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terça-feira, março 12, 2019

Livro da semana : O Jardim dos Segredos, Kate Morton

Muita polémica tem sido gerada à volta daquilo que se chama nos círculos académicos a “paraliteratura”. E agora vocês estão neste momento a coçar a cabeça e a dizer “paraQUÊ”???????
Expliquemo-nos melhor: “Paraliteratura” é o nome que geralmente se dá a histórias que não são consideradas “obras de arte” literárias. O seu propósito é, de uma forma geral, entreter e oferecer horas de prazer ao leitor. A linguagem é objetiva, não há muita descrição e é escrita de uma maneira que “agarra” o leitor e obriga-o a virar páginas atrás de páginas, ansioso pelo desfecho da narrativa.
Ou não?
A descrição que fizemos da mesma é muito, muito vaga. Geralmente é assim e, no entanto, há livros que começaram por ser paraliteratura e hoje são considerados obras-primas. É o caso da Dama das Camélias, de Alexandre Dumas ou O Crime no Expresso Oriente, de Agatha Christie. E há mesmo obras que – não sendo consideradas artísticas – marcam uma época. O Código Da Vinci é a mais recente de todas. E depois ainda existe outro problema: o preconceito das elites académicas. Foi preciso quase um século para que a literatura policial começasse a ser respeitada nas faculdades e jornais literários. O que se entende por “género menor” ou “género maior” depende muito do contexto sociocultural do mundo em que vivemos. Para piorar, os escritores de obras paraliterárias têm que lidar com acusações estilo “estes livros afastam os leitores da verdadeira literatura”, “estes livros tornam os cérebros preguiçosos”, “estes livros são fast food”...
Uma coisa tem que ser dita: este género de histórias é concebido especificamente para atrair as massas e podem ou não ter uma mensagem social. É o caso da invenção da “literatura de folhetim”, inventada no século XIX para uma burguesia em ascensão, e que foi crucial na mudança de mentalidades. A título de exemplo, Camilo Castelo Branco foi muito influenciado por ela.
Kate Morton não é Virginia Woolf. O seu mundo é um mundo de mulheres para mulheres leitoras: a casa, os filhos, o amor, segredos de família, uma narrativa rápida, simples, feita de propósito para “agarrar” as leitoras e fazê-las esquecer por um momento das suas vidas “mundanas” e super ocupadas. Não tem quaisquer pretensões de mudar o mundo da literatura, escreve porque gosta, ponto final. Apesar de tudo, é também uma escritora ousada, pois usa muito a técnica de “saltar tempos”: assistimos quase simultaneamente às histórias de duas mulheres em tempos diferentes, uma no início do século XX e outra no início do corrente século. Não é fácil escrever desta maneira e, no entanto, Kate Morton fá-lo com profissionalismo e facilidade.
Há dias na nossa vida em que não desejamos “puxar pela cabeça”. Só queremos estar num canto, embrenhados num livro que tenha uma boa história, uma caneca de leite quente na mão e um sofá confortável. É para isso que a paraliteratura serve. E Kate Morton oferece ao leitor precisamente o que ele/a deseja: horas infindáveis de entretenimento.
Afinal, a vida não é feita só de Dostoievskis.

terça-feira, fevereiro 12, 2019

Livro da Semana: Poesia Completa, Florbela Espanca

Se Florbela Espanca ressuscitasse, ficaria horrorizada com tudo o que veria: acharia odiosa a música “de amor” atual; ficaria chocada com a falta de flirt e sensibilidade dos namorados de hoje; ficaria triste ao saber que já ninguém escreve cartas de amor; acharia de um intenso mau gosto nenhum rapaz oferecer flores à sua amada; ficaria furiosa com toda esta “indústria do dia 14 de fevereiro” à volta de um sentimento tão nobre; não condenaria aquilo que chamamos hoje os “múltiplos parceiros”, mas acharia hediondo alguém procurar única e exclusivamente o ato sexual; e, por fim, não conseguiria compreender como é que as raparigas de hoje se submetem a tanta falta de respeito e carinho. Na verdade, por muito menos Florbela acabou com alguns dos seus namoricos!
É que Florbela Espanca viveu para o Amor e para a alegria da Vida. Viveu, viveu apaixonadamente. E, por isso mesmo, ardeu e consumiu-se demasiadamente depressa. Clinicamente louca (provavelmente bipolar), a sua loucura produziu poemas de amor – lado a lado com poemas de depressão e de crise existencial – que ainda hoje, ao serem lidos ou recitados, continuam a ressoar na nossa alma humana. Afinal, quem nunca cantou E é amar-te assim perdidamente...? Quem é que nunca se sentiu fascinado pela fotografia da bela mulher envolta em pérolas, penetrando-nos com o seu olhar esfíngico? Quem é que não sentiu admiração por esta extraordinária portuguesa, que vivia no século seguinte e não no presente pacato e fechado do Alentejo de então?
E, apesar de tudo, apesar desta pacatez, o ser humano ainda conseguia ser grande. Entre as árvores e os frutos, inventava-se a família, a comida, as lendas populares. Sonhava-se. No mundo de hoje - cada vez mais mecanizado e mais transhumanista - a voz desta mulher lembra-nos a glória da espécie humana, os tempos em que os Homens ascendiam à condição de deuses através da música, da dança, da poesia, da crença em outros mundos, outras dimensões. Uma árvore não era só uma árvore, era um ser vivo com uma fada que a protegia. Um poço não era só um poço, era um local onde moravam as mouras e os seres aquáticos. Estes eram os tempos em que a Humanidade não tinha medo, não era pequenina e reles, e não gastava os seus dias tolhida e curvada a olhar para uma chapa, indiferente ao choro de uma criança, à solidão de um avô ou um cão que tem fome. E quando finalmente chegar o dia em que todos já estarão fartos deste “admirável mundo novo”, Florbela retornará do Olimpo, mais forte e mais vibrante como nunca.
E, qual uma Némesis ou um Jesus no meio dos vendedores, acordará a chama em todos nós.

