sábado, junho 15, 2019

Livro da Semana A Conspiração de Papel – David Liss

Livro da Semana
A Conspiração de Papel – David Liss


São – infelizmente! – poucas as pessoas que gostam de História. Para elas, este assunto faz-lhes lembrar a “seca” das aulas, decorar datas importantes, falar de coisas que “já não são do meu tempo” e, por isso – segundo muito boa gente – já não interessam para nada. Não podíamos estar mais longe da verdade: sem o conhecimento do nosso passado e da nossa memória coletiva, nós já não sabemos quem somos. É por isso que a Civilização Ocidental está a passar por um período muito crítico e por uma angustiante crise existencial: afinal, quem somos nós e para que é que servimos?
No entanto, há uma maneira muito divertida de aprender o nosso passado: através dos romances históricos. Este é um género literário muito polivalente, muito versátil, e que serve para todo o tipo de narrativas. Tanto dá para falarmos de um belo romance de amor, como dá também para imaginarmos uma intriga política ou um crime cometido. Podemos criar personagens que nunca existiram e colocá-las num século à nossa escolha, como podemos, se quisermos, “pegar” em figuras genuinamente históricas e dar-lhes vida, através de biografias imaginárias, diários que nunca foram escritos ou, simplesmente, colocá-las no seu mundo e vê-las viver a sua vida.
No caso do escritor David Liss, este optou por uma personagem imaginária, de nome Benjamin Weaver, um judeu que era... Português. Por que motivo Liss escolheu uma personagem de origem lusa? Bem, há várias explicações: para já, Liss é judeu, por isso não é de espantar que ele se interesse pelo passado do seu “povo”, ao longo da História. Por outro lado, tudo começou com a sua “Tese de Mestrado” na universidade de Columbia: ficou tão entusiasmado com toda a pesquisa e estudo que estava a acumular, a propósito do século XVIII, que depressa deixou a sua tese e começou a escrever a tempo inteiro. Além disso, Benjamin Weaver é baseado num pugilista que realmente existiu no século mencionado: seu nome era Daniel Mendoza, era descendente de judeus portugueses e, inclusivamente, escreveu uma biografia (imagem à esquerda). Era uma celebridade da época, arrastava multidões aonde ia e revolucionou “a nobre arte” do Pugilismo. Benjamin Weaver é bastante influenciado por esta figura fantástica, talentosa, perdulária e caótica. No entanto, Weaver é mais metódico, mais observador e mais – um bocadinho de nada mais! – ajustado na Inglaterra de então. Isto é, ajustava-se como podia, pois a comunidade judaica era muito demonizada e ostracizada.
O mais fascinante neste livro nem sequer é a intriga principal: um filho, que anda de costas viradas para o pai, desce ao submundo do crime para tentar encontrar o assassino que o matou. O verdadeiramente interessante neste romance é o que está à volta dele: a sociedade, os costumes de então, a descrição das prisões, a fome nas ruas, o preconceito. E sobretudo SOBRETUDO o mundo do dinheiro e da sua ligação incestuosa e assustadora com as redes criminosas e partes substanciais do governo Britânico. Com efeito, podemos mesmo afirmar que o tema da corrupção é O grande assunto em todos os romances de Davis Liss. Aliás, ele próprio afirmou numa entrevista: Há qualquer coisa de muito interessante em vermos uma versão do nosso tempo noutro século. Nós reconhecemos as semelhanças com mais facilidade, quando estas já estão desfamilarizadas. (podem ler, aqui, a entrevista completa.
Este é um excelente romance de Verão: contundente, profundo, de leitura viciante, mas também cheio de uma ironia e de um sarcasmo que cortam o “azedo” da história.
Divirtam-se!

A Imagem de Daniel Mendoza foi retirada da Wikipedia.

quinta-feira, junho 13, 2019

Balanço geral da atividade Para que serve a escola?


Balanço geral da atividade Para que serve a escola?

Já tínhamos mencionado num dos nossos posts anteriores que a equipa da nossa biblioteca e centro de recursos, a pedido do docente Jorge Ferreira, estava a realizar três aulas com as turmas A e D do 7º ano, na disciplina de Cidadania (professora Susana Laneiro). O seu objetivo consistia em mostrar aos alunos de hoje o quão importante é a escola nas nossas vidas (podem (re)lê-lo aqui. No geral, cerca de 20 discentes participaram nestas mini-lições engraçadas e lúdicas.
A brincar, a brincar, lá se foram dando informações importantes e lá se foi estimulando os alunos a pensar no seu presente e futuro. No entanto, “ficar com a sensação de que” alguma coisa correu bem, não chega para fazermos um balanço correto. Por isso mesmo, pediu-se às duas turmas que preenchessem um simples questionário de três perguntas apenas, questionário esse que era (obviamente!) anónimo.  E os resultados foram, para grande alegria nossa, muito positivos!
Mas vamos por partes: no que diz respeito à 1ª questão (Qual foi a informação mais importante que aprendeste, durante estas três aulas?), verificamos imediatamente que a informação que mais impacto teve nas turmas foram as profissões do passado que desapareceram e as profissões que provavelmente poderão existir no futuro. De facto, os alunos ficaram surpreendidos (e alguns até alarmados!) com a quantidade de empregos que irão deixar de existir já no tempo deles, e todos os que sobreviverem ou forem inventados necessitarão do cérebro e criatividade humanas. Daí a importância da escola e dos estudos: servir cafés e carregar bilhas de gás será algo do passado. Eis os resultados (alguns deram mais do que uma informação):

