quinta-feira, maio 04, 2017

Livro do Mês -O Gerânio, contos dispersos - Flannery O’Connor

Livro do Mês
O Gerânio, contos dispersos - Flannery O’Connor

          Contar uma história em poucas páginas é das coisas mais difíceis de se fazer. A tendência de um ser humano é a de exagerar na narrativa, decorar as personagens com
mil e um pormenores, inventar bastantes personagens, relatar peripécias paralelas… Mas sintetizar uma narrativa simplificando os pormenores, ao mesmo tempo em que a história não perde o seu brilho e a sua beleza é das tarefas mais difíceis para um escritor.
     São, de facto, poucos aqueles que conseguem dominar estar arte: Maupassant, Eça de Queirós, Vercors, estes são alguns exemplos que ficaram para a História da literatura.E Flannery O’Connor.
 Escritora dos Estados Unidos da América, o seu olhar sobre a discriminação racial, bem como outros preconceitos sociais – particularmente a discriminação que vem dos estados do Sul – gerou um impacto muito forte nas mentalidades dos anos 50 e 60, à semelhança de outras grandes obras como Não matem a cotovia e A cabana do pai Tomás. O Gerânio é uma das muitas histórias asfixiantes sobre o racismo: eis o caso de um homem branco, que não consegue ultrapassar a diferença de cor, ao ponto de se tornar perigoso para o vizinho do lado.
Fortes, brilhantes e, muitas vezes, depressivos, os contos de Flannery O’Connor não são para se ler quando estamos a passar por momentos mais tristes. No entanto, são uma leitura indispensável para tentarmos compreender a evolução do pensamento que teve lugar na era dos anos sessenta, bem como o seu impacto mundial na nossa sociedade atual.

          

quarta-feira, maio 03, 2017

Montra do mês - Leitura para preguiçosos


            Leitura para preguiçosos

         
Imagem retirada daqui.
         Uma vez que a Semana da Leitura preparou uma apresentação oral de livros da nossa biblioteca, super pequenos e fáceis de ler - e dedicada àqueles que ainda não ganharam o gosto pelas palavras – a montra do mês tinha necessariamente de acompanhar esta ideia. 
            Dos milhares de edições e obras que existem no nosso espaço, foram selecionados contos, pequenas novelas, enciclopédias e revistas que não só entretêm como também ensinam. Temos banda desenhada (Tintim, Astérix, Lucky Luke, Quino, etc), seleção de contos (José Jorge Letria, Alexandre Herculano, Mário Zambujal, etc), revistas didáticas (Na Crista da Onda) e livros temáticos.
           
          O objetivo desta montra é ensinar os jovens que os livros também podem ser um passaporte para o prazer, tal como os jogos de computador, séries de televisão ou filmes. E já há quem tenha levado para casa uma pequena jóia!


          Deixamos aqui um “cheirinho” da nossa oferta e… boa leitura!




      

sexta-feira, março 17, 2017

Livro do mês - A Divina Comédia, de Dante Alighieri


A Divina Comédia de Dante Alighieri

           
          De todos as obras escritas pela Humanidade, a Divina Comédia tem sido aquela que mais paixões, mais fascínio e mais polémica tem criado. Altamente simbólica; carregada de críticas ferozes à sociedade de então; extremamente influenciada pela fé Católica, embora a mesma seja olhada de uma maneira mais pessoal; um verdadeiro baú de ocultismo, numerologia, mitologia greco-romana e cosmologia religiosa; este longo poema, dividido em três partes (Inferno, Purgatório e Paraíso) é, para os Italianos, o que Os Lusíadas é para os Portugueses. As grandes grandes grandes obras-primas contam-se pelos dedos e, pelos vistos, cada nação tem a sua.
            Porém, o que significa, antes de mais, a palavra “Comédia”? É que basta lermos as três primeiras páginas desta obra para chegarmos à conclusão de que esta é tudo menos cómica. Ora, a palavra “comédia” sofreu uma evolução semântica, isto é, o vocábulo é o mesmo mas o seu significado modificou-se. Originalmente, este significava “poema narrativo”. Assim, o título deste livro pode ser entendido como sendo uma espécie de “Divina História da Vida Humana”. Agora, as coisas já começam a fazer sentido…
            Dante viveu num século e numa região da Europa onde o Inferno, o terror das chamas eternas e o castigo divino eram factos e não lendas (século XIII, Itália, mais concretamente a região Toscana). Pior ainda, devido às suas constantes ideias políticas, foi exilado. É nesse período conturbado, cheio de guerras e de terrores profundos, que Dante escreve a Divina Comédia. E não é muito difícil percebermos a razão por que foi exilado: não só este autor se atreve a colocar figuras importantes e altamente poderosas da época nas chamas do Inferno, como também a sua fé religiosa era várias vezes contrária aos Cânones da Igreja Romana. A título de exemplo, Dante acreditava firmemente que o arrependimento ajudava sempre a alma a ascender. A pior alma humana, através deste sentimento doloroso, poderia lentamente sair do Inferno, chegar ao Purgatório e, finalmente limpa de toda a maldade, ascender ao Céu. Tal ideia era liminarmente rejeitada pelo papa: o medo do castigo eterno era muito muito conveniente para os poderosos de então…
            Muito mais poderíamos dizer deste génio da literatura, mas o artigo já vai longo. Vasco Graça Moura criou uma das mais polémicas traduções desta obra, bastante “livre” e pouco interessada no purismo da forma. Infelizmente, a literatura – particularmente a poesia- sofre de uma grande falha: ao contrário da música, pintura ou fotografia, a barreira da língua é sempre um inconveniente e, por mais “perfeita” que uma tradução seja, há sempre algo que se perde. Sobra-nos, assim, o conceito, a ideia, a beleza da metáfora.

            Talvez um dia a Humanidade invente uma máquina que ajude o nosso cérebro a decifrar TODAS as línguas…