terça-feira, janeiro 22, 2019

Livro da Semana: 50 Coisas para Desenhar e Pintar, vários autores


E já que andamos, nos últimos posts, a cavalgar a onda da criatividade – e tendo em conta que a montra deste mês é precisamente dedicada ao artesanato, desenho e design – o livro desta semana não será dedicado à literatura. Como o Plano nacional de Leitura deixa bem claro, ler não é só poesia ou romances que fizeram história. Com os livros, podemos também aprender muito sobre História, Geografia, Ciências... e até artes visuais!
50 Coisas para Desenhar e Pintar foi criado para agradar a um público infantil mas, sejamos honestos!, esta é uma edição para todas as idades: é pró menino e prá menina e é para todas as crianças dos 8 aos 80. Os fantásticos truques e dicas que aqui são dados servem para tudo e mais alguma coisa: pintar um móvel, desenhar um quadro artístico personalizado, criar um mural numa das paredes da nossa casa, decorar caixas, embelezar presentes, dar um toque cool numa manta ou candeeiro ou mochila...
Com este fantástico livro, podemos aprender a desenhar lagartos, focas, sereias, dinossauros, moinhos, borboletas, árvores, uma paisagem, vários rostos humanos... E é extraordinário como apenas três ou quatro manchas coloridas podem dar vida e dimensão a coisas aparentemente tão difíceis como um elefante ou um peixinho. Assim que começamos a seguir as instruções, damo-nos conta de que todos nós somos bem mais criativos do que originalmente pensávamos!
E voltamos a fazer um elogio ao livro físico: é verdade que plataformas como o youtube estão carregadinhas de tutoriais, de faça-você-mesmos dedicados à arte da pintura/ilustração. No entanto, este pequeno quadradinho que se leva facilmente numa mala permite-nos estar numa esplanada ou numa paragem de autocarro ou no cimo de uma montanha, sem nos preocuparmos se o espaço tem ou não net, qual será a password e se a bateria ainda está cheia. Enquanto os outros paralisam “porque não há rede”, quem tiver esta edição continuará, impávido e sereno, a dar asas à sua imaginação. É esta a vantagem que os livros físicos nos dão: total liberdade para nos movimentarmos neste planeta, total privacidade, e as únicas energias de que precisaremos serão as do sol e das nossas mãos.
Finalmente, a editora Edicare é uma mais-valia, pois estamos a falar de publicações que têm mesmo o propósito de educar, estimular e aumentar a nossa inteligência.
Peguem numa folha, “saquem” dos lápis de cor e... mãos à obra!

terça-feira, janeiro 08, 2019

Livro da Semana A Lisboa de Miguel Cervantes – editado por Maria Fernanda de Abreu


wpsE875.tmp Se proferirmos o nome “Miguel Cervantes”, serão poucas as pessoas que, hoje em dia, saberão quem é ou era. Provavelmente irão dizer disparates do estilo “é futebolista” ou “é um político”. No entanto, se dissermos logo a seguir “D. Quixote”, serão muitos aqueles que imediatamente se lembrarão de um homem franzino a lutar contra moinhos. Pois é: esta personagem – juntamente com o seu fiel amigo Sancho Pança – tornou-se um símbolo do sonho vs realidade, a coragem vs pragmatismo, a aventura vs a rotina. E de tal forma marcou a cultura Ocidental que, ainda hoje, muitas personagens atuais ainda são criadas com base nesta dicotomia. O último caso é o do visionário Homem de Ferro vs o pragmático Capitão América.
No entanto, Miguel de Cervantes não se ficou por esta obra-prima. Na verdade, até ao fim da vida, escreveu. E os paralelismos entre Camões e este grande autor espanhol são extraordinários: ambos participaram em batalhas, ambos conheceram o mundo, ambos tinham uma mente muito aberta, ambos eram génios, ambos passaram por imensas dificuldades económicas até morrerem e ambos sobreviveram muitas vezes graças à arte da escrita.
Ora, uma das últimas obras – senão mesmo a última – que Cervantes escreveu tinha o título de Los trabajos de Persiles y Sigismunda - Historia Setentrional. No entanto, a editora Colibri, para comemorar os 400 anos da 1ª edição deste pequenino livrinho, deu-lhe o nome moderno de A Lisboa de Miguel Cervantes. E temos que admitir: no século XXI, este é um título bem mais chamativo do que o original. Já praticamente ninguém se chama Persiles ou Sigismunda. Graças a Deus, pobres criancinhas...
Eis uma descrição dos lisboetas, vista pelos olhos de uma das personagens: Aqui o amor e a honestidade dão-se as mãos e passeiam juntos, a cortesia não deixa a arrogância chegar-se a ela e a bravura não consente que dela se aproxime a covardia. Todos os seus habitantes são agradáveis, são corteses, são liberais, e são enamorados, por que são discretos. Claramente Lisboa ainda não tinha senhorios a expulsar os velhinhos das suas casas, não existiam hostels e a capital ainda não era um parque de estacionamento a céu aberto.
Ironicamente, a cidade não é grande estrela deste livro: Manuel de Sousa Coutinho (sim!, o Frei Luís de Sousa!) e uma família de “bárbaros,” vindos da Europa Setentrional, são as figuras mais importantes desta obra, assim como a gentileza e piedade dos lisboetas. Na verdade, pouco se fala desta capital... Apesar de tudo, vale a pena ler esta pequenina história, que se divide em três partes. É um documento histórico interessante e, para quem está a aprender Castelhano, esta edição é bilingue.
Este livrinho foi-nos oferecido pela Doutora Maria Fernanda de Abreu (que linda dedicatória, obrigado!), que editou, prefaciou e organizou esta homenagem. A dedicatória também revela o agradecimento do ilustrador Nuno Abreu. Para quem não sabe, esta professora é a maior - como diz o povo - “entendida” na vida e obra do grande Cervantes! COM EFEITO, É UMA GRANDE CERVANTISTA RECONHECIDA INTERNACIONALMENTE. Por isso mesmo, a equipa da nossa biblioteca sentiu-se muito comovida com a sua oferta.
Lê-se em meia hora, podemos garantir-vos!

terça-feira, dezembro 11, 2018

Livro da Semana

O livro dos cansaços, Licínia Quitério

wps3357.tmpEm tempos que já lá vão; no tempo em que uma ferida num dente equivalia à morte; no tempo em que “fazer amor” era sinónimo de “salvar a nossa tribo”; no tempo em que a família era tudo, e os lobos e os tigres espreitavam as nossas casas, farejando a criança tenra; no tempo em que o Homem-bicho valia tanto como uma lebre na serra e negociava a sua vida com os anjos e os demónios, taco a taco, como se o mundo fosse uma feira local... Foi nesse tempo que nasceu a Poesia.

