vezes, a Coroa Real esquecia-se dos seus soldados, e nem sequer se dava ao trabalho de lhes trazer regularmente comida, armas e munições. Assim, este jovem mercador aproveitou a situação para fazer inúmeros negócios com os exércitos portugueses. Rezam os documentos históricos que Manuel Álvares era um homem destemido: para ganhar o máximo de dinheiro possível, não se importava de arriscar a sua própria vida, chegando mesmo à ousadia de atravessar território inimigo.
Porém, nem sempre conseguia atender todos os desejos. Quando ele próprio já não tinha quase nada para vender, respondia simplesmente aos soldados: “Deus Dará”. E tantas vezes o disse, que os militares, a partir daí, e sempre que o iam visitar, passaram a dizer entre eles: “Vamos ao Deus Dará”. Esta alcunha ficou de tal forma colada à sua pessoa, que o seu próprio filho foi baptizado com o nome de Simão Álvares Deus Dará!

quinta-feira, outubro 16, 2008

De onde é que vem a expressão…

Queimar as pestanas

Estamos tão habituados à electricidade, que já nem nos passa pela cabeça vivermos sem um frigorífico, sem uma Internet, sem uma televisão, sem luz no nosso quarto.
Mas foi assim que a Humanidade viveu, durante centenas de séculos. As velas não serviam para decorar a nossa sala de estar, serviam para tudo, assim que o sol se punha. O seu consumo era tão necessário e diário, que muita gente ia para a cama, para poupar dinheiro na cera.
É claro que os estudantes eram uma excepção. Estes ficavam até às tantas, agarrados à pouca luz de uma vela, a ler, a ler, a ler. E alguns deles deixavam-se dormir, inclinavam-se um pouquinho mais para a frente…
e queimavam as pestanas!





Estar com a pulga atrás da orelha

Durante milhares de anos, o ser humano foi vítima desse maldito bicho chamado pulga. Não havia nenhum insecticida ou veneno realmente eficaz para combater esta praga, que se alojava em todos os cantos das casas, hospitais, escolas, jardins, ruas, salas de diversões, tribunais, e muitos outros espaços.
Até meados do século XX, a pulga era, sem dúvida, um problema muito grave: verdadeiras colónias do tamanho de Nova Iorque viviam nos colchões, nas nossas almofadas, nos nossos cabelos, nos nossos armários. Agora imaginem o desconforto de alguém, que acorda a meio da noite com uma dor horrível no ouvido. Pois, é isso mesmo: uma pulga entrou pela orelha adentro, e ei-la, feliz e quentinha, a sugar o vosso sangue!
Actualmente, esta expressão significa que suspeitamos de algo ou alguém. Sentimo-nos desconfortáveis, há qualquer coisa que nos incomoda… Será uma pulga?