sábado, março 27, 2010

Solte O Dostoiveski Que Tem Dentro De Si!

Tínhamos dito aqui que a sessão de escrita criativa (que mais não era do que um aperitivo para um curso a sério) tinha sido adiada, devido ao facto de várias pessoas não terem podido estar presentes no dia indicado, para grande tristeza delas. Por isso, decidimos mudar a actividade para o dia 26 de Março.

E praticamente todos os que manifestaram escrita_criatdesejo de estar presentes vieram. Quase todas as interveninentes já tinham ouvido falar desta nova moda inventada pelos americanos e foi com grande entusiasmo que arregaçaram as mangas e se mergulharam nos “conteúdos programáticos” deste curso muito sui generis. O primeiro exercício, bastante simples, não passava de uma “prova de aquecimento”: construir um diálogo entre duas personagens através do nosso próprio nome. Os resultados foram hilariantes e, durante cinco minutos, foi um não acabar de gargalhadas sinceras.

A segunda actividade já exigia mais imaginação: colocarmo-nos na pele de um objecto e tentarmos imaginar como seria a sua vida e as suas sensações. Por exemplo: o que sentirá um sapato? Será que um telemóvel se magoa ao cair? E um copo dentro de uma máquina de lavar? Será que ele sente cócegas ou pensa que está numa discoteca muito cool? Este exercício de escrita ensina o futuro escritor “a sair de si mesmo” e a procurar outros pontos de vista, e é precisamente útil porque todos nós temos tendência para nos agarrarmos só às nossas opiniões, aos nossos preconceitos e às nossas vivências pessoais. Ora isto pode “encravar” uma história, pois não conseguimos criar espaços e personagens diversificados. E, mais uma vez, os textos que saíram das nossas “alunas” foram bastante divertidos. “Isto é mesmo engraçado!”, confessou uma delas.escrita_criat2

A terceira e última actividade foi aquela que mais surpresas trouxe e mais puxou pela criatividade de todos os presentes: tinham que escolher uma fotografia de um espaço (podia ser um quarto, uma paisagem, um palácio), uma fotografia com uma ou duas personagens e, a partir das mesmas, criar uma história. Mas não era uma história qualquer: tinha que ter um problema, uma situação de conflito e, finalmente, a solução para o problema. Durante cerca de vinte minutos pairou apenas o som das canetas e das esferográficas a “magoar” freneticamente o papel. Porém, no final, saíram verdadeiras “joiazinhas” literárias!

Durante toda a sessão, pediu-se às pessoas que não tivessem qualquer pudor, que não se preocupassem com o que estavam a escrever, se era bom ou não, se era divertido ou amargo, se tinha erros, se tinha um vocabulário fraco, etc. “Deixem correr a pena”, foi o conselho que lhes foi dado. E quem não quisesse ler, não tinha que o fazer. Isto era um divertimento, não era uma saula de aula normal. E precisamente porque ninguém se sentiu avaliado ou julgado houve vontade e prazer de participar.

E agora é que vai ser! O sucesso foi tão grande, que, logo a partir da primeira semana de aulas do terceiro período, o Atelier das Línguas (da responsabilidade, como é óbvio, do Departamento de Línguas) disponibilizará um curso (quase?) completo de Escrita Criativa. Em princípio, a primeira sessão estará programada para quarta-feira às 18 horas, na nossa biblioteca. Se conhece alguém que quer fazer parte desta aventura, passe a palavra!

Só nos resta agradecer a todas as nossas futuras “alunas” que, às 21 horas, estiveram presentes e à excelente colaboração de Dr. Miguel Bentes, da Biblioteca Municipal de Serpa. O seu contributo para esta sessão foi de grande valor!

Faltam 38 dias Para a Recolha dos “Monos”

Uma Iniciativa EscolaElectrão

E olhem só para o monte a crescer, a crescer, a crescer...