Não, não se recitava, cantava-se. Canto I, Canto II, Lusíadas, Homero. Oráculo de Delfos, ladainhas da avó, cantigas a Santa Bárbara, serenatas à janela. Os deuses gostam da Música, que é a matemática do universo, a voz do Cosmos, a Alma Humana.

Depois vieram as máquinas e a Vida calou-se. Hoje não falamos, twitamos. As serenatas são hoje beats, o mistério já foi descoberto, a avó está longe “na terra”, a morrer sozinha. Resta-nos a chapa cheia de luzinhas brilhantes e barulhinhos engraçados. Morremos sentados. E mudos.

E, no entanto, este futuro já tinha sido profetizado por Marguerite Duras. Foi numa entrevista em 1985 (podem lê-la e ouvi-la aqui ). Acertou em tudo. Mas deixou sempre a esperança:

Um homem, um dia, lerá, e daí tudo recomeçará.

É tudo uma questão de tempo. Nós somos a geração que planta as sementes e guarda o conhecimento. Seremos necessários, no futuro. Por isso, as vozes humanas, que teimam ainda em cantar e fazer a diferença, surpreendem-nos quando estamos em estados de sonolência e brotam dos lados que menos esperamos.

wps3358.tmpLicínia Quitério é o exemplo perfeito desta “surpresa das palavras”: numa rede social chamada facebook, onde as pessoas gostam de ser vaidosas e de mostrar as suas vidas pessoais, foi neste lugar que se criou um grupo de amigos fieis, todos juntos à volta desta poetisa única, original, délfica. Fez-se sozinha: sem publicidade, sem ajuda de editoras, sem cunhas, sem amigos poderosos, sem prémios especiais. Foi cantando, calmamente, harmoniosamente. E o grupo foi crescendo, e o “passa a palavra” fluiu.

Não é só de prosa que o mundo da Literatura vive: a poesia, hoje, pode estar dormente, amorrinhada, esquecida. Mas ainda vive.

Foi - e será sempre - a Voz Humana no estado mais puro.

Neste tempo das mulheres – poema recitado pela própria

terça-feira, novembro 20, 2018

Livro(s) da Semana Coleção Guia do Pequeno Ecologista



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Já tínhamos anunciado à nossa escola que a nova montra do mês era completamente dedicada ao mundo natural, para além de – desta vez – oferecer aos curiosos uma mesa extra: agora que já conheces as maravilhas deste planeta, o que fazer para as preservar? Assim, uma estante terá como objetivo revelar a beleza dos mundos terrestres, aquáticos e aéreos, enquanto que a outra nos ensina ideias muito práticas e concretas que nos ajudarão a diminuir a nossa pegada ecológica.
wpsCF32.tmpÉ precisamente tendo em conta o tema deste mês, que escolhemos 5 livritos maravilhosos, que se lêem em três tempos, para além de serem um manjar para os olhos. Feitos de propósito para crianças e adolescentes que querem aprender mais sobre o mundo à sua volta, são obrazinhas de bolso que se folheiam muito rapidamente, ajudando-os também a reconhecer espécies, os seus climas e as suas dietas. São excelentes para quem não tem muita paciência para ler, mas está muito ligado ao mundo visual e adora perder-se por entre os caminhos de uma serra!
Por isso mesmo, o objetivo do “livro da semana” não consiste apenas em divulgar literatura. Consiste em mostrar que este objecto mágico é uma porta para o conhecimento – não importa qual –e, acima de tudo, pode ser também um prazer para a nossa alma.
Esperemos que estas duas imagens que vos mostramos tenham aguçado o apetite. Reservem, não se irão arrepender!


quarta-feira, novembro 07, 2018

Livro da Semana-Santiago, o lince da Herdade das Romeiras -Isabel Maria Fidalgo Mateus

Recentemente, publicámos um texto no nosso blog, como forma de agradecer a esta escritora, pelo gesto bonito de nos ter oferecido um dos seus livros à nossa biblioteca escolar (ler aqui) . Agora, como prometido, o livro desta semana contemplará, precisamente, a análise desta obra oferecida.image

Fazendo parte da “Coleção Bichos”, a autora acima referida tem dedicado vários anos da sua vida a criar histórias infanto-juvenis onde os bichos são as personagens principais, e quase toda a trama é vista e contada pela boca de cada um destes seres gentis. E já são vários: temos o Sultão- o Burreco que veio de Miranda; temos o Signatus -o lobo do fojo de Guende; temos o Farrusco – um cão de gado transmontano; e agora chegou o Santiago.É muito comum escritores de literatura infanto-juvenil usarem animais para contar histórias que quase sempre têm uma lição de vida e uma lição de moral para oferecer às novas gerações. No entanto, o interessante desta coleção é o olhar muito emotivo, mas ao mesmo tempo realista e pouco fantasista destas narrativas. Com efeito, Isabel Mateus faz os possíveis e impossíveis para criar um enredo que o animal escolhido teria provavelmente seguido na vida real. As cenas de luta, a necessidade de comer, a rivalidade entre bichos até do próprio clã, a relação entre humanos e outros seres vivos, o conflito entre a “civilização” e a necessidade de proteger a terra...

Ora, este livro começa precisamente com dois linces ibéricos, criados em cativeiro, que serão libertados no seu habitat. A história não começa bem: a necessidade de comer, a briga entre dois linces machos por causa da comida, uma fêmea que abandona o macho, uma criança que encontra um animal ferido... Afinal, tanto esforço para nada? Mal chegou à Herdade e vai morrer logo? O mundo lá fora é imperdoável, uma selva onde só os fortes sobrevivem. O que fazer?

Pelo caminho, vai-se falando de projetos de recuperação e de salvação do património natural; as memórias dos velhos que conheciam o campo, quando ele era verde e habitado por tantas espécies; a culpa de querermos uma vida melhor às custas do sofrimento e morte de tantos outros bichos; a descrição das paisagens; o instinto, amor e lógica desta espécie que – graças a Deus! - já está a sair da lista que diz “em vias de”...