QUESTÃO 1- Qual foi a informação mais importante que aprendeste, durante estas três aulas?
Antigamente  havia pessoas que tinham mais direitos do que outras – 3 alunos
A escola é muito importante – 4 alunos
A escola cria mobilidade social  - 1 aluno
Muitos empregos desapareceram – 3 alunos
O que serei no ano de 2050 – 2 alunos
Empregos que existirão no futuro – 7 alunos
O que fazemos agora na escola terá consequências no futuro  - 1 aluno

Continuando com a segunda questão (Dá a tua opinião sincera sobre esta atividade), foi um prazer verificar que todos os discentes que participaram gostaram da experiência. E houve atá surpresas: quatro mencionaram que a atividade fê-los pensar no seu futuro. Estamos confiantes de que estes resultados são genuínos, pois o questionário era anónimo (mais uma vez, vários alunos deram mais do que uma informação):
 QUESTÃO 2:  Dá a tua opinião sincera sobre esta atividade.
Foi engraçada/divertida/interessante – 13 alunos
Aprendemos mais sobre os nossos direitos – 3 alunos
Aprendemos muita coisa - 10 alunos
Temos que saber o que esperar do futuro -  4 alunos
Gostei muito porque foi uma atividade diferente  - 1 aluno
Chegámos finalmente à última questão (Gostarias que a equipa da biblioteca fizesse mais atividades com a tua turma? Porquê?). Todos afirmaram que sim, esta colaboração entre disciplinas e BECRE é para continuar. E deram várias razões para justificar a sua opinião (muitos deram mais do que uma resposta):
QUESTÃO 3 – Gostarias que a equipa da biblioteca fizesse mais atividades com a tua turma? Porquê?
Sim, aprendemos sempre novas coisas – 8 alunos
Sim, porque foi divertido- 11 alunos
Sim, porque devemos estar preparados para o futuro – 2 alunos
Sim, é giro fazermos atividades com a biblioteca – 1 aluno
Sim, porque aprendemos melhor -  4 alunos

 Para terminar, a professora Susana Laneiro pediu às turmas que acrescentassem uma opinião final (Queria ainda dizer que...). Nota-se com facilidade que estes alunos souberam fazer a ligação entre a Escola e o tópico dos Direitos Humanos, embora não o tenham desenvolvido muito:

OPINIÃO FINAL - Queria ainda dizer que...
Aprendi muitas coisas do século  passado – 5 alunos
Temos o direito de estudar, mesmo não gostando da escola – 1 aluno
Não respondeu – 5 alunos
Queria ter mais aulas destas – 2 alunos
A escola faz parte dos direitos humanos -  2 alunos
Os direitos humanos têm que ser respeitados – 5 alunos

Olhando para este balanço, podemos afirmar que estamos contentes com estas três aulas, e agradecemos o desafio do professor Jorge Ferreira. Para o próximo ano letivo, iremos trabalhar na disciplina de Português ou História o livro Do Cinzento ao Azul Celeste, de Ana Oliveira. A biblioteca já adquiriu 5 exemplares. É pouco, mas já ajuda para uma leitura e debate na sala de aula.
Uma coisa é importante: algumas sementinhas germinaram. Vários alunos aperceberam-se do impacto que a escola terá no seu futuro. É chata? É, sim senhor. É trabalhosa? É, sim senhor. Mas será graças a ela que muita gente sairá da pobreza e triunfará na vida.
Imagens retiradas daqui , daqui e daqui .

