terça-feira, abril 30, 2019

Livro da Semana - Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira



Está muito esquecida, esta obra, e injustamente: num tempo em que a palavra “medo” está tão presente - ao ponto de a Humanidade começar a paralisar, a estagnar ou, pior ainda, desistir de lutar – este é o momento certo para ressuscitarmos obras-primas da literatura mundial, que nos ensinem a questionar, a pensar e a agir. Estes não são tempos para estarmos parados “a ver navios passar”. O Planeta Terra encontra-se neste momento numa encruzilhada: ou fazemos uma mudança radical de 180 graus ou estamos condenados ao fracasso. E não, não estamos a ser alarmistas, estamos a ser realistas.
Já toda a gente sabe – ou devia saber! – que Aventuras de João Sem Medo é claramente uma alegoria de um Portugal fechado, conservador, mergulhado na ditadura de Salazar. Escrito em 1963, José Gomes Ferreira inventou na sua cabeça uma aldeia onde os habitantes não fazem outra coisa senão reclamar ou choramingar. As desgraças da vida sucedem-se, mas ninguém está minimamente interessado em mexer uma palha e arriscar uma ideia nova.
Que este livro tenha sido escrito no Portugal do Estado Novo não é surpresa para ninguém. O problema reside no facto de que toda a Civilização Ocidental é hoje uma terreola “Chora-que-logo-bebes”: 60 anos depois, este livro continua a ser não só atual como, pior ainda, parece que o nosso mundo – antes tão ousado e criativo! – se transformou num Portugal fechado, escuro, infantilizado e cobarde.
Falta ao Ocidente “a espinha”, a maturidade, a ousadia, o estudo, o trabalho árduo, o questionar. Para quando, os Joões sem medo? Quanto tempo mais teremos de esperar para encontrarmos um homem e uma mulher que tenham uma ideia verdadeiramente revolucionária, capaz de galvanizar as massas? Lá de vez em quando aparece uma Greta subnutrida que se balda às aulas e fala dos direitos dos animaizinhos e do aquecimento global. Fala no palco de umas Nações Unidas que votaram em massa para que a Arábia Saudita - um país que odeia mulheres – comande a Comissão dos Direitos das Mulheres. Tudo isto é superficial, fútil, tão vago, tão vazio e tão frágil como bolhinhas de sabão. Vai-se às manifs para se tirar uma selfie e ficar catitota nas redes sociais. De preferência às sextas, para se baldarem às aulas. Como faz a Greta. E não se esqueçam do Ipad, feito por crianças escravas, e a t-shirt tão trendy, feita por crianças escravas, e os sapatinhos Nike, feitos por crianças escravas. E depois lá vamos para casa no nosso pópó. Feito por crianças escravas. E sempre a reclamarmos, sempre a choramingarmos da nossa vidinha tão triste e tão sem sentido.No entanto, esta história satírica oferece-nos precisamente uma pista para que o Ocidente triunfe mais uma vez: a revolução é sempre individual, nunca coletiva. Compete a nós – e só a nós – regularmos as nossas vidas. O resto virá por si. Talvez os outros vejam o nosso sucesso e tentem imitar-nos. Muitas vezes, tudo começa com um joão sem medo que se farta, que sai do rebanho e que, involuntariamente, acaba por ser um “role model” para todos aqueles que também estão cansados de viver uma vida constantemente adiada. Nem sempre acontece e o cinismo vence. Como, aliás, aconteceu com o protagonista deste livro. No entanto, a mudança nunca é feita para mudarmos o mundo, é feita para mudarmos a nossa vida. Mas a nossa mudança poderá inspirar os outros que estão perto de nós. E é assim que um verdadeiro movimento começa: alguém tem uma ideia fenomenal, outros começam a imitá-lo. Devagarinho, silenciosamente, grão a grão, o grupo vai crescendo. E um dia, décadas depois, toda a gente repara nele.O cinismo também tem o seu lado positivo: a partir do momento em que deixamos de acreditar nos outros, nada mais nos resta do que acreditarmos em nós mesmos. Longe dos holofotes e das redes sociais, da fogueira das vaidades, os verdadeiros joões sem medo estão a plantar árvores, a recolher cães abandonados, a inventarem fornos solares, a viver no campo. Estão a conversar com os velhos, a distribuir comida para os sem-abrigo, a construir uma casa ecológica, a restaurar livros antigos, a conservar filmes clássicos, a contar histórias a crianças, a tocar um antigo instrumento musical. Esses não vão falar para a sede das Nações Unidas. Nem querem.Brilhante, acutilante, hilariante e moderno, eis um livro que merece ser lido por todos os cidadãos deste planeta. Esta sátira a Portugal não é geográfica, esse é o lado bom de uma alegoria, pode ser lida e entendida por todos.Afinal, quem é que nunca desejou largar tudo e começar tudo de novo?