Isabel Maria Fidalgo Mateus cresceu apaixonada por Miguel Torga, um génio que, tal como ela, também era um filho de Trás-Os-Montes. Nota-se aqui a influência do mesmo, embora o estilo da escritora seja mais fotográfico e menos poético. A sua coleção “Bichos” é um excelente presente de Natal para crianças entre os 10 e os 100, que gostam de ler histórias sobre animais, ao mesmo tempo em que vão aprendendo um pouco sobre eles.

segunda-feira, outubro 08, 2018

Livro da Semana - Bichos, de Miguel Torga

Só havia três coisas sagradas na vida: a infância, o amor e a doença. Tudo se podia atraiçoar no mundo, menos uma criança, o ser que nos ama e um enfermo. Em todos esses casos a pessoa está indefesa.
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E foi sempre assim que Miguel Torga – pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha - olhou para o mundo. E tal não é para espantar: médico de profissão, sempre sentiu o desejo de acarinhar e curar os fracos e os oprimidos. Mesmo quando ia à caça, tinha o cuidado de escolher os mais fortes e só levava para casa o que necessitava para jantar. A sua ligação com o mundo era a de um verdadeiro pastor quase animista: tudo tem alma, tudo tem sede, tudo precisa de amor e de dignidade.
Por isso mesmo, é muitas vezes doloroso – mas estranhamente reconfortante, também – ler estes pequenos contos que fazem parte do livro acima mencionado. Bichos?? Porquê “Bichos”? Bichos porque estamos a falar de animais ou bichos porque os humanos comportam-se de uma maneira vil, que nem o mais humilde dos animais é capaz de se comportar?
E depois... A velhice e a morte. A morte do cão que morre feliz porque vê as lágrimas da dona; o gato que morre de vergonha; o burro que é abandonado na estrada; o filho morto da mãe solteira...
Este não é um livro feliz, é um livro humano. São histórias de bichos que pensam como os homens e de homens que se portam como bichos. E – não se deixem enganar pela ruralidade das palavras e da paisagem destes contos – esta obra é tão, tão atual... Afinal, as duas grandes questões da Humanidade continuam a ser válidas:
O que é ser Humano?
Que atitude terei eu, perante a inevitabilidade da Morte?
Aprendamos com os “bichos”.


quarta-feira, outubro 03, 2018

Livro da Semana - Contos Gregos, António Sérgio


wps5043.tmpContos Gregos, António Sérgio

Ora aqui está uma excelente maneira de começarmos o ano letivo: lermos um pequeno livro lindamente ilustrado e conhecermos um bocadinho mais das outras culturas, mitos e tradições que influenciaram aquilo que hoje nós chamamos “Civilização Ocidental”.

Com efeito, as raízes do nosso pensamento, economia, sociedade ou arte têm como pano de fundo a cultura greco-romana. Conhecermos estes contos é conhecermos um pouco de nós e descobrirmos quem somos, de onde vimos e para onde vamos.

Esta pequenina edição lê-se com prazer, a escrita é clara e agradável e, sem termos dado por tal, chegámos ao fim do livro!  Por isso mesmo, aconselhamos esta joiazinha da nossa biblioteca.

Afinal, nada como um livro e uma biblioteca escolar, para viajarmos sem pagarmos um tostão!

sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Livro do Mês


Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco


          
  Sempre que ouvimos falar das palavras “romântico” ou “romantismo”, a primeira coisa que nos vem à cabeça é uma série de cantores piegas e sentimentalistas, trauteando melodias cheias de corações farfalhudos, perante uma plateia de admiradores composta mais por membros do sexo feminino do que do masculino. E, de certa forma, é verdade: o movimento romântico esteve bastante ligado a este grande sentimento, que move toda a Humanidade, e que ainda hoje não consegue ser explicado e descrito.
            Porém, o Romantismo foi muito mais do que isso: este movimento também se preocupava com grandes questões sociais tais como a educação livre para todos, a identidade de uma nação, o direito à liberdade individual, as lutas entre classes, entre outras preocupações de então.
E o casamento.
Sim, o casamento. O direito de escolhermos o nosso parceiro, sem interferências exteriores; o direito de nos separarmos dele, se as coisas não correrem bem; o direito de os nossos filhos serem considerados cidadãos válidos para a nação, mesmo que nasçam fora do casamento; o direito de uma mulher se separar do marido, se este a tratar mal; tudo isto são assuntos que nós consideramos, hoje em dia, um “dado adquirido” e fazem parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Ora, no tempo de Camilo Castelo Branco – o tempo de um Portugal rural, atrasado, analfabeto e ferozmente Cristão – isto não acontecia e o livro deste mês fala precisamente deste tema: o amor de Teresa de Albuquerque e de Simão Botelho, membros de duas famílias rivais, é um amor proibido, pois a família já decidira, à revelia da filha, casá-la com outro pretendente. Era o tempo em que os filhos eram propriedade dos progenitores e trocava-se a filha por um pedaço de terra a mais. Aliás, a figura severa do pater famílias - juntamente com a figura-tipo do emigrante português abrasileirado – encontra-se presente em muitos livros deste escritor e estas obras, escritas à pressa e de rajada para um público que gostava de grandes dramalhões, causaram um enorme impacto cultural e social para os séculos seguintes.
Os românticos pertencem à primeira geração de artistas que praticam o culto do individualismo, ou seja, o direito de sermos nós mesmos e de encontrarmos o nosso próprio caminho, independentemente do que o grupo deseja para nós. Infelizmente – e como muitas vezes a literatura da época exemplifica – a sociedade está sempre contra o ser humano rebelde, que finca o pé e diz “não”. Daí que o sentimento do amor fosse tão importante para os românticos: sendo o casamento uma instituição social e tendo em conta que naquele tempo não existia divórcio, ficarmos presos a uma pessoa que não nos diz nada ou que nos trata mal para o resto da vida é passaporte certo para o inferno na terra.
Embora este Portugal do “Amor de Perdição” já tenha quase desaparecido, esta história de amor continua, no entanto, a ser muito atual em muitos países ou muitos grupos religiosos ou sociais. Lembremo-nos de que o conceito do “casamento por amor” é bastante recente e ainda só existe no mundo ocidental ou em países já “ocidentalizados”. Em mais de metade do planeta, com efeito, a troca dos filhos por propriedades ou dotes ainda é uma constante.