quinta-feira, junho 06, 2019

Sim, as plantas sentem as más vibrações. E podem morrer por causa disso


Sim, as plantas sentem as más vibrações.  E podem morrer por causa disso
Já se desconfiava há muito tempo que as plantas interagiam com o restante mundo animal. Afinal, as chamadas “mãos verdes” pertenciam àquelas pessoas que gastavam o seu tempo a falar com as suas flores e que, normalmente, eram bem-humoradas. Notou-se também que as árvores plantadas ao pé de locais com muita dor tendiam a crescer mais devagar do que aquelas que eram colocadas em locais felizes e cheios de luz. Mas a Ciência recusava-se a acreditar neste facto... Até ao dia em que um pensador alemão, de nome Rudolph Steiner, começou a operar milagres na sua horta. Este fenómeno bem documentado criou uma revolução de pensamento, especialmente a partir dos anos 60 do século passado.
Desta vez, a companhia IKEA decidiu fazer uma experiência numa escola dos Emirados Árabes Unidos. Duas plantas foram colocadas no hall de entrada do estabelecimento de ensino. Uma levou um mês a ser “insultada” pelos alunos, a outra era elogiada e mimada. Ambas receberam a mesma água, a mesma luz, a mesma terra, o mesmo fertilizante. Pertenciam à mesma espécie e tinham o mesmo tamanho. O objetivo consistia em mostrar aos estudantes o impacto negativo do “bullying” na vida de uma planta, quanto mais na vida de um ser humano. Ao fim de um mês, os resultados foram gritantes: aquela que foi “bullyada” estava murcha, amarela, tristonha, mais raquítica. A outra que foi mimada estava viçosa, verde, saudável e mais crescida.
Podemos contestar até que ponto esta é uma experiência moralmente correta. Porém, uma coisa é certa: olharmos para o impacto das nossas palavras – os estudantes viram mesmo a sua maldade estampada num ser vivo! – trouxe mudanças de comportamento naquela escola, e abriu a mente de todos os que assistiram a esta experiência. Escusado será dizer que a planta ferida já está numa casa em boas mãos, a ser amada e acarinhada, se bem que ainda vá levar algum tempo a recuperar...
Outras experiências têm sido feitas, como, por exemplo, a dos frascos de arroz, um experimento ainda hoje polémico da autoria do japonês Mazaru Emoto. Mas usar uma planta produz um impacto maior, precisamente porque esta não pode falar, não pode fugir, não se pode esconder. Está exposta à crueldade dos outros. Tal e qual uma criança vítima de bullying.
Sim, as palavras magoam. A Ciência acabou de o provar. Vejam agora o vídeo desta atividade.

Vídeo: Bully a plant (Ikea)

Imagem retirada do vídeo acima citado

terça-feira, junho 04, 2019

Morreu Agustina Bessa-Luís


                   Imagem retirada daqui . 
Ontem, a equipa da nossa biblioteca soube que Agustina Bessa-Luís, uma das mais extraordinárias escritoras mundiais de todos os tempos, falecera aos 96 anos. A notícia não foi para nós uma surpresa: afinal já se sabia há mais de uma década que ela tinha um cancro, que estava doente e, segundo a filha, já dormia muito e começava lentamente a desprender-se da vida, vida essa que foi vivida com intensidade e honestidade. No entanto, a morte de alguém tão luminoso e tão único deixa sempre em nós um gosto agridoce na nossa alma: por um lado, sabemos que ela será imortal, que a sua essência perdura nos livros e não no seu corpo. Por outro lado, saber que esta mulher – tão produtiva, tão versátil! – não voltará a pegar na pena, cria em nós um triste vazio, que anseia por ser preenchido.

Sim, o mundo está cheio de escritores, mas existem aqueles que são irrepetíveis: Tolstoi, Umberto Eco, Saramago, Camilo Castelo Branco, Virginia Woolf, Zola, Agustina, entre tantos tantos outros. Outros virão, é certo, outros darão uma nova contribuição à literatura mundial. Mas Agustina será sempre Agustina.
O seu universo literário não era propriamente difícil, ao contrário do que muita gente pensou e pensa. Há, de facto, a ideia de que os seus livros são escritos apenas para um punhado de “escolhidos” que conseguem entender e beber as suas palavras. Não podíamos estar mais longe da verdade: a sua obra literária exige, isso sim!, uma sensibilidade especial e uma mente muito aberta. Afinal, o mundo de Agustina era um mundo de terra, de frutos e mistérios, de relações familiares complexas e complicadas, de palavras que nunca eram ditas mas eram pressentidas. As suas histórias giravam à volta de clãs teimosamente ligados a casas e pessoas e herdades e jardins, convivendo lado a lado com os animais e as gentes das aldeias. Um clã sociável e distinto mas fechado numa cúpula de sarcasmo e, às vezes mesmo, hipocrisia. Os herois dos seus romances – particularmente as mulheres - eram seres de fabulosos defeitos e qualidades, hábeis manipuladoras benfazejas, puxando os cordelinhos aqui e ali, cada uma delas desempenhando o seu papel nessa constelação chamada “família”. Aliás, esta escritora explicou numa entrevista o sucesso das suas personagens: Sou perigosa na medida em que conheço profundamente a natureza humana").E há a traição, a proteção, a doença, o amor, o dinheiro. Pequenas histórias que se tornam grandes e imortais, porque são as histórias de todos nós.
Agustina Bessa-Luís nunca pertenceu a nenhuma “caixinha” em particular. Foi feminista mas à sua maneira; foi socialista mas à sua maneira; foi escritora mas à sua maneira. Disse sempre a verdade, independentemente de chocar ou não as pessoas. Chegou-se a acusá-la de ser reacionária e misógina, porque as suas mulheres não desempenham o papel dos homens, nem querem usurpá-lo. São felizes na sua casa, no seu jardim, na sua terra. Agustina acreditava e glorificava o “eterno feminino” e era de opinião de que as mulheres não tinham nada de imitar o sexo masculino pois, ao fazê-lo, estariam a anular-se como seres humanos. O seu feminismo – e isso nota-se nas suas heroínas –é um feminismo de afirmação, de não sermos esquecidas, de nos impormos ao clã. (Desde criança que me apercebi que o medo era o grande mistério. Era o caminho para o poder. Refiro-me à noção de poder que é dada numa família em que o rapaz está votado a um triunfo de qualquer maneira, às vezes exigente demais para as forças que tem, e a menina vive mais na sombra). Este é um feminismo para a família, não para o país e para o mundo. Porque o mundo é a casa, e essa tem que ser gerida, arrumada e vivida.
Fica aqui um documentário da vida dela, para aqueles que quiserem saber mais dela.

