terça-feira, maio 11, 2010

A Melhor Definição Da Palavra Calúnia

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Corria o ano de 1816, quando a grande ópera cómica (mais conhecida por opera buffa) O Barbeiro de Sevilha foi estreada em Itália. E, de um momento para o outro, o compositor Giachomo Rossini, que até então tinha tido azar com as suas encenações (péssimos actores, cenários a cair aos bocados, cantoras de voz esganiçada)... continuou a ter ainda mais azar. Reza a lenda que o público vaiou, insultou, gritou, cadeiras voaram pelos ares, houve risadas durante todo o espectáculo e os muitos rivais do compositor, que se enontravam infiltrados no público, fizeram tudo e mais alguma coisa para desestabilizar ainda mais a pouca sorte deste pobre homem. Mas Deus estava do lado de Rossini, e à segunda foi de vez: a segunda performance já recebeu a atenção dos espectadores e acabou em glória.

Ora, é precisamente nesta ópera que nós podemos escutar a famosa ária La Calunnia (Ária é o nome que nós damos a uma pequena canção inserida numa ópera, pode ser retirada da mesma e cantada isoladamente). Nesta pequena joiazinha, faz-se, segundo a opinião de muita gente, a melhor descrição que alguma vez na vida foi feita acerca da palavra calúnia:

A calúnia é uma brisa,

um sopro leve muito gentil que,

despercebido,

subtil,

ligeiramente,

docemente,

começa a sussurrar.

De início lentamente,

em murmúrios,

sibilante,

vai rastejando,

vai rodando;

na mente da gente

clip_image004 se introduz com destreza,

e a cabeça, e os nervos

aturde e inflama.

Em desordem vai saindo,

em desordem vai crescendo,

faz-se forte pouco a pouco,

voa já de um lado ao outro;

como um trovão,

uma tempestade que,

no centro do bosque,

agita o ar,

chirria e de horror o sangue te gela.

No fim,

transborda e estoura,

propaga-se,

redobra-se

e produz uma explosão,

como um tiro de canhão,

um terramoto,

um temporal,

um tumulto geral,

que faz o ar ribombar.

E o pobre caluniado,

aviltado,

pisado,

flagelado por toda a gente,

com tal azar, soçobra.

(libretto da autoria de Cesare Sterbini)

Isto não vos faz lembra nada? Pois sim, quantos actores, escritores, músicos, poderosos, vizinhos do lado e colegas de trabalho não viram a sua vida e as suas carreiras destruídas por uma coisa tão pequena e mesquinha que, começando como um “simples” e “inofensivo” boato, atingiu proporções doentias e cruéis? Pois é, todos nós já conhecemos um exemplo assim ou, pelo menos, já ouvimos falar de um. E o pior de tudo é que, uma vez instalado, dificilmente poderá ser desmentido.

Por isso mesmo, quase duzentos anos depois, esta ária continua a ser tristemente actual. Mudam-se os tempos, já ninguém anda de peruca e de coche, mas a maldade humana continua a ser irremediavelmente a mesma...

Agora ouçam a deliciosa “canção”...

A Calúnia (em O Barbeiro de Sevilha, de Giachomo Rossini)

Baixo-Barítono Valerian Ruminski (primeira imagem):

Cartaz do Barbeiro de Sevilha:

Tradução retirada de:

 

2 comentários:

Rainha da Rússia disse...

Uma boa definição, e a canção é linda.

Obrigada :)

Lyta disse...

Lindo, lindo, lindo!

Já que andam numa de árias, experimentem «Rainha da Noite» da Flauta Mágica, por Diana Damrau. Simplesmente divino!