terça-feira, março 12, 2019

Livro da semana : O Jardim dos Segredos, Kate Morton

Muita polémica tem sido gerada à volta daquilo que se chama nos círculos académicos a “paraliteratura”. E agora vocês estão neste momento a coçar a cabeça e a dizer “paraQUÊ”???????
Expliquemo-nos melhor: “Paraliteratura” é o nome que geralmente se dá a histórias que não são consideradas “obras de arte” literárias. O seu propósito é, de uma forma geral, entreter e oferecer horas de prazer ao leitor. A linguagem é objetiva, não há muita descrição e é escrita de uma maneira que “agarra” o leitor e obriga-o a virar páginas atrás de páginas, ansioso pelo desfecho da narrativa.
Ou não?
A descrição que fizemos da mesma é muito, muito vaga. Geralmente é assim e, no entanto, há livros que começaram por ser paraliteratura e hoje são considerados obras-primas. É o caso da Dama das Camélias, de Alexandre Dumas ou O Crime no Expresso Oriente, de Agatha Christie. E há mesmo obras que – não sendo consideradas artísticas – marcam uma época. O Código Da Vinci é a mais recente de todas. E depois ainda existe outro problema: o preconceito das elites académicas. Foi preciso quase um século para que a literatura policial começasse a ser respeitada nas faculdades e jornais literários. O que se entende por “género menor” ou “género maior” depende muito do contexto sociocultural do mundo em que vivemos. Para piorar, os escritores de obras paraliterárias têm que lidar com acusações estilo “estes livros afastam os leitores da verdadeira literatura”, “estes livros tornam os cérebros preguiçosos”, “estes livros são fast food”...
Uma coisa tem que ser dita: este género de histórias é concebido especificamente para atrair as massas e podem ou não ter uma mensagem social. É o caso da invenção da “literatura de folhetim”, inventada no século XIX para uma burguesia em ascensão, e que foi crucial na mudança de mentalidades. A título de exemplo, Camilo Castelo Branco foi muito influenciado por ela.
Kate Morton não é Virginia Woolf. O seu mundo é um mundo de mulheres para mulheres leitoras: a casa, os filhos, o amor, segredos de família, uma narrativa rápida, simples, feita de propósito para “agarrar” as leitoras e fazê-las esquecer por um momento das suas vidas “mundanas” e super ocupadas. Não tem quaisquer pretensões de mudar o mundo da literatura, escreve porque gosta, ponto final. Apesar de tudo, é também uma escritora ousada, pois usa muito a técnica de “saltar tempos”: assistimos quase simultaneamente às histórias de duas mulheres em tempos diferentes, uma no início do século XX e outra no início do corrente século. Não é fácil escrever desta maneira e, no entanto, Kate Morton fá-lo com profissionalismo e facilidade.
Há dias na nossa vida em que não desejamos “puxar pela cabeça”. Só queremos estar num canto, embrenhados num livro que tenha uma boa história, uma caneca de leite quente na mão e um sofá confortável. É para isso que a paraliteratura serve. E Kate Morton oferece ao leitor precisamente o que ele/a deseja: horas infindáveis de entretenimento.
Afinal, a vida não é feita só de Dostoievskis.

segunda-feira, março 11, 2019

Estante do mês de Março: Terra, animal, flor, água – Quando as palavras ganham um novo sentido

Ao longo dos anos, têm sido muitas as “estantes do mês”, e tentamos o mais possível abranger todo o tipo de tópicos: Ciência, Arte, Poesia, Direitos Humanos, etc.
Mas às vezes sabe bem brincar com as palavras, nada mais.
Ora uma das coisas que mais nos fascinam em todas as línguas é a plasticidade da mesma: é extraordinário como as palavras, dentro de um determinado contexto, passam a ter um sentido completamente diferente do simples “pão-pão-queijo-queijo”: uma árvore azul transforma-se numa metáfora da tristeza, a maçã-de-adão passa a ser uma parte localizada no corpo masculino, abrir a rosa representa alguém que finalmente mostra a seu verdadeiro eu, tempestade num copo de água remete-nos para alguém que se irrita com facilidade. É por isso mesmo que os computadores não conseguem nem traduzir nem compreender a poesia ou a alegoria ou a ironia ou o sarcasmo. A Alma Humana vive nas palavras, reflete-se nos sons e fonemas. A língua não é um privilégio da espécie humana, mas a nossa língua só pode ser entendida por outros humanos.
E foi divertido repararmos até que ponto os títulos das capas dos livros estão cheios de referências ao mundo animal, à flora, aos espaços geográficos, a elementos como a água. Uns nada mais são do que um pretexto para começar uma história (A Ilha do Tesouro, Danúbio), outros são enigmáticos e atraem a nossa curiosidade (O Vasto mar de sargaços, O nome da Rosa). No entanto, todos eles prometem boas horas de entretenimento, quer seja a literatura com maiúscula, quer seja a paraliteratura. Porque há espaços para estes dois mundos.
Deem uma espreitadela à nossa seleção e passem pela biblioteca!

 Estante do mês- Ebook

Imagem retirada daqui .

quarta-feira, fevereiro 20, 2019

Parlamento dos Jovens- Secundário

É com grande alegria que anunciamos que a escola secundária de Serpa venceu, ontem, a fase regional do Parlamento dos Jovens- Secundário, conjuntamente com a Escola Profissional de Cuba e a escola secundária de Castro Verde. O Programa do Parlamento dos Jovens-Secundário teve como tema central as alterações climáticas. Envolveu 13 escolas e 52 deputados/alunos. Após uma manhã intensa de trabalho foi aprovado o Projeto de Recomendação da Escola Profissional de Cuba, com alterações.
A nossa escola foi representada pelos alunos Leonor Coelho (10ºC), Bruno Correia (11ºA ), Mafalda Silva (10º A) e Ricardo Sargento (12ºD). No final, a aluna Leonor Coelho foi eleita, pelos seus pares, porta-voz do círculo de Beja. Os trabalhos decorreram com elevado sentido de civismo e participação democrática. 
Nos dias 20 e 21 de maio decorrerá a Fase Nacional do Parlamento dos Jovens, na Assembleia da República. A todos os participantes e em especial aos nossos deputados desejamos os maiores sucessos. 
Nesta sessão regional decorreu, também, o concurso Euroscola. As alunas Leonor Coelho e Beatriz Mestre apresentaram uma pequena peça. Por 8 décimas não nos sagramos vencedores, mas estamos muito orgulhosos. O Euroscola inicia-se todos os anos em janeiro, começando na sessão distrital ou regional, sendo escolhida uma escola para a sessão nacional e finalmente, para os vencedores do concurso Euroscola, na sessão nacional. O Parlamento Europeu acolhe estudantes de todos os estados membros da União Europeia, para passar um dia em Estrasburgo, tornando-se membros do Parlamento Europeu.  

terça-feira, fevereiro 19, 2019

Parlamento dos Jovens 2019 - Básico, fase regional

Foi ontem que decorreu, em Beja, na escola secundária Diogo de Gouveia, a fase regional do Parlamento dos Jovens 2019 - Básico pelo Círculo de Beja. A nossa escola foi representada pelos alunos: Ricardo Palma (9ºA), Carolina Teixeira (7ºA), Mariana Teixeira (7ºD) e Rute Pedro (7ºD). 
Os nossos deputados participaram ativamente nas atividades e mostraram conhecer o tema com bastante profundidade. O encontro decorreu de acordo com as regras específicas da ocasião e os seus participantes revelaram um elevado espírito cívico. 
A liderança dos trabalhos coube à nossa aluna Isabella Lourenço, da turma 7ºA, que presidiu a mesa deste encontro. A Isabella correspondeu às expetativas dos seus pares que a elegeram, na passada semana, por reconhecerem o seu bom desempenho.
Foi aprovado com alterações o Projeto de Recomendação da escola secundária Diogo de Gouveia que vai ser apresentado na Fase Nacional pelos deputados das escolas básica e secundária de Ourique, escola básica Aviador Brito Paes de Colos, Odemira e Colégio Nossa Senhora da Graça, Vila Nova de Mil Fontes.
Felicitamos todos os participantes e desejamos aos vencedores os maiores sucessos.






quarta-feira, fevereiro 13, 2019

Por que festejamos o dia de São Valentim?