Felizmente, vivemos na parte certa do planeta…


domingo, outubro 20, 2013

Livro da semana

 

Dora Bruder, de Patrick Modiano

clip_image002 Segundo algumas contas feitas, pensa-se que, até agora, já devem ter existido cerca de 100 biliões de seres humanos neste planeta, e é só quando pensamos neste gigantesco número que nos apercebemos até que ponto cada um de nós não passa de um pequenino ponto que, em 99% dos casos, não será mais do que uma pegada à beira-mar: mesmo que alguém se dê ao trabalho de tirar uma foto e publicá-la no facebook, o resultado vai ser o mesmo e ninguém, a não ser parentes e amigos mais chegados, se lembrará de nós, quando morrermos. Tantas guerras, tantas fomes, tantas injustiças, tantos momentos felizes, tudo isto reduzido a nada, como se nunca tivéssemos vivido.

Dora Bruder teria feito parte deste mar de anónimos, se não fosse um escritor de nome Patrick Modiano: tropeçando, quase por acaso, numa revista velha de 1945, descobriu que uma família judia, logo após a II Guerra, colocara um anúncio e andava ansiosamente à procura de um dos seus familiares desaparecidos, algo que, infelizmente, foi bastante comum, uma vez que esta época negra da História matou dezenas de milhões de seres humanos, de todos os lados, credos e raças. Aliás, estes anúncios em jornais e revistas eram o pão-nosso de cada dia.

A partir deste momento, Patrick Modiano ficou obcecado por esta jovem adolescente de 15 anos, que desaparecera de um convento católico, convento este que supostamente estava a escondê-la dos nazis. O que se terá passado? Por que motivo fugira ela? Por que tomara ela esta decisão?

Este pequenino livro, que se lê num dia e numa tarde não é uma história no sentido típico. Digamos, isto sim, que se trata de colagens, recortes, bilhetes, fotos, restos da presença de Dora neste mundo. O objetivo deste livro não é denunciar o Holocausto Nazi e os campos de concentração. Disto, estão as livrarias cheias de obras literárias ou históricas. Na verdade, dir-se-ia que esta sucessão de “banalidades diárias” é quase indolor e superficial. No entanto, é precisamente aí que esta obra nos choca: como é que um ser humano, com uma vida tão comezinha e tão comum – igual a tantas existências neste planeta – pôde ser destruído por causa de um reles e estúpido detalhe: a sua preferência religiosa?

Dora Bruder é, acima de tudo, um breve relato sobre até que ponto a Humanidade pode ser sinistramente absurda: um peso a mais, um par de óculos ridículo, um gaguejar, uma cor de pele mais escura, um deus ligeiramente mais diferente. Basta só isto para que o nosso destino possa ser decidido por uma multidão enraivecida.

Triste e lúcido, este livro insere-se na montra do mês, “Foi você que pediu um livro pequeno?”. É pequenino, é. Mas é um pequeno grande livro.

segunda-feira, maio 21, 2012

Livro da semana

 

José Paulo Cavalcanti Filho

Fernando Pessoa - Uma Quase- Autobiografia

A OBRA VISTA PELO AUTOR
«Este livro, pois, não é o que Pessoa disse, ao tempo em que o disse; é o que quero dizer, por palavras dele. Com aspas é ele, sem aspas sou eu (...)»

SINOPSE
«Conheci Fernando Pessoa em 1966, pela voz de João Villaret. Foi o começo de uma paixão que até hoje me encanta e oprime.»


“Enamorado desta figura de romance por escrever e de uma obra imensa que dispensa apresentação, José Paulo Cavalcanti Filho partiu à descoberta do homem que aqui nos dá a conhecer, de corpo inteiro: um Fernando Pessoa multifacetado, homem vaidoso, com dons de inventor e astrólogo, de ambições desmedidas e existência modesta; uma vida banal e triste para uma obra verdadeiramente universal.
Da reconstituição das esferas culturais da época aos pormenores do quotidiano, Cavalcanti decifra a vida por trás das palavras, a solitária multidão de um só Pessoa.”

in Porto Editora a quem agradecemos a oferta desta obra à biblioteca da nossa escola.

quarta-feira, abril 18, 2012

Livro da Semana

 

O sal da terra, de Miguel Real

Muito já se tem dito e escrito sobre a vida e obra de Padre António Vieira. Aliás, Fernando Pessoa descrevia-clip_image002o como sendo o “imperador da Língua Portuguesa”. A verdade é que, independentemente de gostarmos ou não dos seus livros e sermões, não podemos deixar de admirar um homem que nunca desistiu de lutar pela justiça e pela verdade, que nunca se calou perante os grandes, que esteve sempre do lado dos injustiçados e dos oprimidos e que confiou cegamente nos potenciais do seu país.

Este era um homem que acreditava ferozmente no papel preponderante da nossa nação, não como opressora bélica, mas como força transformadora e criadora da igualdade de todos, através do poder do Espírito Santo. O Quinto Império, com efeito, foi a grande obsessão da sua vida, a ponto de só lhe trazer dissabores e constantes ataques da Inquisição. Portugal era visto como um farol de luz e sabedoria, o centro do nosso planeta.

Miguel Real, o autor desta obra, decidiu escrever um livro que contasse a vida deste fabuloso jesuíta e, como a contra-capa deste romance afirma, O Sal da Terra descreve a vida aventurosa do padre António Vieira entre o Brasil e Portugal: uma vida farta de sonhos nacionalistas até 1667 e carregada de desilusões até à sua morte, em 1697. Em vida Vieira vê-se a si próprio como o português mais fracassado de todos os tempos – nada do que sonhara se cumpriu, todas as suas profecias se frustraram, todos os seus planos políticos se goraram. Afinal, toda a sua glória foi póstuma.”

Este é um livro que não pretende ser literário. O seu objetivo é proporcionar boas horas de entretenimento e prazer e, como quem não quer a coisa, ficarmos a conhecer o Portugal e o mundo do século XVII. Miguel Real tenta ser cuidadoso na forma como descreve as civilizações deste mundo já desaparecido, e tenta sempre colocar-se na pele de Vieira. Estamos ainda muito distantes da carta dos direitos humanos, do sonho da democracia, da igualdade das mulheres, da liberdade religiosa e do direito à nossa sexualidade.