Nasci Adulta e Morrerei Criança- documentário

Estante do mês de Junho – Chegaram as férias!!

Imagem retirada daqui .
Sim, vem aí a silly season, como se costuma chamar ao Verão. É o tempo das músicas parvas, dos filmes que não nos puxam pela cabeça, de estarmos repatanados no sofá ou na areia a olhar para o nada, de pararmos, viajarmos ou, simplesmente, batermos uma sorna bem merecida às horas que bem nos apetecer.
E não, não é tempo mal gasto ou improdutivo: são precisamente estes momentos de ócio que nos permitem recarregar baterias e voltarmos a um novo ano letivo com mais cabeça, mais juízo e mais vontade de trabalharmos. Esta é a estação em que “puxarmos pela cabeça” não é aconselhável nem saudável.
Por isso mesmo, a própria literatura “de verão” tende a ser mais light, mais bem-disposta, menos pesada. Os livros têm de bater certo com a areia da praia, o piquenique lado a lado com o carreirinho das formigas, a caminhada da manhã lado a lado com a garrafinha de água, a prancha surf lado a lado com a alforreca. Verão não é tempo para Tolstois e Cesários Verdes, é tempo para Códigos Da Vinci e Escolas do Bem e do Mal. Livros que se leem de uma assentada, que terminam pouco antes do jantar entre amigos, o churrasco na praia, um mergulho na piscina.
Assim – e homenageando a estação do calor, da festa e do riso – aqui vai uma seleção bem disposta e risonha de obras que qualquer um pode ler com prazer, pois a escolha é muita: policiais, romances, contos, histórias exemplares, fantasia e ficção científica.
Boas férias e boa leitura!

E-book (Clique na imagem para abrir)


quinta-feira, maio 30, 2019

Da Palavra à Imagem – Ilustração de dois contos Infanto-Juvenis

Da Palavra à Imagem – Ilustração de dois contos Infanto-Juvenis

 Como contar uma história? Quais são as informações genuinamente importantes num conto/livro, e que não podem ser retiradas, sob pena de a narração ficar confusa e incompleta? O que é relevante e o que é supérfluo? Estas questões têm marcado a literatura mundial durante milhares e milhares de anos. Porém, os finais do século XIX trouxeram ao mundo um outro tipo de narrativa, algo que nunca ninguém tinha visto: a banda desenhada. Lado a lado com a massificação da ilustração em edições populares – antes, esta só existia em edições raras e caras, pois os livros eram escritos e pintados à mão – estas duas artes visuais criaram uma revolução na nossa maneira de contar uma história. No caso da banda desenhada, as grandes descrições passaram a estar limitadas ao desenho e não ao texto. Quanto aos livros ilustrados, o ilustrador respeita o texto, mas o desenho tem que “bater certo” com as ideias do escritor.
Foi este o desafio que as professoras Ângela Carvalho (Educação Visual) e Helena Reis (Português) lançaram aos alunos das turmas A e D do 7º ano: ilustrar um pequeno conto infanto-juvenil de duas autoras do século XX: Teolinda Gersão (imagem do lado esquerdo) e Irene Lisboa (imagem do lado direito). Esta atividade foi ouro sobre azul: não só as duas turmas aprenderam a retirar a informação relevante da informação “supérflua”, como também desenvolveram e aprimoraram técnicas de ilustração. O resultado são dois livros lindíssimos e originais, em forma de harmónio, e que podem ser vistos no espaço da entrada da nossa biblioteca.

Aqui estão eles, transformados em e-books. Espreitem e encantem-se!   

Clique nas imagens para ver.    
Da Palavra à Imagem – Livro Azul
Da Palavra à Imagem – Livro Vermelho

Imagens retiradas daqui e daqui .