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quinta-feira, março 25, 2010

Como Começar A Gostar De Ler

 

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São muitas as pessoas em Portugal que se apercebem cada vez mais da importância da leitura, e isso já é uma boa notícia: há trinta anos atrás, os portugueses vangloriavam-se de não gostar de ler. Trinta anos depois, notamos uma pequena evolução. Por exemplo: nos concursos de televisão, sempre que o apresentador pergunta ao participante algumas questões de cultura geral, ouvimos logo justificações do tipo “não leio porque não tenho tempo” ou “não gosto lá muito de ler...”, e tudo isto é acompanhado por uma série de risinhos envergonhados ou um tom de súplica que mais parece dizer “eu sei que estou a ser estúpido, mas...”. Reparamos também (e os professores foram os primeiros a detectar esta nova tendência) que há cada vez mais pais que se perguntam: como é que eu ponho o meu filho a gostar de livros? Há alguma fórmula especial?

Pois é. Os portugueses continuam a ler pouco, mas há uma pequena geração (ainda pequena, infelizmente) de crianças e adolescentes que está a criar o hábito de comprar livros e de ir às bibliotecas. Já não é tão incomum assim vermos pais levarem os seus filhos à biblioteca municipal para escutarem contadores histórias ou verem os seus petizes folhearem livros, apesar de estes mesmos encarregados de educação não apreciarem este passatempo.

“Quanto mais cedo, melhor”, dizem os especialistas. Quando a criança se habitua aos livros, tudo nela melhora: a concentração, a inteligência, a memória, o vocabulário. Não, não é uma coincidência: os melhores alunos da turma são sempre aqueles que lêm mais. Mas... o que fazer quando já crescemos e continuamos a não gostar de ler? Afinal, há alguma fórmula mágica para começarmos a apreciar a leitura? Não, não há. Mas há pequenas sugestões que podem criar milagres. Aqui vão elas:

1 – Escolha o livro certo – Se não gosta lá muito de histórias de amor, não vale a pena ler o Romeu e Julieta. Se não gosta de livros policiais, não vale a pena ler O Código Da Vinci. Se não é fã de fantasia, não leia O Senhor dos Anéis. Para quem quer começar a adquirir o gosto pelas palavras, o ideal é procurar um tema que seja do seu agrado. Por exemplo: gosta de História? Então, leia obras relacionadas com esse tema. Gosta de Ciência? Há imensos livros de divulgação científica, e até bastante acessíveis ao público. Interessa-se por moda? Há imensos livros que relatam a história desta “arte efémera”, e muitos deles são divertidos e muito bem ilustrados. O primeiro passo é habituarmo-nos à presença do objecto/livro, e chegarmos à conclusão de que ler é um prazer e não um trabalho forçado. E isto leva-nos à dica 2.

2- não leia um livro à força – Obviamente que não estamos a falar das leituras obrigatórias dos programas das disciplinas de línguas: se temos que estudar Os Maias temos mesmo que o fazer, e ponto final. Aqui, não há discussão. Porém, se queremos aprender a gostar da leitura, temos o direito de abandonar um livro que não nos está a “agarrar”. Não gosta? Ponha de parte. Escolha outro. Continua a não gostar? Ponha de parte. E assim por diante, até encontrarmos aquele livro que nos agarra logo. E isto leva-nos à sugestão 3.

 3 – Torne-se adepto/a de uma biblioteca municipal – Os livros não são um luxo assim tão caro como as pessoas pensam, mas tornam-se caros se compramos um exemplar e depois não chegamos a meio da história. As bibliotecas municipais têm esta incrível vantagem de serem grátis: se não apreciarmos uma determinada obra, podemos devolvê-la sem qualquer sentimento de frustração ou culpa. São os lugares ideais para quem quer começar a usufruir do prazer da leitura.