Vem aí o dia tão esperado por muitas namoradas e tão temido por muitos homens: o Dia de São Valentim. É aquele momento em que os machos de barba rija engolem o orgulho gingão, e lá vão eles oferecer coisas pirosas e lamechas como almofadas em forma de coração, ursinhos de peluche cor-de-rosa, flores, postais piegas e jantares românticos. Elas, mal podem esperar pela hora em que a sua cara-metade lhes apareça à frente com um ramo de rosas e um bilhete fofucho, e ai deles se se esquecerem desta data! Quanto ao silêncio da solidão, os esquecidos, os feios, os velhos e os não-correspondidos odeiam este dia que parece insultá-los, que parece dizer “és um falhado e um perdedor, por isso ninguém está contigo”.
No entanto, como toda a gente devia saber, o dia 14 de Fevereiro nunca foi festejado pelos portugueses, se não muito recentemente: esta celebração é uma importação de Hollywood, lado a lado com as lojas das grandes superfícies. O verdadeiro dia dos namorados Lusitano festejava-se, em quase todo o país, no dia de Santo António, “o santo casamenteiro”, segundo o folclore popular (13 de junho). Era durante esta festa popular que os namorados trocavam lenços e beijos, atiravam moedas ao poço dos desejos e oferecia-se um vasinho de manjerico, com um versinho maroto para guardar para a posteridade. É só lá para os finais dos anos 80 do século passado que o dia de São Valentim – graças à pressão dos centros comerciais – passou a ser o dia dos namorados para uma nova geração de miúdos que estavam ansiosos para serem “europeus”, e detestavam tudo o que fosse “português”...

terça-feira, fevereiro 12, 2019

Livro da Semana: Poesia Completa, Florbela Espanca

Se Florbela Espanca ressuscitasse, ficaria horrorizada com tudo o que veria: acharia odiosa a música “de amor” atual; ficaria chocada com a falta de flirt e sensibilidade dos namorados de hoje; ficaria triste ao saber que já ninguém escreve cartas de amor; acharia de um intenso mau gosto nenhum rapaz oferecer flores à sua amada; ficaria furiosa com toda esta “indústria do dia 14 de fevereiro” à volta de um sentimento tão nobre; não condenaria aquilo que chamamos hoje os “múltiplos parceiros”, mas acharia hediondo alguém procurar única e exclusivamente o ato sexual; e, por fim, não conseguiria compreender como é que as raparigas de hoje se submetem a tanta falta de respeito e carinho. Na verdade, por muito menos Florbela acabou com alguns dos seus namoricos!
É que Florbela Espanca viveu para o Amor e para a alegria da Vida. Viveu, viveu apaixonadamente. E, por isso mesmo, ardeu e consumiu-se demasiadamente depressa. Clinicamente louca (provavelmente bipolar), a sua loucura produziu poemas de amor – lado a lado com poemas de depressão e de crise existencial – que ainda hoje, ao serem lidos ou recitados, continuam a ressoar na nossa alma humana. Afinal, quem nunca cantou E é amar-te assim perdidamente...? Quem é que nunca se sentiu fascinado pela fotografia da bela mulher envolta em pérolas, penetrando-nos com o seu olhar esfíngico? Quem é que não sentiu admiração por esta extraordinária portuguesa, que vivia no século seguinte e não no presente pacato e fechado do Alentejo de então?
E, apesar de tudo, apesar desta pacatez, o ser humano ainda conseguia ser grande. Entre as árvores e os frutos, inventava-se a família, a comida, as lendas populares. Sonhava-se. No mundo de hoje - cada vez mais mecanizado e mais transhumanista - a voz desta mulher lembra-nos a glória da espécie humana, os tempos em que os Homens ascendiam à condição de deuses através da música, da dança, da poesia, da crença em outros mundos, outras dimensões. Uma árvore não era só uma árvore, era um ser vivo com uma fada que a protegia. Um poço não era só um poço, era um local onde moravam as mouras e os seres aquáticos. Estes eram os tempos em que a Humanidade não tinha medo, não era pequenina e reles, e não gastava os seus dias tolhida e curvada a olhar para uma chapa, indiferente ao choro de uma criança, à solidão de um avô ou um cão que tem fome. E quando finalmente chegar o dia em que todos já estarão fartos deste “admirável mundo novo”, Florbela retornará do Olimpo, mais forte e mais vibrante como nunca.
E, qual uma Némesis ou um Jesus no meio dos vendedores, acordará a chama em todos nós.

segunda-feira, fevereiro 11, 2019

Estante do mês : Ai, o Amor, o Amor...



É assim mesmo!: o Amor quer-se piroso, lamechas, grandioso, inesquecível. Como dizia Álvaro de Campos, “todas as cartas de amor são ridículas”. E a vida, sem as pieguices do costume, os arrufos mundanos, a agitação antecipada do encontro muito esperado, as lágrimas na almofada, lavar os pratos depois de uma boa e feliz refeição caseira, um bom serão numa noite de chuva, enrolados num sofá, comendo pipocas e vendo um filme; tudo isto é Amor com letra grande.
E talvez seja isto que está a faltar no século XXI. Fala-se tanto tanto mas tanto de sexo... e não se fala deste estado de espírito tão belo. Aliás, basta abrir a rádio e escutarmos as músicas, para chegarmos à conclusão de que aquilo que hoje se chama “Amor” nada mais é do que atração sexual. Sejamos honestos: à exceção do povo português – que ainda é capaz de escrever belos poemas cantados – quando é que foi a última vez que ouvimos uma canção que abordasse esse sentimento, e só esse? Falta qualquer coisa. Eles, os jovens, sabem-no. Não sabem explicar porque são infelizes, não sabem explicar porque os romances deles nunca resultam, só sabem que falta qualquer coisa. Mas ninguém lhes ensinou que o Amor está ligado à rotina acompanhada, às piadas partilhadas, às tarefas aborrecidas que se tornam leves quando há uma boa conversa a dois. O resto é paixão, o resto é desejo. E este estado de espírito não dura para sempre.
Que o digam os poetas! Muito gostam eles de cantar este sentimento e, no entanto, quase ninguém foi bafejado por essa dádiva chamada “cara-metade” que, pelos vistos, parece ser tão rara como o Euromilhões. Pois bem: deixemo-nos embalar pela ilusão das palavras, os sons das emoções fingidas, os relâmpagos de génio que não semearam nada, os caminhos que nunca se percorreram, a felicidade que durou um instante e não voltou mais. Por um instante, a Alma Humana voa, brilha, solta-se, é livre.
É uma ilusão, sim.
Mas faz tão bem...
Ficam aqui os livros escolhidos para a nossa estante do mês. Boa leitura!