quarta-feira, maio 29, 2019

O Tempo das flores – Exposição na Biblioteca

O Tempo das flores – Exposição na Biblioteca


Chegou a Primavera e, com ela, as flores, os frutos, o sol, o bem-estar, a cura. Está cientificamente comprovado que todos nós temos um relógio dentro de nós, em perfeita sintonia com o mundo à nossa volta.
Somos animais do dia, não somos criaturas da noite. Durante milhares de anos, nascemos, crescemos e envelhecemos sempre do lado do astro-Rei, e vimos as estações oferecerem à nossa mesa o melhor que têm. E, sim, o Inverno é tristonho, desolador. Mas é também graças a ele que muitas pragas, muitas doenças são praticamente erradicadas das plantas e árvores. Quando os primeiros raios de sol da Primavera começam a surgir, é como se a natureza tivesse “batido uma siesta” bem simpática e feliz e agora acorda renascida, revigorada, rejuvenescida.
Esta exposição estava programada para o mês de Março. Porém, a sua preparação durou muito tempo e esteve dependente da disponibilidade, da saúde e dos horários de todos os funcionários desta equipa. É daquelas coisas que só se fazem de dois em dois anos. E depois veio Abril, as avaliações, a interrupção letiva, a Páscoa. Assim, foi só no início de Maio que esta homenagem à Primavera foi concretizada.
Esta é uma homenagem de flores, de cores, de verde, de poesia. Rosas e jasmins flutuam no céu, a palavra do poeta brilha na parede. Com esta exposição também vieram as palestras sobre os benefícios do sol, das ervas e plantas (vejam o post de ontem!), da preservação do ambiente, o workshop de cosmética caseira e- se tudo correr bem – uma sessão de escrita criativa. Foi um inesperado e não planeado “Mês do bem-estar”. As ideias fluíram, a evolução foi orgânica, os pedidos dos professores para atividades na sala de aula explodiram. Porque é assim, a Primavera. Acorda-nos da dormência do frio e inspira-nos.
Deixamos aqui o testemunho da nossa exposição, através de um e-book dividido em duas partes: a exposição mais os poemas que foram selecionados.
Encantem-se!

E-book da exposição: Clique na imagem, abaixo, para ver.



segunda-feira, maio 27, 2019

O legado da cultura Árabe no nosso dia-a-dia




 Parece que foi de propósito, parece que estávamos bem sincronizados: enquanto Mértola se preparava para mais um Festival Islâmico, a equipa da Biblioteca Escolar- em colaboração com a disciplina de História, e focando-se nos conteúdos programáticos do 7º ano, A herança Árabe na Península Ibérica - tinha preparado também uma pequena palestra sobre a herança da cultura Árabe, especialmente no sul de Portugal.
Estava preparada para durar apenas 45 minutos, mas o entusiasmo dos alunos levou a que esta se estendesse à aula da professora Alice Félix, que também abraçou a atividade com interesse, dando também o seu testemunho pessoal sobre as propriedades de algumas plantas. Foi o suficiente para muitos alunos fixarem dois ou três factos importantes. Cada um deles recebeu um pequenino livrinho, que continha informações relevantes, desde a arquitetura dos jardins Árabes e o seu simbolismo, até dados relevantes sobre os benefícios de várias plantas que frequentemente temos nos nossos quintais ou varandas e que, muitas vezes, nem nos apercebemos dos poderes curativos que elas têm, apesar de as usarmos muitas vezes na nossa cozinha!
Por exemplo, sabiam que há imensas flores que podem ser comidas, como a Rosa? E que esta tem imensa vitamina C, o que é excelente para a pele e para combater o envelhecimento? Sabiam que o Tomilho tem imensa vitamina A, o que é excelente para combater problemas de olhos? Sabiam que o Alecrim é ótimo para combater a queda do cabelo e problemas de respiração? Sabiam que os Árabes criaram os chamados “Jardins Sensoriais/Terapêuticos”, e desejavam reproduzir o Paraíso do Céu na Terra? Tudo isto e muito mais foi transmitido nas turmas A e D do 7º ano.


E não faltaram perguntas, sugestões de mezinhas caseiras, testemunhos pessoais, muita brincadeira à mistura. A docente Antónia Guerreiro não se cansou de mostrar a sua sabedoria popular e erudita e aprofundou ainda mais algumas questões colocadas pelos alunos. Para o fim, ficou a promessa – caso ainda haja tempo, afinal os testes vêm aí – de realizar um workshop de cosmética e mezinhas caseiras. Interessados, já temos!


A equipa da Biblioteca e Centro de Recursos agradece, então, o apoio e entusiasmo da professora Antónia Guerreiro e agradecemos também a boa disposição das turmas A e D do 7º ano. Já estão planeadas futuras atividades com estas turmas, para o próximo ano letivo. Ficam aqui as fotos e o folheto que foi dado aos alunos, sobre o legado Árabe e propriedades de algumas plantas medicinais. Posteriormente, os alunos irão também preencher um simples questionário, de forma a avaliarem esta atividade.

FOLHETO E-BOOK: Plantas no mundo Árabe Medieval (Clique na imagem para ver)


sábado, maio 18, 2019

Dia do Autor Português

Caros colegas,
No dia 22 de maio celebra-se o dia do Autor Português. O Núcleo de Projetos e Clubes, conjuntamente com a Biblioteca Escolar está a organizar uma semana inteira dedicada ao autor português, realizando várias atividades.
Convidamo-vos a participarem. Gostamos de vos ver por cá!
Até 2ª feira!






segunda-feira, maio 13, 2019

Livro da Semana A Passo de Caranguejo: Guerras quentes e populismo mediático – Umberto Eco

Vão ser necessários muitos, muitos anos para voltarmos a ter na civilização Ocidental um génio semelhante a Umberto Eco: já em criança, escrevia as suas próprias histórias de aventuras, era capaz de olhar para um mapa antigo de Paris da Idade Média e ser capaz de visualizar a Idade Média na Paris Moderna. Era botânico, escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano. Sabia muito de tudo, sabia demais. Foi brilhante, irónico, sempre interessado na Humanidade e nos seus imensos contrastes sociais e culturais.