4- Ignore o tamanho – É o pior disparate que muitas pessoas fazem: há “calhamaços” que nos agarram logo à primeira página e contos que parecem nunca mais terminar, de tal forma são maçadores. Deixamos aqui uma sugestão: se encontrou um tema que lhe interessa, leia a primeira página do capítulo I. Se lhe parecer interessante, leve a obra. As bibliotecas municipais permitem que um “cliente” leve para casa três livros. Depois, é uma questão de se ver se a história continua a ser interessante.

clip_image0045 – Leia quando não tiver nada para fazer – aquele fim-de-semana frio e cheio de chuva, um serão sem nenhum programa de televisão interessante, os filhos na escola, a bicha no trânsito, a fila para pagar os impostos, os amigos todos em férias... ora aqui estão “momentos mortos” nas nossas vidas, que podem ser usados para a leitura. São também momentos em que, na esmagadora maioria das vezes, estamos sozinhos com os nossos próprios pensamentos. Há alturas na nossa vida em que é mesmo bom estarmos sozinhos. Se tem um livro para ler mas os filhos andam aos pulos pela casa esqueça e aguarde pela ocasião certa.

6 – Não se sinta culpado/a - “Comprei um livro e ainda não o li”, “Nunca acabei um livro”, “Deixo-os todos a meio”... Pare de pensar desta forma, isto só vai aumentar a sua raiva à leitura. Pense bem: quantas colecções quis fazer e não terminou? Quantos álbuns de música comprou e já não os ouve? Quantas “jóias” comprou e nunca usou? Quantos filmes viu na sua vida e adormeceu a meio dos mesmos? Quantas camisolas de tricot ficaram por terminar? Quantas vezes se inscreveu no ginásio e acabou por não ir? Quantos planos fez na sua vida e não foram cumpridos em pleno? E não é por isso que deixou de ir ao cinema, de ouvir música, de ver televisão, de gostar de viver ou deixou de gostar de fazer algum trabalho manual. Os livros não são uma obrigação, são um prazer. E não são como os “papos-secos” ou como as bolachas: não se estragam com o tempo. Guarde-os para o momento certo e divirta-se. Já tive livros na minha estante que só foram lidos dois ou três anos depois. E então, onde é que está o problema?

Sigam estas seis dicas. E depois digam-nos, daqui a uns meses, se resultou.

Todos nós temos “o livro ideal” que nos abrirá as portas para o prazer da leitura. É uma questão de o encontramos.

O resto virá por si.

E terminamos este artigo com um pequeno anúncio de incentivo à leitura, e os milagres que esta faz nas nossas vidas.

Incentivo à Leitura

Imagens retiradas de:

http://media.photobucket.com/image/o%20prazer%20de%20ler/ameliapais/ensinar05/aprender.jpg

http://sambadegringo.files.wordpress.com/2009/08/crianca-lendo.jpg

quarta-feira, março 24, 2010

Balanço da Semana da Leitura (cont.)

Tal como prometemos em 19/Mar, aqui está um pequeno medley da representação Conversas de Poetas em Pessoa.

 

Montagem: BeCre

segunda-feira, março 22, 2010

Livro Da Semana

 

101 Heróis, de Simon Sebac Montefiore

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Todos temos os nossos heróis. Podem ser heróis do Futebol, dos Direitos Humanos, da música, da Economia, da Política, dos direitos dos animais, podem ser heróis religiosos, e assim por adiante. No geral, escolhemos um pouco de tudo: tanto pode ser um grande actor como pode também ser um ser humano que lutou pela Democracia. Temos “um fraco” por este ou por aquele artista mas não deixamos de admirar os bombeiros voluntários e os jornalistas que morrem em nome da Liberdade. Aliás, costuma-se dizer que uma boa forma de conhecermos a personalidade de alguém é perguntarmos a essa pessoa quais são as três figuras mundiais que mais admira.

De uma forma geral, a maior parte dos seres humanos admira as personagens do presente, “esquecendo-se” muitas vezes de todas as vozes do passado que transformaram o futuro. E, porém, elas foram peças-chave para o nosso mundo. Por exemplo: sabiam que Voltaire (imagem à esquerda) foi um génio da Humanidade que lutou ferozmente contra a tortura e a pena de morte? Sabiam que os hospitais e os cursos de enfermagem que hoje conhecemos devem bastante a Florence Nightingale? Sabiam que a Astronomia como hoje a conhecemos começou com Galileu Galilei? E Alexandre Magno, porque foi ele tão importante? E Saladino? E Sarah Bernhardt, quem foi? E porque foi um escritor como Balzac tão imprescindível para os séculos seguintes?