Imagem retirada daqui .

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

Sucesso!!


 O nosso génio da lâmpada fez milagres: até à data em que escrevemos, dezenas de pessoas passaram pela biblioteca para fazer parte da atividade “A caixa das respostas”. O desafio consistia em pensarem num desejo ou numa dúvida/problema que quisessem resolver, tiravam um pergaminho da caixa mágica, e o livro que saísse seria a resposta para a pergunta que fizeram.
Obviamente que nem todos levaram obras para casa: uns entraram na brincadeira só por curiosidade, outros não gostaram muito do título do livro. Mesmo assim, dentro das 100 obras escolhidas, mais de 20 alunos e professores até à data aceitaram participar na atividade e acabaram por requisitar o livro que lhes “calhou na rifa” (na foto, duas alunas mostram os seus). Para a nossa biblioteca, esta ideia foi um grande sucesso pois, no espaço de apenas quatro dias, o nosso espaço esteve super movimentado, gerou curiosidade e atraiu muita gente para a leitura.
Para a semana – uma vez que estamos a entrar no dia dos namorados – o próximo “alvo de ataque” vai ser a poesia de amor. Por isso mesmo, a nossa montra do mês de fevereiro é dedicada à poesia, e servirá para realizarmos uma nova brincadeira, de nome “Este poema de amor é mesmo a tua cara!”.
Estejam atentos!

quinta-feira, fevereiro 07, 2019

Para que serve a escola?



Esta é a pergunta que estamos a colocar às turmas A e D do 7º ano: a biblioteca escolar, em conjunto com a professora Susana Laneiro - professora da disciplina de Cidadania – aceitaram o desafio lançado pelo docente Jorge Ferreira (ensinar os jovens a valorizar a escola pública) e estão neste momento a realizar um workshop de três sessões, cujo objetivo é mostrar aos nossos alunos o quanto a escola é importante para o seu futuro.
Aliás, nunca a escola foi TÃO importante como é agora: ao longo desta atividade, as duas turmas foram confrontadas com profissões do passado que já não existem e profissões que darão cartas num futuro próximo. Cada um dos alunos escolheu ao acaso um envelope que tinha dentro um emprego do tempo dos nossos avós… e foi uma risota generalizada. Muitos não sabiam o que era um tanoeiro, um moço de fretes, um “pica do sete”. E depressa perceberam, já na segunda sessão, que praticamente todos os empregos que existem à volta deles desaparecerão no espaço de 10-20 anos. “Vocês vão ser a geração que terá de inventar novos empregos”, disse a responsável da biblioteca às turmas presentes.
A experiência tem sido interessante, mas tem sido sobretudo didática: a escola pode ser, sem dúvida, “uma seca”, mas é graças a ela que muitas crianças pobres saem da pobreza, e têm uma oportunidade única de subir na hierarquia social.
O livro que serviu de mote a esta atividade chama-se Do Cinzento ao Azul Celeste, de Ana Oliveira, e será mais tarde usado na terceira sessão para servir de inspiração a um trabalho de equipa.
Fica aqui uma lista de profissões do passado, algumas do presente… e do futuro!

Imagem retirada daqui .

quarta-feira, fevereiro 06, 2019

ALERTA: um génio da lâmpada está na biblioteca!

 Está com dúvidas na sua vida? Tem um desejo que gostava de ver resolvido de uma vez por todas? Tem projetos e planos para 2019? Pois vá à nossa biblioteca, nós temos um objeto mágico que responderá a todos os seus desejos. O geniozinho, coitado, está escondido nele, a ajudar-nos a alcançar os nossos desejos.
Agora a sério: as coincidências têm sempre graça. Por exemplo, o livro que me saiu foi “O Sal da Terra”, de Miguel Real, uma visão romanceada deste grande pai da língua materna, figura essa que me inspirou sempre um fraquinho muito grande. E então não é que o livro respondeu à minha pergunta interior? É extraordinário como o cérebro humano funciona, e o que ele faz para encontrar soluções.
Pois a nossa biblioteca fez uma brincadeira (e outra será feita no dia dos namorados!): criou uma caixa de respostas. Nela, como podem ver nas fotos, estão pergaminhos enrolados, e todos eles trazem um número. Aquele que sair, será um livro que lhe trará a resposta para o seu dilema ou desejo que o/a apoquenta. Excelente maneira para pôr a comunidade escolar e a pensar e a ler!Esta pequena brincadeira só durará até sexta-feira, por isso apressem-se! Só há 100 livros na lista e já vários títulos foram riscados (ainda não contámos...).
Eis as instruções:
· Pensem num desejo, problema, resolução;
· Tirem de olhos fechados à sorte um dos pergaminhos;
· O livro que sair será aquele que trará a solução para o seu problema!
Divirtam-se, a curiosidade pode ser bem divertida!

