sexta-feira, outubro 24, 2008

O Baú da Avozinha

O Filme que Deus Protegeu com Unhas e Dentes

Há filmes que estão destinados a marcar a história da Humanidade e A paixão de Joana D’Arc é um deles. Realizado por Carl Dreyer há quase cem anos (1928), esta obra cinematográfica foi um verdadeiro fracasso de audiências. Era demasiadamente moderna para ser compreendida para a época.
Aliás, este filme tem histórias de bastidor verdadeiramente mirabolantes: conta-se que os actores quase que fizeram um motim, quando o realizador literalmente proibiu QUALQUER maquilhagem nos camarins; conta-se que a actriz principal Falconetti teve um ataque de choro convulsivo, quando se viu careca ao espelho (o seu cabelo foi cortado à frente das Câmaras!); conta-se que Dreyer nem sequer desejava que o seu nome e a ficha técnica constassem do filme. Para ele, o cinema era uma viagem ao mundo da imaginação e, por isso, queria que o público fosse imediatamente transportado para o mundo da fantasia. Por fim, todos os cenários seguiram escrupulosamente o modo de viver e de estar dos tribunais do século XVI. E Dreyer tinha razão: as pessoas daquele tempo não se lavavam, não trocavam de roupa a toda a hora, não se maquilhavam, cheiravam mal e as moscas existiam em toda a parte. Dreyer sempre detestou aqueles filmes ditos “históricos”, onde as personagens e os cenários são “limpos” demais para serem credíveis.
E o filme, cem anos depois, ainda nos maravilha! Passado apenas num único dia, esta obra cinematográfica conta o triste, injusto e infeliz julgamento da heroína e agora padroeira da França: Joana D’arc. Porém, há aqui um pormenor muito interessante: uma vez que este filme é mudo, como é que é possível gravar um julgamento num tribunal SEM SOM???? Para dar a volta a este “pequeno inconveniente”, Dreyer utilizou a câmara: quando queria transmitir sofrimento, dor, desgosto, optava por planos fixos; quando queria transmitir fúria, ódio, violência, a câmara movimentava-se com muita rapidez, ora focando a cara de uma personagem ora focando a cara de outra, tudo numa velocidade vertiginosa; por fim, quando queria inspirar devoção ou terror, Dreyer escolhia sempre filmar aquilo que hoje chamamos o close up, isto é, a única coisa que enchia o écran era a face da actriz ou actor.
Mas o destino do cinema mudo estava traçado: em 1927, surge o primeiro filme sonoro, chamado The Jazz Singer. A partir deste momento, centenas e centenas de milhar de filmes mudos foram queimados. Uma vez que já praticamente ninguém os via, passaram a ser um estorvo que só enchia os armazéns. Além disso, o cinema não era considerado arte, era visto como entretenimento, nada mais.
A Paixão de Joana D’arc foi uma excepção mas, embora as pessoas conseguissem compreender o génio desta obra, a verdade é que não fizeram outra coisa senão estragá-la, durante décadas. Foi queimada, cortada aos bocados, colorida através do computador, e chegaram inclusivamente a sonorizá-la com vozes de actores famosos da época. Enfim, no início de 1980, foram muitos os críticos que chegaram a duvidar que, alguma vez na vida, viessem a saber como foi a verdadeira e original Joana D’Arc.
Até que nos inícios dos anos 90, dá-se um verdadeiro milagre: uma cópia original e intocada é encontrada por acaso num antigo hospício da Dinamarca. Um estudante de psiquiatria estava a fazer uma pesquisa sobre personagens históricas que podiam sofrer de distúrbios mentais e interessou-se pelo julgamento de Joana D’Arc. Então, levou consigo uma cópia do filme… E nunca mais a entregou!
É mesmo caso para dizermos: Deus quis que esta obra sobrevivesse ao tempo, custe o que custasse!
Vê agora um pequeno excerto dela, na youtube, nomeadamente a sequência que mostra Joana D’Arc frente aos objectos de tortura da Santa Inquisição.
S.C.

1 comentário:

Ricardo Silva disse...

Cara Sandra Costa:

Caso interesse, o filme está disponível na sua totalidade (81 minutos! :-) no Youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=0rQzsqrkbrU

Espero que seja o complemento ideal para um post tão aliciante :-)

Cumprimentos,
Ricardo Silva
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