clip_image004O nosso livro da semana chama-se, como já viram, 101 Heróis. E obviamente que Simon Sebac Montefiore, o autor desta obra, fez uma escolha muito pessoal. À excepção de Fernão de Magalhães, faltam (raios!) outras personagens portuguesas que, modéstia à parte, também deixaram uma marca forte no mundo: o Infante D. Henrique, o rei D. João II, Fernando Pessoa, Aristides de Sousa Mendes, entre outros (no caso de Aristides de Sousa Mendes, há uma pequena referência num artigo sobre outros homens e mulheres que salvaram judeus, na II Guerra Mundial). No entanto, vale a pena ler este livro, que não só é um prazer para os olhos e para os dedos (o papel é tão macio!) como também é uma verdadeira injecção de saber e de deliciosas informações sobre estes grandes homens e mulheres.

Por fim, resta-nos dizer uma coisa: o nosso mundo precisa de heróis como de pão para a boca. Há demasiados ricos, demasiados políticos, demasiados criminosos, demasiados “carolas da informática”, demasiados adultos ambiciosos. Mas faltam poetas, faltam pensadores, faltam “agitadores das consciências”. Há demasiada futilidade e pouco pensamento; há demasiadas “redes sociais” que, ironicamente, contribuem para uma solidão cada vez maior nas sociedades ocidentais; há demasiada obsessão pela juventude e muito desprezo pelos idosos; há muito barulho e, ironicamente, muito silêncio; há muita frase-chavão, do estilo “todos diferentes, todos iguais” e, ironicamente, muito desprezo pelo direito à diferença. Precisamos de heróis. Precisamos de pessoas que comuniquem, que falem, que se preocupem com os outros, que não se calem, que lutem por um mundo melhor, que acreditem no futuro, e que façam coisas mais importantes do que envelhecerem à frente do computador, a plantar cebolas e rabanetes que não existem.

Esperemos que este livro seja uma inspiração para quem o irá ler.

domingo, março 21, 2010

Dia Mundial da Poesia…

… e por isso aqui vai!!

Novidades Fresquinhas!

A partir da próxima semana, a nossa biblioteca disponibilizará ao nosso público novos DVDs, desde filmes dos Estados Unidos da América até grandes obras-primas europeias, desde a comédia até ao documentário. É só escolher e ver!

Aqui vai a lista:

Valmont, de Milos Formanclip_image002

Não é uma das melhores adaptações da grande obra-prima de Choderlos de Laclos (Ligações Perigosas) mas, mesmo assim, vale a pena vê-lo. Muitíssimo bem representado, este filme também faz uma óptima reconstituição da época. Conta a história de uma das personagens mais cruéis da literatura mundial: o aristocrata Valmont, que conquista mulheres pelo simples prazer de o fazer, independentemente de destruir as suas vidas ou não.

O Escafandro e a Borboleta, de Julian Schnabel

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Aos 43 anos e no auge da sua carreira profissional, Jean-Dominique Bauby, editor da Elle francesa, sofreu um acidente vascular cerebral que lhe paralisou o corpo inteiro... excepto um olho, e a mente. Apesar do tormento, Bauby conseguiu utilizar esse olho para comunicar com o mundo exterior, descrevendo de forma detalhada, letra a letra, as suas angústias, os seus sonhos, o seu mundo interior. Acabaria por publicar um livro autobiográfico com uma mensagem de esperança poderosa.
(Sinopse retirada de http://www.cinema2000.pt/ficha.php3?id=7822 )