terça-feira, janeiro 22, 2019

Livro da Semana: 50 Coisas para Desenhar e Pintar, vários autores


E já que andamos, nos últimos posts, a cavalgar a onda da criatividade – e tendo em conta que a montra deste mês é precisamente dedicada ao artesanato, desenho e design – o livro desta semana não será dedicado à literatura. Como o Plano nacional de Leitura deixa bem claro, ler não é só poesia ou romances que fizeram história. Com os livros, podemos também aprender muito sobre História, Geografia, Ciências... e até artes visuais!
50 Coisas para Desenhar e Pintar foi criado para agradar a um público infantil mas, sejamos honestos!, esta é uma edição para todas as idades: é pró menino e prá menina e é para todas as crianças dos 8 aos 80. Os fantásticos truques e dicas que aqui são dados servem para tudo e mais alguma coisa: pintar um móvel, desenhar um quadro artístico personalizado, criar um mural numa das paredes da nossa casa, decorar caixas, embelezar presentes, dar um toque cool numa manta ou candeeiro ou mochila...
Com este fantástico livro, podemos aprender a desenhar lagartos, focas, sereias, dinossauros, moinhos, borboletas, árvores, uma paisagem, vários rostos humanos... E é extraordinário como apenas três ou quatro manchas coloridas podem dar vida e dimensão a coisas aparentemente tão difíceis como um elefante ou um peixinho. Assim que começamos a seguir as instruções, damo-nos conta de que todos nós somos bem mais criativos do que originalmente pensávamos!
E voltamos a fazer um elogio ao livro físico: é verdade que plataformas como o youtube estão carregadinhas de tutoriais, de faça-você-mesmos dedicados à arte da pintura/ilustração. No entanto, este pequeno quadradinho que se leva facilmente numa mala permite-nos estar numa esplanada ou numa paragem de autocarro ou no cimo de uma montanha, sem nos preocuparmos se o espaço tem ou não net, qual será a password e se a bateria ainda está cheia. Enquanto os outros paralisam “porque não há rede”, quem tiver esta edição continuará, impávido e sereno, a dar asas à sua imaginação. É esta a vantagem que os livros físicos nos dão: total liberdade para nos movimentarmos neste planeta, total privacidade, e as únicas energias de que precisaremos serão as do sol e das nossas mãos.
Finalmente, a editora Edicare é uma mais-valia, pois estamos a falar de publicações que têm mesmo o propósito de educar, estimular e aumentar a nossa inteligência.
Peguem numa folha, “saquem” dos lápis de cor e... mãos à obra!

sábado, janeiro 19, 2019

A minha vida vale um livro

A minha vida vale um livro
 No nosso último post, falámos de uma companhia especializada em encadernar obras de uma forma muito pessoal e muito única. Estas obras são artísticas, e por isso não é de espantar que estas publicações custem os olhos da cara. No entanto, existe um grupo cada vez maior de artistas espontâneos, vindos de todos os cantos da Terra e que, devagarinho, transformam a sua vida numa obra de arte. Estamos a falar dos criadores dos diários artísticos ou visuais.
Não se sabe como começou este movimento. A verdade é que os diários sempre existiram, um dos mais antigos tem 4.500 anos! No entanto, estes eram usados como meros documentos de registo: o diário de um navio, de uma igreja, de uma companhia, etc. Só muito recentemente (cerca de 300 anos?) é que começaram a aparecer relatos pessoais. Mas a ideia de transformar um diário pessoal numa obra de arte provavelmente começou com uma figura enigmática, de nome Charles Dellschau (segunda imagem): morreu em 1920 e o seu estranho e fantástico diário foi encontrado num sótão 70, anos depois (a história deste homem e do próprio diário mereciam um post bem interessante para o nosso blog!).
Mas é nos anos sessenta que se criou um movimento relacionado com diários visuais. Estávamos na era dos experimentalismos e da construção da nossa própria personalidade. Porém, foram os mundos da Psicologia e Psiquiatria que deram um empurrão bem forte a esta nova forma de arte: depressa se concluiu que quem construía diários pessoais apresentava níveis mais baixos de stress e, inclusivamente, tinha mais resistência a problemas como a raiva ou a depressão. Assim, muitos psiquiatras aconselhavam os seus pacientes a serem “artísticos”, de forma a focarem-se nos momentos belos da vida.
Quem começa a fazer um diário visual, nunca mais largará este “vício”: em primeiro lugar, sabe tão bem criarmos algo belo com as nossas próprias mãos. Em segundo lugar, nada como descobrirmos o nosso lado criativo, algo que, muitas vezes, nem sequer pensávamos ter. É que no mundo dos diários visuais, tudo é permitido: colagens, fotos, embalagens de chicletes, panos, jornais, flores secas… Por outro lado, esta arte aumenta a nossa perceção de que o mundo está cheio de coisas fascinantes, felizes, coloridas e mágicas. São muito raros os diários visuais que se focam no sentimento negativo. Muitos são os criadores que confessaram em entrevistas que começaram por elaborar cadernos artísticos como forma de descarregar a dor e a raiva, mas os seguintes passaram gradualmente a ser cada vez mais leves e luminosos.
E tudo fascina: uma folha caída, um gato brincando, uma lista de tarefas, um pedaço de renda, os mecanismos de um relógio…
E se vocês acham que esta é uma arte feminina, não podem estar mais enganados: o movimento art journal ou beautiful chaos está carregadíssimo de homens e rapazes adolescentes. É, para todos os efeitos, uma arte unissexo, e plataformas como a flickr, tumblr ou youtube, estão cheias de fotos, tutoriais, sugestões, partilha de ideias… Eis um lado bem luminoso e feliz, no mundo da internet.
Para homenagear todos estes artistas, a nossa equipa elaborou um vídeo, com o objetivo de mostrar a vocês, leitores, a espantosa beleza e chama que os humanos ainda carregam dentro deles, uma chama que nem as máquinas nem a dor conseguiram destruir.
Um festim para os olhos!

Vídeo: Diários artísticos e transformação de livros

Imagens retiradas daqui e daqui

segunda-feira, janeiro 14, 2019

O sonho de qualquer amante de livros

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Já esteve muito mais perto a profecia de que o livro físico iria desaparecer, graças aos livros digitais (ebooks, como se chamam). Com efeito, houve uns aninhos em que estes eram comprados como pãezinhos quentes, ao passo que os físicos acumulavam pó nas prateleiras das livrarias.

No entanto, os mais velhos estão a rir-se neste momento: quando a companhia Amazon começou a vender kindles, toda a gente queria um e, durante um certo tempo, as livrarias físicas sofreram as passas do Algarve. Porém, assim que a novidade acabou, a queda da compra deste produto foi abrupta... E voltámos ao velhinho livro de capa dura ou mole. Como o jornal online The Guardian bem o diz, Os livros estão de volta: só os maluquinhos da electrónica é que achavam que iriam desaparecer. (leia o artigo aqui ) .  Perante o espanto de todos, a Amazon decidiu fazer o contrário: comprou uma livraria física. E as vendas começaram a subir...