Tal como Noam Chomsky, o grande pensador americano, Umberto Eco vivia fascinado com o poder da persuasão e da propaganda. Fascinava-o a construção da Realidade – através de mil técnicas psicológicas e visuais - ditada pelos vencedores, pelos tiranos, pelas ideologias, pelas corporações. Especialmente o poder dos media e das suas relações incestuosas com os círculos de poder económicos e tecnológicos. Como comentador e cronista, este último poder - cada vez mais decadente e mais medíocre - compromete fortemente a democracia, e tudo o que a Humanidade andou a conquistar há cerca de, pelo menos, 300 anos. Não é de espantar, portanto, que este conjunto de ensaios, palestras e crónicas ganhem o título “A Passo de Caranguejo”. Para ficarmos ainda mais deprimidos, este livro já tem 12 anos. Foi publicado no ano de 2007, durante anos esteve esgotado, e agora voltou a estar na moda, graças à editora Gradiva. 12 anos passaram e continua a ser atual. Nada, literalmente nada mudou e, se mudou, foi para pior.
Não houve nada que não fosse do interesse de Umberto Eco: fala de Harry Potter e do choque cultural que este livro provocou; fala da Ciência, que é hoje vista como sendo uma espécie de “magia branca” ou “milagre”, e não um processo longo e calculado que nos leva a uma descoberta ou a um tratamento; fala do choque cultural entre muçulmanos e ocidentais; fala do politicamente correto e dos novos fascistas; fala das ideologias e do desprezo pelo senso comum; fala de um mundo onde já não há pais que entrem em choque com os filhos; fala da perda da privacidade, do antissemitismo popular e do antissemitismo intelectual; and so on and so on.
Parece um velhinho depressivo, que só diz coisas negativas do futuro da Humanidade. Não podíamos estar mais errados: o olhar deste escritor é vibrante e sábio, mas não pessimista. Num dos seus ensaios “Um sonho”, Eco fala de um mundo pós-global em ruínas. Não há um cenário Mad max, muito pelo contrário: os humanos redescobrem a simplicidade da vida, dos livros, dos animais soltos e gordinhos, das danças no adro da igreja, das orquestras de flautas, da simplicidade perfeita de um pombo-correio ou de uma antena de rádio. Umberto Eco é crítico em relação ao presente, não em relação ao futuro. Nota-se claramente que ele não tem muita fé neste “admirável mundo novo”. No entanto, é um tolerante que observa a humanidade, deixando-a respirar e seguir o seu caminho, e tenta sempre compreendê-la. Está aqui para aconselhar e alertar, mas mais não pode fazer. Nem deve fazer!
Afinal, ele próprio afirmou num congresso, Os intelectuais não resolvem crises, os intelectuais criam-nas.


" Parabéns aos vencedores do concurso "Vem Conhecer o Santiago"

" Parabéns aos vencedores do concurso "Vem Conhecer o Santiago". 

Felicitamos todos os participantes pelo empenho demonstrado. É bom conhecer a nossa região e aprofundar o conhecimento da fauna que nos rodeia. 
Recomendamos a leitura do livro Santiago- O lince da Herdade das Romeiras".
Boas leituras!
Classif. por Equipas
Equipa (nome)PontosEscola
"Lince Vivo"----E23,5/30Serpa
"Linces protegidos"---C23/30Serpa
"Conservação do Lince Ibérico"---A19/30Serpa
"Proteção do Lince"---B19/30Serpa
"Vamos proteger o Lince"---D19/30Serpa
"Equipa Lince"---E19/30VNSBento
"Lince Protector"---A18,1/30VNSBento
" O Lince da Amadora"---C18/30VNSBento
"Protegemos o Lince"---F17,5/30VNSBento


terça-feira, maio 07, 2019

Visita à Herdade das Romeiras.

"Era o dia mais chuvoso da semana e dos últimos tempos, mas nada nos demoveu de visitar o território do lince. Pelas 6:30h da manhã já o grupo dos alunos do 7º ano e os professores aguardavam o transporte até à Herdade das Romeiras. 
Por caminhos bem conhecidos dos técnicos do Parque do Vale do Guadiana e da Herdade das Romeiras foi possível avistar gamos, coelhos bravos, perdizes e outros bichos que partilham com o lince este território. Veja as fotos :

Após uma grande molha, fomos muito bem recebidos pelo administrador da Herdade, Sr. José Osório Severino. No aconchego da lareira conversámos com a escritora Isabel Mateus. Ficámos a saber mais sobre o lince e outros bichos sobre os quais a autora escreveu e que são tão caros dos portugueses.
Os vencedores do concurso "Vem conhecer o Santiago" viveram um momento especial com a escritora.
Ficámos a saber que no dia seguinte a autora Isabel Mateus iria fazer o lançamento de um novo livro sobre outro bicho já extinto em Portugal, o urso pardo. Aqui fica uma nova sugestão de leitura.
Boas leituras!