Desencontros (We Don't Live Here Anymore), de John Curranclip_image006

Jack Linden (Mark Ruffalo) e Hank Evans (Peter Krause) são os melhores amigos. Professores universitários na pequena cidade de New England, Jack ensina literatura e Hank escrita. Nos tempos livres correm juntos e bebem copos no pub local ao final do dia. São casados e têm filhos. Terry (Laura Dern) é mulher de Jack. Edith (Naomi Watts) é mulher de Hank. À sua maneira, também são amigas. Os dois casais costumam reunir-se à volta da mesa depois de deitar as crianças, o vinho escorre livremente e dança-se com entusiasmo. Mas os Evans e os Linden não são tão felizes como aparentam. (...)
WE DON'T LIVE HERE ANYMORE - DESENCONTROS mostra a perversa história da infidelidade - e a cumplicidade, negação e crueldade que esta lógica comporta.
(Sinopse retirada de http://www.cineteka.com/index.php?op=Movie&id=001568 )

Control, de Anton Corbijn

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"Control", realizado pelo aclamado fotógrafo Anton Corbijn, conta a história de Ian Curtis, líder e vocalista dos míticos Joy Division, até ao momento do seu trágico suicídio. Uma história que se confunde com a do som que mudou a face da música. Com interpretações de Alexandra Maria Lara e Samantha Morton, protagonizado por Sam Riley ("24 Hour Party People"), banda sonora dos New Order e músicas dos Joy Division, "Control" documenta as relações de Curtis com a mulher e com a amante, a batalha contra a epilepsia e o caminho para a glória. Ian Curtis suicidou-se a 18 de Maio de 1980, véspera da primeira digressão americana que se desenhava como um novo triunfo para a banda. (Sinopse retirada de Publico.pt)

Mysterious Skin, de Gregg Araki

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Realizado por Gregg Araki e baseado no aclamado romance de Scott Heim, "Mysterious Skin" conduz-nos pelas mentes e corações de dois adolescentes. Aos oito anos, Brian Lackey acordou na cave da sua casa com o nariz a sangrar, sem ter ideia de como ali foi parar. Depois disso, a sua vida mudou: fica com medo do escuro, molha a cama e é atormentado por terríveis pesadelos. Agora, com 18 anos, Brian acredita que foi raptado por extraterrestres. Neil CcCormick é o rapaz de que todos gostam mas de que não se aproximam e que aos 18 anos se lembra da relação que tinha com o treinador de basebol quando era miúdo. A demanda de Neil pelo que acha que é o amor leva-o a Nova Iorque. O desejo de Brian de saber o que lhe aconteceu realmente leva-o a Neil. Juntos percebem que os acontecimentos que os marcaram não foram exactamente como pensavam. (sinopse retirada de Publico.pt)

As Confissões de Schmidt, de Alexander Payne

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Uma nomeação para o Oscar de Melhor Actor deve ser cartão de entrada suficiente para As Confissões de Schmidt. A história do filme conta-se rapidamente, mas a interpretação de Jack Nicholson mostra que aquele sorriso malévolo também pode dar lugar ao choro compulsivo.

Aos 66 anos de idade, Warren Schmidt (Jack Nicholson) fica viúvo e confinado à solidão. As Confissões de Schmidt fazem lembrar Melhor é Impossível mas, aqui, a carga dramática é bem mais significativa. O sorriso trocista e irónico que vimos em Mr. Udall dá lugar a um choro amargurado ao espelho enquanto Schmidt coloca na cara o creme hidratante da falecida mulher. Para combater a solidão, o vendedor de seguros reformado decide ir ter com a filha Jeannie (Hope Davis) com quem nunca teve uma relação próxima. Esta está em vésperas do casamento e Schmidt tenta travar o matrimónio com Randall Hertzel (Dermot Mulroney), o vendedor de colchões de água que está perto de vir a ser seu genro. Contudo, o dilema entre o egoísmo da solidão e a felicidade da filha invade o protagonista que, entretanto, se corresponde com um menino de nome Ndugu, órfão na Tanzânia. (Sinopse retirada de Publico.pt)