Não, nós não somos suspeitos: há imensas vantagens no livro digital, e podemos mencionar algumas delas: para já, estes nunca irão parar à “guilhotina” (livros destruídos, quando não se vendem); nunca se esgotam; se wps6B98.tmphouver um incêndio na nossa casa, a nossa biblioteca está toda salva numa chapa; podemos modificar o tamanho da letra, o que é excelente para o leitor que sofre de problemas de vista ou está mesmo quase a cegar (há tablets que já têm um aplicativo “audio” para quem já estiver mesmo cego!); tornam-se obviamente muito baratos, pois os custos da publicação de um livro diminuem consideravelmente; podem ser comprados à distância de um simples clic, já não há a preocupação de que uma obra “não esteja à venda” no nosso país; por fim, são excelentes para quem anda “com a casa às costas”.

No entanto, faltou sempre qualquer coisa... Falta a beleza deslumbrante de uma capa, o cheiro do papel novo, o prazer de nos sentarmos à sombra de uma árvore, sem nos preocuparmos se a bateria está a esgotar ou não. Enfim, o prazer da privacidade, do silêncio, de estarmos sozinhos. Como este artigo bem afirma, as pessoas querem uma pausa para poderem estar longe do maldito écrã. Com efeito, o deslumbramento bimbo e subserviente que a geração dos anos 90 sentia pelas tecnologias já não se traduz nos tempos de hoje, muito pelo contrário!: ela é vista como sendo cada vez mais uma ameaça à nossa segurança e privacidade, e já começa a cansar ficar tudo registado num server qualquer, nem que seja a compra de um mundano par de peúgas!

O que falhou, então? Voltemos ao artigo: as pessoas esqueceram-se da diferença entre novidade e valor. Esqueceram-se do fator humano, esqueceram-se que um livro não é só um suporte físico que traz qualquer coisa. É também ele uma obra de arte. Oh, sim, os olhos compram...

Ora, publicadoras como a polaca Kurtiak and Ley nunca na vida se preocuparam com os livros digitais, e tal se deve ao facto de que esta companhia – que não tem feito outra coisa senão ganhar prémios atrás de prémios – satisfaz um público bem diferente do comum: desde 1989, a sua especialidade consiste em criar livros únicos e personalizados, feitos e pintados à mão. Em ocasiões especiais, edita uma obra num número muito muito limitado, e assim que a 1ª edição se esgota, acabou-se. Isto quer dizer que os afortunados que tiverem dinheiro e bom gosto para comprar uma destas obras de arte, enriquecerá de ano para ano, pois estas edições valerão ouro no futuro!

Kurtiak and Ley são o sonho de qualquer amante de livros: eles transformam este objeto numa extraordinária obra de arte. Sabemos que são caríssimos mas, se vocês virem o vídeo abaixo indicado, o dinheiro é sem dúvida bem gasto. Afinal, a verdadeira arte não vive apenas nos museus. Pode ser encontrada numa rua, numa parede, numa árvore...

E numa estante.

Vídeo de promoção da companhia Kurtiak and Ley (site oficial do youtube)

Imagens retiradas do site oficial

domingo, janeiro 13, 2019

Bibliomúsica – Eu quero viver no campo!

Otava Yo e The Dead South
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É impressão nossa ou não haverá para aí um movimento retro, que está espontaneamente a crescer pelos quatro cantos do globo? Num mundo cada vez mais tecnológico e desumano, onde todos vestem as mesmas roupas, comem a mesma comida, ouvem as mesmas músicas e olham para os mesmos filmes, sites de “faça você mesmo”, “receitas da avó” ou o ressuscitar de sons étnicos brotam como cogumelos de todos os lados.
wpsFFD6.tmpÉ o caso destas duas bandas  acima mencionadas: Os Otava Yo (foto em cima, os paninhos em russo dizem “15 anos de banda”) vêm da Rússia e fazem uma apologia da vida campestre: as pequenas aldeias, os vizinhos que se conhecem uns aos outros, a alegria sadia de respirar o bom ar puro das árvores e dos rios não poluídos. Já os The Dead South veem do Canadá, já foram apelidados de “maninhos maus dos Mumford and Sons, e seguem um estilo musical, de nome bluegrass (o country do Canadá). No mundo da world music, estas duas bandas são rock stars e esgotam salas e teatros.
Deixamos aqui um cheirinho dos sons do campo, das raízes sadias do folclore feliz, criado por gente comum para gente comum.
Otava Yo- Era uma vez numa colina (legendas em inglês)
The Dead South -  The Recap




sábado, janeiro 12, 2019

Já alguma vez OUVIU a língua da Babilónia?


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Boa pergunta: a que soa? Obviamente que não há registos sonoros da mesma. Afinal, o fonógrafo chegou um bocadinho tarde: só foi descoberto no século XIX e esta língua desapareceu há cerca de 2000 anos, juntamente com outras como o Aramaico (a língua de Jesus). No entanto, um ramo científico chamado Linguística Diacrónica (o estudo da evolução das línguas, ao longo dos tempos) permite-nos fazer uma viagem ao passado e reconstruir, da forma mais fiel possível, sons que já desapareceram. Para isso, a Arqueologia e a Informática têm sido grandes aliados da Linguística: sabe-se hoje que o som “V” não existia originalmente no Latim (O “V” deve ser lido como se fosse o som “U”) graças a descobertas de cartas, livros e poesias do império Romano.

wpsA796.tmp E é nestas coisas que se vê até que ponto algumas universidades do Ocidente – apesar da decadência geral do sistema de Ensino em toda a Europa e E.U.A - ainda continuam a dar cartas. Uma delas é a famosa Universidade de Cambridge. Chefiado pelo professor Martin Worthington, o seu departamento e um grupo de estudantes entusiasmados deram vida a uma velha estória com mais de 2000 anos de idade: O homem pobre de Nippur (uma cidade antiga que pertence, hoje, ao Iraque). E o resultado é fascinante: usando a atmosfera do próprio edifício universitário, assim como a lindíssima música da compositora Stef Conner, gerou-se uma ambiência irreal mas mágica, que nos transporta a um tempo perdido no tempo.

A primeira coisa que reparamos nesta história é o conceito de vingança, e até que ponto a violência estava normalizada nesta antiga civilização. A segunda é o facto de este império antigo valorizar a inteligência e a manha, e mostrar, através desta “fábula”, que nem a arrogância e as más ações dos ricos escapam à “justiça dos deuses”. O nome do pobre – Gimil- Ninutra – significa literalmente “vingança do deus Ninutra”, deus esse que era o patrono da cidade de Nippur. Assim, esta personagem representa o papel da deusa grega Némesis ou, melhor dizendo, “cá se fazem, cá se pagam”.