Olhando para trás, apercebemo-nos que já percorremos um longo caminho, embora ainda falte muito para ser cumprido. O sonho de Vieira era um sonho de cariz religioso e político, o paraíso era cristão e “frescuras” como os direitos dos animais ou a concepção da reencarnação ser-lhe-iam completamente alienígenas. No entanto, ele foi para a sua época um homem que acreditava na dignidade humana, no poder do estudo e dos livros e foi, acima de tudo, um ser humano extremamente moderno e humanista. Como eram, aliás, os jesuítas.

Para quem está a estudar a História de Portugal ou a aventurar-se pelos caminhos do Sermão de Santo António aos Peixes, O Sal da Terra é um excelente cartão de boas-vindas à vida e obra deste grande “Imperador da Língua Portuguesa”.

terça-feira, março 13, 2012

Livro da semana

 

Uma questão de cor, de Ana Saldanha

Eu não tenho nada contra os pretos, mas…

Eu até tenho amigos pretos, mas…

Enfim, eles lá são assim…

Está-lhes no sangue a música, não é? Isso já vem de longe, vem dos tambores das selvas…

Coitadinhos, eles precisam de quem tome conta deles. Os pretos até têm muitas qualidades, mas…

clip_image002De todos os tipos de racismo existentes, o paternalismo é o pior de todos, e é sem dúvida o mais difícil de combater. “Racista, EU?????”, é a resposta chocada e indignada que este tipo de humanos profere, assim que são acusados de discriminar alguém que não seja da sua raça. Na verdade, a esta gente nem lhes passa pela cabeça de que estão de facto a discriminar: se vocês assistirem ao brilhante filme As Serviçais, do realizador Tate Taylor, encontrarão exatamente este tipo de mentalidade, e o mais chocante de tudo é verificarmos que estas mulheres americanas brancas de uma América (quase) desaparecida estão plenamente convencidas de que são muito “progressivas” e muito amigas dos “pretinhos”.

Ora Portugal não escapou nem escapa à regra: a memória de um império colonial português ainda está bem viva no nosso subconsciente, e não é por termos deixado as nossas colónias que, de um momento para o outro, passámos a ter uma mente mais aberta. Afinal, passaram-se menos de quarenta anos desde o 25 de Abril de 1974, e ainda precisamos de percorrer um longo, longo caminho. Com efeito, por detrás da aparência do “bom patrão branco”, a história do século XX está cheia de relatos de maus-tratos aos negros em nações como Angola ou Moçambique. Os portugueses foram, sem dúvida, mais moderados do que os ingleses ou os espanhóis, mas não fomos nem simpáticos nem igualitários.

Um Questão de Cor aborda precisamente estes dois tipos de racismo: o descarado, frontal e mais honesto (Vai para a tua terra! Estes pretos não fazem nada!, etc”) e o escondido, nunca assumido (Eu não sou racista, mas…). As duas personagens principais – Nina, a prima branca e Daniel, o primo negro – vão ter que aturar muito insulto e muita discriminação, e o racismo virá de todos os lados, até de quem menos se espera. É o caso de uma das professoras de Nina, que nem quer acreditar que uma branca possa ter um membro da família que seja negro, e virá também… da própria Nina, que se acha muito “práfrentex” e que, só muito mais tarde, se aperceberá que também ela é preconceituosa. Na verdade, a reputação de Portugal como sendo um país de brandos costumes e muito cosmopolita sai bastante chamuscada desta história. A imagem dos portugueses não é nem um pouco simpática.

Escrito para uma audiência de adolescentes, este pequeno livro é, no entanto, uma boa forma de abordarmos a questão da discriminação e deverá ser lido por todos, até por adultos. Ou muito me engano, ou muitos portugueses, já pais e mães, se reconhecerão facilmente em algumas das personagens que habitam esta obra literária juvenil…

As ilustrações são da autoria de José Miguel Ribeiro, um dos grandes ilustradores de nacionalidade portuguesa e que (nem de propósito…) estará na nossa escola até quinta-feira a realizar um workshop de animação à turma do Curso profissional de animação (2D3D).

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Livro da semana


Van Gogh, de Rainer Metzger e Ingo F. Walther



De todas as editoras exclusivamente dedicadas às artes e expressões, a editora Taschen é a mais famosa de todas. Com efeito, se alguém quiser estudar os grandes nomes da arte mundial – ou simplesmente deliciar-se com a beleza dos quadros, fotos, design ou outras formas de a alma se expressar – a melhor coisa que deve fazer é comprar vários volumes desta coleção. A Taschen democratizou o estudo da arte: criou livros cujos preços são acessíveis às bolsas de quase todos, traduziu-os para praticamente todas as línguas do mundo e realizou tiragens em massa. O resultado é o que se espera: não há museu, livraria, biblioteca ou loja turística do planeta que não tenha pelo menos uma edição desta gigantesca fábrica de ensinar arte.
Bem a propósito: a estante deste mês – que será publicada amanhã – é dedicada precisamente a todos os géneros de arte, desde a mestria de fabricar lindíssimos azulejos até ao dom de pintar um tromp l’oeil. E, modéstia à parte, o que não nos falta é livros e enciclopédias dedicadas a este tema, na nossa biblioteca. Ora Van Gogh é um autor que merece um destaque especial, pois possui a genialidade, a profundidade e a aura trágica de um Miguel Ângelo ou Caravaggio – se bem que, é claro, o seu estilo nada tenha a ver com o Renascimento.
Louco esquizofrénico, internado durante vários anos num hospital de loucos, sozinho, pouco compreendido e profundamente solitário, Van Gogh nunca teve sorte na vida, nunca casou, não teve filhos e não vendeu um único quadro enquanto foi vivo. De facto, se existiu ou existe algum génio neste planeta que preencha o velho cliché do artista incompreendido e com crises existenciais, Vang Gogh cabe que nem uma luva nesta categoria. Os últimos anos na sua vida foram povoados de alucinações e de instintos suicidas, provocando-lhe uma morte prematura. Mais de 100 anos depois, a sua vasta obra é hoje amada e imitada por imensas gerações, e sempre que os alunos têm contacto com um dos quadros, a sua reação oscila sempre entre o espanto e o encanto, nunca a indiferença.
Cabe a nós, professores e pais, manter o seu legado sempre vivo.
Tributo a Van Gogh (a música é dedicada a Van Gogh)

terça-feira, janeiro 31, 2012

Livro da Semana

 