O Meu Tio, de Jacques Tati

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O Meu Tio" tornou Jacques Tati numa celebridade mundial, tendo inclusivamente conquistado o Oscar da Academia de Hollywood para o Melhor Filme de Língua Estrangeira. Tati estava nos finais dos anos 50 no auge da sua forma e do seu talento e "O Meu Tio" é uma das mais hábeis, simples, inteligentes e deslumbrantes comédias de sempre. Implacável observador Tati consegue, em "O Meu Tio", colocar em confronto os universos do modernismo sofisticado e do quotidiano vulgar, através da história de um garoto que se aborrece na sua casa electrónica e mecanizada e apenas se sente vivo, feliz e desejado na companhia de um tio com um chapéu ridículo, as calças demasiado curtas e um estilo de vida anárquico e despreocupado, num bairro popular e pituresco. Uma espantosa realização de Tati onde o domínio plástico e estético, a manipulação do som e sobretudo o desenho do gag visual são absolutamente deslumbrantes. (Sinopse retirada de http://programas.rtp.pt/EPG/dois/epg-janela.php?p_id=14665&e_id=&c_id=8 )

sábado, março 20, 2010

...E Hoje É O Dia Mundial Sem Carne!

 

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A ideia surgiu há 25 anos (adivinhem onde?) nos Estados Unidos da América (claro!) e partiu da FARM (em Inglês, Farm Animal Reform Movement, Movimento Reformista em Prol dos Animais), uma associação que defende o Vegetarianismo.

Independentemente de concordarmos ou não com os vegetarianos (e há bastante polémica à volta das “crianças veggies” e da sua alegada má nutrição), uma coisa nós temos que admitir: o tempo em que o Ser Humano precisava de muita carne terminou. Há dezenas de milhar de anos atrás, os humanos eram uma espécie nómada e caçadora. Precisávamos de andar muito, precisávamos de muita energia para nos mantermos de pé e com saúde. Porém, tornámo-nos sedentários, e em demasia. Para piorar as coisas, a Mãe Natureza não contava com uma excelente invenção do século XX: o frigorífico caseiro. Mais ainda, quem comia carne em grandes quantidades eram os ricos, e não os pobres. Em suma: já não precisamos de tanta carne na nossa ementa. Finalmente, importa referir que estudos recentes têm vindo a demonstrar que o seu consumo excessivo aumenta a violência nas crianças e nos adolescentes.

Hoje assistimos ao contrário: come-se demasiada carne e poucos legumes, e 30% das crianças portuguesas são hoje obesas. Esperemos, portanto, que este dia também sirva para ajudar os pais e as escolas a reflectirem sobre a dieta alimentar dos seus filhos/alunos. Além disso, esta data comemorativa também é uma forma de nos alertar para a qualidade daquilo que nós comemos: vale a pena gastarmos dois euros num frango de aviário, que é só água, químicos que fazem muitíssimo mal à saúde, carne adoentada e um sofrimento desnecessário para o animal? Ou não será melhor gastarmos um pouquito mais num bouquet de espinafres e num pacote de soja? Já nem falamos do peixe, cujos preços estão pela hora da morte...

As nossas escolhas, é claro, são sempre pessoais.

Imagem retirada de:

http://1.bp.blogspot.com/_ycOVwiqAqQM/ScPQXfuqimI/AAAAAAAAAXU/8idMVkeQ_u4/s320/vegan[1].gif

sexta-feira, março 19, 2010

Feliz Dia Do Pai!

E deixamos aqui uma história verdadeira de um pai que fez tudo para dar o melhor ao seu filho. Chegou a viver nas ruas, chegou a viver da caridade... Mas venceu porque acreditou em si mesmo. Se ainda não viu este filme, compre-o, alugue-o ou peça emprestado a alguém!

À Procura da Felicidade (trailer legendado)

Balanço Da Semana De Leitura

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Foi uma semana em que houve um pouco de tudo: histórias contadas ao vivo, leitura de livros na sala de aula, filmes passados no intervalo do almoço, teatro, um mural especial...

Estes cinco dias começaram com uma bela estreia: um contador de histórias do grupo Trimagisto esteve presente na biblioteca, para demonclip_image004strar ao público como encantar miúdos e graúdos, através do dom da palavra e da imaginação. Esta arte, que estava praticamente desaparecida no nosso país, tem ganhado felizmente cada vez mais adeptos vindos das camadas mais jovens. Além disso, esta nova “profissão” tem sido tão requisitada pelas escolas e bibliotecas municipais, que já há quem viva dela! E muita desta “explosão” se deve ao Plano Nacional de Leitura que, juntamente com a colaboração de professores, pais e alunos, tem incentivado desde o primeiro ciclo o gosto pela escrita, pela leitura e pelo prazer de reaprendermos a ouvir uma história.