Para mais informações desta notícia, cliquem neste link .

Não se esqueçam de ativar as legendas!

Vídeo: O homem pobre de Nippur

As imagens foram retiradas do link acima mencionado. 

quinta-feira, janeiro 10, 2019

Neurocientistas inventaram a música mais relaxante do mundo!


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Não, não estamos a brincar: terapeutas de som, em colaboração com a companhia Marconi Union, criaram uma música, de nome weightless (leve, sem peso na língua inglesa), cujo objetivo consistia em baixar os níveis de ansiedade. No entanto, coloca-se aqui uma questão pertinente: como é que nós sabemos que esta experiência foi cientificamente comprovada?

A terapia de som não é uma ideia nova, muito pelo contrário: esta já era usada na Grécia Antiga, na Babilónia e no Egito. Durante a Idade Média, este tratamento à mente continuou a ser usado, desta vez escondido por detrás de uma capa piedosa chamada “cantos gregorianos” ou “Requiem”. No entanto, foi a partir do Romantismo (século XIX) que a música começou a ser usada única e exclusivamente para manipular paixões, instintos e desejos (a raiva, a revolta, o desejo sexual, mas também a empatia e a compaixão) e deixou de ser usada para curar, acalmar, apaziguar.

E durante quase trezentos anos, esta terapia foi esquecida…

Foi com a (re)descoberta da Cimática que o interesse pelo poder vibratório dos sons ressuscitou. Cientistas dos anos sessenta ficavam fascinados a olhar para todo o tipo de imagens e desenhos que as frequências vibratórias podiam criar numa chapa lisa – tonoscópio - e repararam que, segundo determinadas vibrações, apareciam cruzes, flocos de neve, quadrados, mandalas (ver imagem acima). Depressa começaram a perguntar a si mesmos se as velhas lendas à volta de “músicas que curavam” não teriam um fundo de verdade. Hoje, a plataforma youtube está carregadinha de inúmeras páginas que se dedicam única e exclusivamente a criar estes sons, com base em frequências. Um deles é o Numeditation.

wpsE151.tmpMas foi uma outra companhia residente na Inglaterra, a Mindlab International, que provou cientificamente a eficácia desta terapia. Após testarem inúmeras músicas “relaxantes” – enquanto visualizavam as ondas cerebrais dos participantes desta investigação – descobriram que a tal canção weightless era aquela que melhores resultados mostrava nos cérebros humanos (mais de 65% de eficácia). O mais interessante foi os cientistas constatarem que as participantes femininas eram precisamente aquelas que mais ficavam “afetadas”: muitas revelaram sentir-se tontas ou sonolentas! Segundo o neurocientista David Lewis-Hodgson – o autor desta pesquisa – tal pode dever-se ao facto de que são precisamente as mulheres que mais padecem, hoje em dia, de ataques de ansiedade.

Pois aqui ficam dois vídeos para aguçar a vossa curiosidade: o primeiro mostra as várias imagens que um tonoscópio pode criar. O segundo vídeo é- está claro! – a música weightless.

Fechem os olhos, ponham o quarto a meia-luz e experimentem. Depois digam qualquer coisa!

Experimento Cimático

Música Weightless, da Marconi Union

Imagens retiradas daqui e daqui

terça-feira, janeiro 08, 2019

Livro da Semana A Lisboa de Miguel Cervantes – editado por Maria Fernanda de Abreu


wpsE875.tmp Se proferirmos o nome “Miguel Cervantes”, serão poucas as pessoas que, hoje em dia, saberão quem é ou era. Provavelmente irão dizer disparates do estilo “é futebolista” ou “é um político”. No entanto, se dissermos logo a seguir “D. Quixote”, serão muitos aqueles que imediatamente se lembrarão de um homem franzino a lutar contra moinhos. Pois é: esta personagem – juntamente com o seu fiel amigo Sancho Pança – tornou-se um símbolo do sonho vs realidade, a coragem vs pragmatismo, a aventura vs a rotina. E de tal forma marcou a cultura Ocidental que, ainda hoje, muitas personagens atuais ainda são criadas com base nesta dicotomia. O último caso é o do visionário Homem de Ferro vs o pragmático Capitão América.
No entanto, Miguel de Cervantes não se ficou por esta obra-prima. Na verdade, até ao fim da vida, escreveu. E os paralelismos entre Camões e este grande autor espanhol são extraordinários: ambos participaram em batalhas, ambos conheceram o mundo, ambos tinham uma mente muito aberta, ambos eram génios, ambos passaram por imensas dificuldades económicas até morrerem e ambos sobreviveram muitas vezes graças à arte da escrita.
Ora, uma das últimas obras – senão mesmo a última – que Cervantes escreveu tinha o título de Los trabajos de Persiles y Sigismunda - Historia Setentrional. No entanto, a editora Colibri, para comemorar os 400 anos da 1ª edição deste pequenino livrinho, deu-lhe o nome moderno de A Lisboa de Miguel Cervantes. E temos que admitir: no século XXI, este é um título bem mais chamativo do que o original. Já praticamente ninguém se chama Persiles ou Sigismunda. Graças a Deus, pobres criancinhas...
Eis uma descrição dos lisboetas, vista pelos olhos de uma das personagens: Aqui o amor e a honestidade dão-se as mãos e passeiam juntos, a cortesia não deixa a arrogância chegar-se a ela e a bravura não consente que dela se aproxime a covardia. Todos os seus habitantes são agradáveis, são corteses, são liberais, e são enamorados, por que são discretos. Claramente Lisboa ainda não tinha senhorios a expulsar os velhinhos das suas casas, não existiam hostels e a capital ainda não era um parque de estacionamento a céu aberto.
Ironicamente, a cidade não é grande estrela deste livro: Manuel de Sousa Coutinho (sim!, o Frei Luís de Sousa!) e uma família de “bárbaros,” vindos da Europa Setentrional, são as figuras mais importantes desta obra, assim como a gentileza e piedade dos lisboetas. Na verdade, pouco se fala desta capital... Apesar de tudo, vale a pena ler esta pequenina história, que se divide em três partes. É um documento histórico interessante e, para quem está a aprender Castelhano, esta edição é bilingue.
Este livrinho foi-nos oferecido pela Doutora Maria Fernanda de Abreu (que linda dedicatória, obrigado!), que editou, prefaciou e organizou esta homenagem. A dedicatória também revela o agradecimento do ilustrador Nuno Abreu. Para quem não sabe, esta professora é a maior - como diz o povo - “entendida” na vida e obra do grande Cervantes! COM EFEITO, É UMA GRANDE CERVANTISTA RECONHECIDA INTERNACIONALMENTE. Por isso mesmo, a equipa da nossa biblioteca sentiu-se muito comovida com a sua oferta.
Lê-se em meia hora, podemos garantir-vos!

segunda-feira, janeiro 07, 2019

Estante do mês: Mãos à obra!