Century, O Anel de Fogo, de P.D.Baccalario

clip_image001 Para já, comecemos pelas capas: são deliciosamente bonitas, elegantemente editadas e convidam logo os nossos olhos a pousar para a sinopse do livro. A série Century, composta por quatro volumes, é requintada e trata os seus leitores juvenis com o respeito que eles merecem: em vez de uma escrita parva, cheia de grandes pontos de exclamação, ou um design a rondar o infantil, os leitores do mundo da fantasia são convidados a pensar e a acompanhar com prazer estes quatro jovens que parecem ter muita coisa em comum, a começar pela data de nascimento (todos nasceram no dia 29 de Fevereiro) e a um “acidente” burocrático, que levou estes miúdos a partilhar o mesmo quarto num hotel em Roma.

Longe vão os tempos em que a escrita infanto-juvenil era olhada como uma espécie de literatura de segunda classe. Autores como Emilio Salgari ou a Condessa de Ségur eram vistos como “escrevinhadores” que entretinham os sonhos amalucados e selvagens de meninos e meninas, em fase de puberdade. A chegada triunfal de J. R. R. Tolkien, o mestre do Senhor dos Anéis, acabou de vez com o mito de que histórias de fadas, dragões ou forças mágicas são coisa de crianças. Hoje, o mundo da fantasia e do suspense agrada públicos que vão dos oito aos oitenta anos. Aliás, a famosa saga de Harry Potter foi (e ainda é) lida por um vasto exército de leitores que oscila entre os oito e os oitenta anos (a fã mais velha deste bruxo tinha, no ano de 2007, 97 anos!). Hoje, a literatura infanto-juvenil, quer seja uma literatura de fantasia ou realista, é estimada e respeitada, até porque, muitas vezes, é através destes livros que muitas crianças e jovens descobrem o prazer de ler.

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Outra coisa positiva é repararmos que estes livros valorizam o melhor que os jovens têm para dar ao mundo: em vez dos putos mimados, agarrados à playstation e preguiçosos, as crianças e adolescentes são heróis inteligentes e manhosos que podem salvar o mundo. E qual é a criança que não se identifica com estas personagens tão otimistas??

A história parece simples, mas não é: de 100 em 100 anos, a Humanidade é posta à prova, e quatro crianças, para salvar o seu planeta, são selecionadas para preservar o mundo. Trata-se da velhinha e típica batalha entre o bem e o mal: as forças negras querem apoderar-se de um artefacto poderosíssimo – o anel de fogo – e as quatro forças da Natureza precisam de se defender. Estas quatro energias têm o seu centro em quatro cidades: Roma, Xangai, Paris e Nova Iorque. Como já adivinharam, cada um destes volumes estará dedicado a cada uma destas metrópoles.

Boa leitura, e viajem através das palavras!

Porque ler ainda hoje é a maneira mais barata de viajarmos.

Century, O anel de fogo – Booktrailer

terça-feira, janeiro 24, 2012

Livro da semana

 

As Mentiras de Locke Lamora, de Scott Lynch

clip_image002 Quem é que, pelo menos uma vez na vida, não sonhou ser pirata, viajar em navios fantasmas, ser um ladrão com estilo e adorado por tudo e todos, ou ser um cavaleiro capaz de defender uma aldeia inteira? A verdade é que estes três arquétipos da Humanidade – o ladrão, o pirata e o cavaleiro – fazem parte do nosso subconsciente: o pirata representa a rebelião, o espírito livre, a coragem de enfrentar o desconhecido e o prazer de estarmos no lado errado; o ladrão representa a manha e a inteligência, aquele que é capaz de roubar um banco super blindado debaixo dos narizes de toda a gente; por fim, o cavaleiro representa o melhor lado que existe em todos nós, o desejo inerente de protegermos os fracos, os inocentes, os velhos e as crianças. Todos nós, em suma, temos um pouco de cada um destes três símbolos da Humanidade. O interessante é tentarmos perceber qual é aquele que está mais vivo dentro de nós…

E Locke Lamora é precisamente aquilo que esperamos de um bom ladrão. Não, não é bonito e charmoso como o George Clooney nos filmes Ocean qualquer coisa, mas possui uma inteligência e uma manha bastante fora do vulgar. Aliás, no reino de Camorr, a população deste mundo imaginário já se deu ao trabalho de inventar todo o tipo de coisas acerca dele: que é alto, forte, corajoso, capaz de enfrentar exércitos sozinho, capaz de atravessar paredes como um fantasma e, pasme-se!, até rouba dos ricos para dar aos pobres. Pois sim. Ele até pode ser - e é – extraordinariamente inteligente, mas rouba dos ricos para enriquecer, é franzino e frágil como uma pena, é esquivo como um fantasma, é uma desgraça nas batalhas e não é nada bonito. E, no entanto, há qualquer coisa nele que encanta…

Juntamente com os seus amigos especiais, Lamora pertence a um grupo de elite bem fechado, de nome “O grupo dos Bastardos Cavalheiros”, um nome que, como indica, não tem adeptos lá muito recomendáveis. Ironia das ironias, estes bandidos podem ser mesmo a última esperança de Camorr, pois uma violenta guerra clandestina e uma feroz luta de poderes correm o risco de destruir o reino que eles tanto amam… e que, afinal de contas, é o seu sustento. Estes cavalheiros podem parecer duros e cínicos, mas, como manda a lenda e as histórias de heróis, o coração de manteiga acaba sempre por vencer.

Ah, só uma coisa: George R. R. Martin, o escritor de A Guerra de Tronos, recomendou a leitura deste livro e, muito importante, este romance foi traduzido e editado por aquela que é apenas (na nossa opinião, é claro) a melhor editora do país: a Saída de Emergência.