quinta-feira, maio 02, 2019

Tatuador de Auschwitz foi eleito livro do ano

Tatuador de Auschwitz foi eleito livro do ano


 Foi em 1945 que o fim finalmente teve lugar, e os soldados das nações libertadoras que fizeram parte do Dia D ficaram chocados com aquilo que viram e fotografaram. Setenta e quatro anos já passaram a ainda temos que estar a provar constantemente que este momento negro na História da Humanidade não é um mito ou uma fabricação ou uma teoria de conspiração judia. Como se a História da Humanidade não estivesse já cheia de períodos negros... Mais ainda: é graças ao crescimento da extrema-direita no Mundo Ocidental que o tópico Auschwitz – que já praticamente estava posto de parte – voltou em força no cinema, nos documentários, na literatura, nas escolas. Já cansa, sim, mas pelos vistos continua a ser relevante, quase um século depois. Até porque a poeira do tempo tende a assentar e as duas guerras mundiais já estão a ficar perigosamente “longinhas” das novas gerações...
As vítimas dos campos de concentração – que foram de todas as raças, culturas, géneros e sexualidades – foram tantas mas tantas mas tantas que ainda hoje, em pleno século XXI, continuam a vir à tona imensos relatos pessoais e comoventes. Ora, O Tatuador de Auschwitz, escrito por Heather Morris – é um deles. E recebeu o prémio “Livro do ano”, pelos leitores da Editora Bertrand, na categoria “Melhor livro de ficção de autores estrangeiros”.
Não vamos agora falar deste romance, pois esta obra será o livro escolhido para a próxima semana. Sabemos, isso sim, que é baseada numa história verídica (podem lê-la aqui).  Também sabemos que esta obra literária é um excelente presente para quem pouco sabe da Segunda Guerra Mundial, especialmente para aqueles que não gostam de ler. É que tem tudo para dar certo: conflito, medo, ação, vilões e heróis, romance, amor, um final – mais ou menos – feliz.
Na próxima semana, estejam atentos! 

Lição de Vida – A arte da paciência

 Lição de Vida – A arte da paciência

Imagem retirada daqui .



RESERVED/RESERVADO

Uma vez tentei sentar-me
em um dos assentos vagos da Esperança
mas a palavra “reserved”
me encarava como uma hiena

(Eu não me sentei, ninguém se sentou)

Os assentos da Esperança estão sempre reservados


Najwan Darwish, poeta Palestiniano

quarta-feira, maio 01, 2019

Estante do mês de Maio A sombra da Guerra. Outra vez.

Estante do mês de Maio
A sombra da Guerra. Outra vez.


Parece ser uma fotografia tão feliz, tão bem disposta. Uma fila de soldados desfila para o futuro campo de batalha, e uma menina saúda sorridente os “bravos heróis”. Hoje, olhamos para este registo fotográfico com tristeza, sabendo muito bem o que se passou na I Guerra Mundial. Mas naquela altura, toda a gente achava que esta “escaramuça” entre vizinhos não duraria mais do que dois meses. As mulheres despediram-se dos seus filhos, maridos, pais, tios e namorados com lencinhos brancos, sorrisos incandescentes. Cantavam-se canções gloriosas, cheias de patriotismo. E os bravos filhos da pátria chegariam risonhos, gordinhos e vitoriosos, prontos para os passeios de domingo, prontos para namoriscar, casar e recomeçar uma nova vida.
A guerra durou quatro anos e matou milhões de seres humanos dos dois lados da trincheira.
Foi o princípio do fim. Durante milénios, o olhar que se tinha da guerra, dos campos de batalha e dos heróis era sempre um olhar bélico, mas inocente. Heróis puros em cavalos brancos, a espada flamejante e o inimigo derrotado. Entretanto, chegou a máquina fotográfica, chegaram os tanques, os cavalos foram banidos da guerra, as trincheiras eram uma novidade. E, de repente, matar deixou de ter graça.
Hoje, a guerra parece-nos distante. E, no entanto, parece que nunca saímos da I Guerra Mundial. Olhando com atenção, é possível que daqui a 100 anos os séculos XX e XXI sejam olhados pelos historiadores como tendo sido uma segunda guerra dos 100 anos. Os protagonistas são praticamente todos os mesmos, os conflitos são quase os mesmos: Inglaterra, Estados Unidos da América, Rússia, Alemanha, França. Onde é que já ouvimos isto? Lutas económicas, xenofobia, corporações em conflito, comendo-se umas às outras. Onde é que já ouvimos isto? O Médio Oriente em chamas, luta por territórios e recursos energéticos. Onde é que já ouvimos isto? Por isso mesmo – e uma vez que caminhamos a passos largos para uma possível III Guerra Mundial – é bom que o passado não seja esquecido, e que aprendamos alguma coisa com ele.
Uma coisa é certa: o nosso olhar já não é inocente. Já não nos despedimos dos bravos “filhos da pátria” com lencinhos brancos, já não cantamos canções patriotas, já não pedimos às nossas crianças para darem beijinhos aos lindos soldados de uniforme.
E já não acreditamos em finais felizes.

