sexta-feira, fevereiro 07, 2014

Livro do Mês


Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco


          
  Sempre que ouvimos falar das palavras “romântico” ou “romantismo”, a primeira coisa que nos vem à cabeça é uma série de cantores piegas e sentimentalistas, trauteando melodias cheias de corações farfalhudos, perante uma plateia de admiradores composta mais por membros do sexo feminino do que do masculino. E, de certa forma, é verdade: o movimento romântico esteve bastante ligado a este grande sentimento, que move toda a Humanidade, e que ainda hoje não consegue ser explicado e descrito.
            Porém, o Romantismo foi muito mais do que isso: este movimento também se preocupava com grandes questões sociais tais como a educação livre para todos, a identidade de uma nação, o direito à liberdade individual, as lutas entre classes, entre outras preocupações de então.
E o casamento.
Sim, o casamento. O direito de escolhermos o nosso parceiro, sem interferências exteriores; o direito de nos separarmos dele, se as coisas não correrem bem; o direito de os nossos filhos serem considerados cidadãos válidos para a nação, mesmo que nasçam fora do casamento; o direito de uma mulher se separar do marido, se este a tratar mal; tudo isto são assuntos que nós consideramos, hoje em dia, um “dado adquirido” e fazem parte da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Ora, no tempo de Camilo Castelo Branco – o tempo de um Portugal rural, atrasado, analfabeto e ferozmente Cristão – isto não acontecia e o livro deste mês fala precisamente deste tema: o amor de Teresa de Albuquerque e de Simão Botelho, membros de duas famílias rivais, é um amor proibido, pois a família já decidira, à revelia da filha, casá-la com outro pretendente. Era o tempo em que os filhos eram propriedade dos progenitores e trocava-se a filha por um pedaço de terra a mais. Aliás, a figura severa do pater famílias - juntamente com a figura-tipo do emigrante português abrasileirado – encontra-se presente em muitos livros deste escritor e estas obras, escritas à pressa e de rajada para um público que gostava de grandes dramalhões, causaram um enorme impacto cultural e social para os séculos seguintes.
Os românticos pertencem à primeira geração de artistas que praticam o culto do individualismo, ou seja, o direito de sermos nós mesmos e de encontrarmos o nosso próprio caminho, independentemente do que o grupo deseja para nós. Infelizmente – e como muitas vezes a literatura da época exemplifica – a sociedade está sempre contra o ser humano rebelde, que finca o pé e diz “não”. Daí que o sentimento do amor fosse tão importante para os românticos: sendo o casamento uma instituição social e tendo em conta que naquele tempo não existia divórcio, ficarmos presos a uma pessoa que não nos diz nada ou que nos trata mal para o resto da vida é passaporte certo para o inferno na terra.
Embora este Portugal do “Amor de Perdição” já tenha quase desaparecido, esta história de amor continua, no entanto, a ser muito atual em muitos países ou muitos grupos religiosos ou sociais. Lembremo-nos de que o conceito do “casamento por amor” é bastante recente e ainda só existe no mundo ocidental ou em países já “ocidentalizados”. Em mais de metade do planeta, com efeito, a troca dos filhos por propriedades ou dotes ainda é uma constante.

Felizmente, vivemos na parte certa do planeta…


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