Por isso, já sabem: estamos todos em boas mãos.

terça-feira, janeiro 17, 2012

Livro da semana

 

O Misterioso mundo dos oceanos, de Frank Schätzing

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A vida não teria sido possível sem os oceanos. E não seria possível, pois mais de 70% do oxigénio do nosso planeta provém dos mares e não das árvores. De facto, muito se fala da aniquilação da Amazónia, mas quando nos deparamos com esta verdade, o chão parece que desaparece dos nossos pés. É arrepiante pensarmos que estamos a destruir a vida nestas imensas águas e, por exemplo, os famosos corais – que se encontram em vias de extinção – são uns dos grandes pulmões da Terra.clip_image003

Ecologias à parte, este é um livro que, embora também enfatize a necessidade de preservarmos o pouco que ainda resta da mãe natureza, dedica-se, acima de tudo, a relatar com paixão e emoção esse mundo maravilhoso e misterioso que são os oceanos. E que bem que ele narra a sua história!: Frank Schätzing, para quem adora ler livros de divulgação científica, já é um nome conhecido nas livrarias de todo o mundo. Foi ele quem escreveu a obra O Quinto Dia, que especula o que teria acontecido ao planeta Terra se este não possuísse um satélite chamado Lua. O autor bem que podia escrever argumentos para cinema: os seus livros são vívidos, sempre cheios de ação, mas nunca perdem a sua seriedade, baseando-se sempre em fatos científicos comprovados e aceites por carolas vindos de comunidades como a NASA ou o CERN.

Schätzing não brinca em serviço. O seu objetivo é educar as multidões, ao mesmo tempo em que as entretém. Esta obra é, com efeito, uma verdadeira injeção de sabedoria, e pode ser lida por qualquer um, desde a humilde dona de casa com apenas o quarto ano de escolaridade até ao físico genial que trabalha no LHC, a máquina mais gigantesca do planeta.

Provavelmente um dos capítulos mais fascinantes deste livro é aquele que é totalmente dedicado às profundezas do mar. E, caso vocês não saibam, sabe-se muito, muito pouco sobre esse estranho universo. De facto, foi só há cerca de 30 anos que a Humanidade conseguiu criar tecnologia suficientemente eficiente para estudar as zonas mais profundas dos nossos oceanos. E o que se anda a descobrir é fantástico: para quem gosta de ficção científica, o que se vê na escuridão total das águas é mais bizarro e mais belo do que as histórias da série Star Trek têm para nos encontrar! Não é por acaso que o filme Avatar está cheio de plantas e florestas que brilham no escuro: James Cameron, o realizador deste filme, foi buscar muita inspiração às espécies “alienígenas” que se encontram no fundo do mar (ver foto no cimo deste artigo).

Belíssimo e divertido, este livro é um must da divulgação científica.

Imagem retirada daqui

quarta-feira, janeiro 04, 2012

Livro da Semana

A Invenção de Hugo Cabret, de Brian Selznick

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Já tínhamos, há uns meses, falado no nosso blog de autómatos mágicos, verdadeiros brinquedos que causam sempre fascínio nos miúdos e graúdos. Desta vez, vamos falar de um livro que gira à volta de uma destas fantásticas máquinas.

clip_image003 O filme já está à porta e já foi estreado nos Estados Unidos da América, mas isto não é desculpa para não se “ler” o livro. E dizemos “ler” entre aspas porque A Invenção de Hugo Cabret é um livro em que a imagem e o movimento são tão ou mais importantes do que a palavra em si. Aliás, tendo em conta que esta maravilhosa obra-prima do género fantástico vive muito da imagem – para todos os efeitos, não passa de uma deslumbrante banda desenhada – quase que nem faz sentido transpor esta história para a sétima arte. Com efeito, as duas horas de cinema gastas numa sala 3D mais não são do que uma cópia decalcada deste romance fabulosamente ilustrado, romance este que, ironicamente, é uma homenagem à 7ªa arte, mais particularmente uma homenagem àquele que é considerado o pai do cinema fantástico, Georges Méliès. Daí que todas estas 500 páginas nos façam lembrar mais um filme do que propriamente a literatura no seu estado puro.

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Falemos um pouco deste livro: Hugo Cabret vive no ano de 1931 e parece ser um menino como tantos outros, mas as aparências iludem: para além de adorar relógios e de querer sempre consertá-los, Hugo vive numa estação de comboios e é um ladrão. Rouba carteiras, faz favores, manda recados, enfim, pequenos crimes para crianças sozinhas e meio-abandonadas. Rouba, sobretudo, peças de relógios e de máquinas estragadas, pois o seu sonho é consertar um maravilhoso brinquedo que está avariado: um autómato sentado numa cadeira, de pena na mão, pronto a escrever uma mensagem qualquer num pedaço de papel. E Hugo é curioso, muito curioso. Por isso mesmo, não descansará enquanto não voltar a dar “vida” ao boneco, pois está ansioso para saber que “recado” é que esta máquina tem para lhe dar. É que, viremos a saber mais tarde, este androide está ligado ao seu passado…

Este é um livro de 500 páginas que se lê numa só tarde. É mais imagem do que palavra, porém, não se iludam: a boa banda desenhada é sempre aquela que está ligada a uma boa história. E este romance é uma excelente viagem ao mundo dos sonhos.

A Invenção de Hugo Cabret, Booktrailer

 

A Invenção de Hugo Cabret, Trailer do filme

Imagens retiradas daqui e daqui

terça-feira, dezembro 13, 2011

Livro da semana

 

Proteja o seu filho do Bullying, de Allan L. Beane

Finalmente este assunto começa a ser debatido em Portugal. Já não era sem tempo. Finalmente os pais já podem chegar a uma livraria ou biblioteca, e requisitarem leitura apropriada para este assunto. clip_image002Finalmente as escolas já começam a fazer palestras e cursos práticos acerca deste tema para pais, professores, funcionários e alunos. Finalmente os jornais e as televisões já mencionam este problema. E estão a levá-lo a sério. Finalmente.

Deixemos uma coisa bem clara: “gozar com o colega”, “fazer queixinhas”, dizer piadas parvas e, de vez em quando, acabarem todos à batatada é, sem dúvida, “coisa de crianças”. É certo e sabido que todos os meninos e meninas deste mundo hão de, um dia, ter as suas quezílias com os amigos ou inimigos e, cedo ou tarde, haverá um ou outro confronto. Se isto já acontece com adultos, mais ocorrerá entre as crianças, que só agora é que estão a aprender as regras de bem conviver numa sociedade. Mas há uma diferença colossal