Ao longo da semana, o nosso blog foi exclusivamente dedicado ao prazer dos livros: desde booktrailers até citações que ficaram para a História, desde trechos de obras literárias até filmes que foram buscar inspiração a romances. Quanto ao nosso espaço na biblioteca, um enorme mural dedicado aos livros que mais nos marcaram depressa se encheu de títulos: Os Maias, Crepúsculo, Ensaio Sobre a Cegueira, muitas foram as escolhas pessoais de cada aluno ou professor. A “Estante do Mês” (que, desta vez, foi “Estante da Semana”) também contemplou algumas das obras mais emblemáticas de escritores e poetas portugueses.

Sexta-feira foi noite de teatro: o grupo En-Cena, “chefiado” pela professora Maria João Brasão, clip_image006realizou uma belíssima representação teatral, em homenagem a grandes poetas, principiando por Fernando Pessoa e contemplando outros grandes génios das palavras, como Natália Correia e Mário de Sá Carneiro, entre outros.

Quanto à sessão de escrita criativa, a pedido de vários encarregados de educação e pais que não puderam estar presentes, adiou-se a actividade para o dia 26 de Março, às 20.30 minutos/21 horas, e será efectuada na biblioteca da nossa escola. Esperamos pela vossa participação: ainda há espaço para mais dois participantes!

Deixamos aqui um excerto do contador de histórias Nuno Coelho e proximamente um pequeno medley da representação Conversas de Poetas em Pessoa.

E para o ano há mais!

quarta-feira, março 17, 2010

Um Mini-Livro Que Mudou O Mundo

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Há pequenas obras que podem transformar a História da Humanidade e Sidereus Nuncius ou Mensageiro das Estrelas foi uma delas: quando Galileu Galilei fabricou o primeiro telescópio, em 1609, ficou tão fascinado com tudo aquilo que viu que não durou muito tempo para que se decidisse a passar para papel todas as suas descobertas. Em apenas 60 páginas e em Latim. O único livro que Galileu escreveu nessa língua.

E Sidereus Nuncius é, de facto, um livro de divulgação revolucionário, que põe por terra uma quantidade de ideias antigas que, milhares de anos depois de terem sido “inventadas” pelos gregos, ainda eram tidas como factos verdadeiros no século XVII. Além disso, esta pequenina jóia de sabedoria é a “mãe” da Astronomia Moderna: como afirma o astrónomo João Fernandes no Público.pt, (podem ler a notícia inteira aqui: http://www.publico.pt/Ciências/o-mensageiro-das-estrelas-foi-escrito-para-causar-sensacao-e-agora-esta-em-portugues_1427987 ) É uma obra muito importante, marca a metodologia moderna da astronomia. O que hoje fazemos ainda é replicar o que Galileu nos ensinou. Pode-se dizer que esta é a obra fundacional da Astronomia Moderna.

Portugal esperou 400 anos para ler esta obra na língua de Camões. É isso mesmo, “ouviram” bem: quatrocentos anos. Agora já é possível, graças à tradução de Henrique Leitão (a edição é da Calouste Gulbenkian). E vale mesmo a pena consultar esta prenda de sabedoria: está escrita de uma forma acessível, visto que este grande génio da Humanidade não estava interessado em falar para os seus amigos e fãs, estava interessado em espalhar o conhecimento a todas as classes sociais. Foi feito para causar sensação. Está escrito como se de notícias rápidas se tratasse, quase em estilo jornalístico. Ele não se dirige às elites. Queria chegar às pessoas comuns. E queria chegar também a toda a Europa. Ele era um divulgador de ciência, afirmou Henrique Leitão. clip_image004