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Fotografia retirada daqui .

terça-feira, abril 30, 2019

Livro da Semana - Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira



Está muito esquecida, esta obra, e injustamente: num tempo em que a palavra “medo” está tão presente - ao ponto de a Humanidade começar a paralisar, a estagnar ou, pior ainda, desistir de lutar – este é o momento certo para ressuscitarmos obras-primas da literatura mundial, que nos ensinem a questionar, a pensar e a agir. Estes não são tempos para estarmos parados “a ver navios passar”. O Planeta Terra encontra-se neste momento numa encruzilhada: ou fazemos uma mudança radical de 180 graus ou estamos condenados ao fracasso. E não, não estamos a ser alarmistas, estamos a ser realistas.
Já toda a gente sabe – ou devia saber! – que Aventuras de João Sem Medo é claramente uma alegoria de um Portugal fechado, conservador, mergulhado na ditadura de Salazar. Escrito em 1963, José Gomes Ferreira inventou na sua cabeça uma aldeia onde os habitantes não fazem outra coisa senão reclamar ou choramingar. As desgraças da vida sucedem-se, mas ninguém está minimamente interessado em mexer uma palha e arriscar uma ideia nova.
Que este livro tenha sido escrito no Portugal do Estado Novo não é surpresa para ninguém. O problema reside no facto de que toda a Civilização Ocidental é hoje uma terreola “Chora-que-logo-bebes”: 60 anos depois, este livro continua a ser não só atual como, pior ainda, parece que o nosso mundo – antes tão ousado e criativo! – se transformou num Portugal fechado, escuro, infantilizado e cobarde.
Falta ao Ocidente “a espinha”, a maturidade, a ousadia, o estudo, o trabalho árduo, o questionar. Para quando, os Joões sem medo? Quanto tempo mais teremos de esperar para encontrarmos um homem e uma mulher que tenham uma ideia verdadeiramente revolucionária, capaz de galvanizar as massas? Lá de vez em quando aparece uma Greta subnutrida que se balda às aulas e fala dos direitos dos animaizinhos e do aquecimento global. Fala no palco de umas Nações Unidas que votaram em massa para que a Arábia Saudita - um país que odeia mulheres – comande a Comissão dos Direitos das Mulheres. Tudo isto é superficial, fútil, tão vago, tão vazio e tão frágil como bolhinhas de sabão. Vai-se às manifs para se tirar uma selfie e ficar catitota nas redes sociais. De preferência às sextas, para se baldarem às aulas. Como faz a Greta. E não se esqueçam do Ipad, feito por crianças escravas, e a t-shirt tão trendy, feita por crianças escravas, e os sapatinhos Nike, feitos por crianças escravas. E depois lá vamos para casa no nosso pópó. Feito por crianças escravas. E sempre a reclamarmos, sempre a choramingarmos da nossa vidinha tão triste e tão sem sentido.No entanto, esta história satírica oferece-nos precisamente uma pista para que o Ocidente triunfe mais uma vez: a revolução é sempre individual, nunca coletiva. Compete a nós – e só a nós – regularmos as nossas vidas. O resto virá por si. Talvez os outros vejam o nosso sucesso e tentem imitar-nos. Muitas vezes, tudo começa com um joão sem medo que se farta, que sai do rebanho e que, involuntariamente, acaba por ser um “role model” para todos aqueles que também estão cansados de viver uma vida constantemente adiada. Nem sempre acontece e o cinismo vence. Como, aliás, aconteceu com o protagonista deste livro. No entanto, a mudança nunca é feita para mudarmos o mundo, é feita para mudarmos a nossa vida. Mas a nossa mudança poderá inspirar os outros que estão perto de nós. E é assim que um verdadeiro movimento começa: alguém tem uma ideia fenomenal, outros começam a imitá-lo. Devagarinho, silenciosamente, grão a grão, o grupo vai crescendo. E um dia, décadas depois, toda a gente repara nele.O cinismo também tem o seu lado positivo: a partir do momento em que deixamos de acreditar nos outros, nada mais nos resta do que acreditarmos em nós mesmos. Longe dos holofotes e das redes sociais, da fogueira das vaidades, os verdadeiros joões sem medo estão a plantar árvores, a recolher cães abandonados, a inventarem fornos solares, a viver no campo. Estão a conversar com os velhos, a distribuir comida para os sem-abrigo, a construir uma casa ecológica, a restaurar livros antigos, a conservar filmes clássicos, a contar histórias a crianças, a tocar um antigo instrumento musical. Esses não vão falar para a sede das Nações Unidas. Nem querem.Brilhante, acutilante, hilariante e moderno, eis um livro que merece ser lido por todos os cidadãos deste planeta. Esta sátira a Portugal não é geográfica, esse é o lado bom de uma alegoria, pode ser lida e entendida por todos.Afinal, quem é que nunca desejou largar tudo e começar tudo de novo?