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É verdade que essa ideia chamada “novo ano” nada mais é do que uma construção social. Afinal, os nossos antepassados muito distantes celebravam o começo do mesmo no início da Primavera, em vez de o festejarem no Inverno. No entanto, estas datas ritualísticas produzem sempre um impacto psicológico na mente de todos ou quase todos. Sejamos honestos: quem é que nunca fez uma lista de “resoluções” ou “projetos”? Quem é que nunca teve um ataque de fúria e decidiu deitar para o lixo tudo o que era velho e usado? É para isso que estas datas servem: para reorganizarmos as nossas vidas, livrarmo-nos de medos, fazermos as pazes com alguém, resolvermos uma situação financeira ou cumprirmos, de uma vez por todas, projetos que deixámos sempre para trás.
Por isso mesmo, esta estante do mês é muito simbólica: este é o momento certo para arregaçarmos as mangas e fazermos algo de criativo, belo ou simplesmente prático e agradável. Tudo começa com as mãos: a escrita, a arte, um poema, um móvel, um olá ou um adeus. Janeiro é o mês mais frio, é certo, mas – no mundo ocidental - é também o mês dos recomeços. Além disso – e por estar tanto frio – nada como recolhermo-nos nas nossas casas e, no aconchego do lar, criarmos algo com as nossas próprias mãos. Algo que não precisámos de comprar, algo que é único, que mais ninguém no planeta tem. Porque mesmo seguindo as orientações de alguém, há sempre um toquezito personalizado – que é só nosso – que é colocado numa manta, numa cómoda, numa estante, num boneco, numa joia, num cartoon.
Eis aqui as sugestões que a nossa biblioteca oferece.
Bom ano 2019!
Imagem retirada daqui .








quinta-feira, dezembro 13, 2018

Montra do mês de Dezembro

NOVOS  livros para devorar nas férias!
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E pronto, cá estamos nós a caminho de um Natal novo e de um ano novo. Meu Deus, como o tempo passa tão depressa… Até parece que foi ontem que começaram as aulas. Mas o frio já começa a apertar, a lareira já está a fumegar, a conta da luz já está a disparar e já se sente o cheirinho do bacalhau cozido e do bolo-rei.
É nestes dias de alguma pausa na escola que surge a vontade de nos sentarmos ao borralho, folhearmos um livro e fugirmos para o reino da imaginação. Porque os livros são viagens onde não se paga bilhete, não há bagagem, não há bichas e não há horários.
Por isso mesmo, aqui fica a lista de obras adquiridas na última feira do livro, quer para a EB2,3 de Vila Nova de São Bento quer para a Escola Secundária de Serpa. Muitos foram pedidos pelos alunos que a visitaram e também por alguns professores e funcionários. Um deles, A Pirata, de Luísa Costa Gomes, estava sempre esgotado mas desta vez é que foi!
Vejam e – caso um deles vos dê alguma curiosidade – passem pela nossa biblioteca. Vamos levar sonhos para casa, que bem estamos a precisar deles!




terça-feira, dezembro 11, 2018

Livro da Semana

O livro dos cansaços, Licínia Quitério

wps3357.tmpEm tempos que já lá vão; no tempo em que uma ferida num dente equivalia à morte; no tempo em que “fazer amor” era sinónimo de “salvar a nossa tribo”; no tempo em que a família era tudo, e os lobos e os tigres espreitavam as nossas casas, farejando a criança tenra; no tempo em que o Homem-bicho valia tanto como uma lebre na serra e negociava a sua vida com os anjos e os demónios, taco a taco, como se o mundo fosse uma feira local... Foi nesse tempo que nasceu a Poesia.

Não, não se recitava, cantava-se. Canto I, Canto II, Lusíadas, Homero. Oráculo de Delfos, ladainhas da avó, cantigas a Santa Bárbara, serenatas à janela. Os deuses gostam da Música, que é a matemática do universo, a voz do Cosmos, a Alma Humana.

Depois vieram as máquinas e a Vida calou-se. Hoje não falamos, twitamos. As serenatas são hoje beats, o mistério já foi descoberto, a avó está longe “na terra”, a morrer sozinha. Resta-nos a chapa cheia de luzinhas brilhantes e barulhinhos engraçados. Morremos sentados. E mudos.

E, no entanto, este futuro já tinha sido profetizado por Marguerite Duras. Foi numa entrevista em 1985 (podem lê-la e ouvi-la aqui ). Acertou em tudo. Mas deixou sempre a esperança:

Um homem, um dia, lerá, e daí tudo recomeçará.

É tudo uma questão de tempo. Nós somos a geração que planta as sementes e guarda o conhecimento. Seremos necessários, no futuro. Por isso, as vozes humanas, que teimam ainda em cantar e fazer a diferença, surpreendem-nos quando estamos em estados de sonolência e brotam dos lados que menos esperamos.

wps3358.tmpLicínia Quitério é o exemplo perfeito desta “surpresa das palavras”: numa rede social chamada facebook, onde as pessoas gostam de ser vaidosas e de mostrar as suas vidas pessoais, foi neste lugar que se criou um grupo de amigos fieis, todos juntos à volta desta poetisa única, original, délfica. Fez-se sozinha: sem publicidade, sem ajuda de editoras, sem cunhas, sem amigos poderosos, sem prémios especiais. Foi cantando, calmamente, harmoniosamente. E o grupo foi crescendo, e o “passa a palavra” fluiu.

Não é só de prosa que o mundo da Literatura vive: a poesia, hoje, pode estar dormente, amorrinhada, esquecida. Mas ainda vive.

Foi - e será sempre - a Voz Humana no estado mais puro.

Neste tempo das mulheres – poema recitado pela própria