E Galileu Galileu era um homem prático e funcional: embora não gostasse de dar aulas (foi professor durante vários anos) percebia a importância da divulgação clara e simples do Conhecimento. Para isso, fez uma coisa que, na época, pareceu uma ideia de doidos: abriu uma fábrica de telescópios (ver foto à direita). E não, não era para fazer dinheiro, era para que outras pessoas testemunhassem as suas descobertas. Ao democratizar e globalizar a Astronomia, este grande astrónomo e cientista abria, assim, a porta ao cidadão comum que poderia, desta forma, contribuir para o aumento do Saber. Se hoje podemos comprar um telescópio no Continente ou no Modelo, é a Galileu Galilei que devemos este prazer de olhar para as estrelas.

O livro foi hoje publicado e todas as bibliotecas deste país devem obrigatoriamente encomendar um exemplar para as suas prateleiras.

Imagens retiradas de:

http://www.lbl.gov/Publications/YOS/Jul/assets/img/sidereus-nuncius.jpg

http://sedna.no.sapo.pt/img/Galileo_s_telescope.jpg

Faltam 48 dias Para a Recolha dos “Monos”

Uma Iniciativa EscolaElectrão

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terça-feira, março 16, 2010

Livro Da Semana

O Filho Do Lobo, de Jack London

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Antes de começarmos, falemos do título. Por que motivo este conjunto de contos se chama O Filho do Lobo? Pois, tristemente, era assim que os índios chamavam ao “Homem Branco”, ou seja, nós: o lobo, segundo a mentalidade de muitos povos, foi sempre visto como sendo uma criatura cruel, manhosa, forte e traiçoeira (no entanto, segundo o zodíaco de muitos nativos americanos, o lobo (meses de Fevereiro e Março) também pode significar compaixão, compreensão e generosidade). O lobo, sempre que pode, ataca pela calada e morde a mão de quem o alimenta. Pois o “Homem Branco” foi um lobo para os índios americanos: quando nós chegámos fomos logo bem-recebidos e alimentados. Foram os índios que ensinaram os pilgrims (peregrinos) a plantar as terras, a reconhecer as plantas boas e venenosas, a reconhecer pântanos e animais perigosos, a saber sobreviver numa terra desconhecida.

A paga da sua bondade foi o genocídio, e são muitas as histórias (nunca verdadeiramente assumidas) de “planos de extermínio”. Uma delas consistia em oferecer aos homens e mulheres das tribos cobertores cheios de tifóide. O objectivo era matar a tribo e ficar com as terras. Resultou. Resultou muito bem. Outra táctica consistia em separar as crianças dos pais desde tenra idade e educá-las em orfanatos, para que estas perdessem o contacto com a sua cultura e desistissem de lutar pelo que era delas. No início do século XX, muitas tribos estavam praticamente destruídas mas, ao contrário do que se previa, os “nativos americanos” (como agora se diz) estão a reaprender as suas raízes e estão a crescer em número e importância, embora ainda sejam muito discriminados.

clip_image004 Jack London (foto à esquerda), um viajante e aventureiro destemido, descobriu a sua vocação de escritor numa das suas viagens. Reza a lenda que descobriu esse talento quando a “febre do ouro” estourou em Klondike no ano de 1897, e homens e mulheres vindos dos quatro cantos da América - e até do mundo - acorriam às minas, em busca de um futuro melhor. Foi assim que muitas fortunas foram começadas nesta nação, mas também muita, muita miséria “comeu” dezenas de milhares de americanos que, longe de encontrarem o paraíso, só encontraram a morte. Jack London escapou por um triz a esse destino. Mas transofrmou-se num escritor. E graças à sua vida levada ao extremo (fez tudo e mais alguma coisa) morreu com apenas quarenta anos. Foi muito amado enquanto vivo (foi um dos poucos artistas que conseguia viver do que escrevia) mas foi muito desprezado pelos críticos, que o apelidaram de “escritor de histórias de cães” (são personagens muito comuns nos seus livros). Hoje, felizmente, esta mentalidade generalizada já está a mudar.

Os contos são duros, cruéis e extremamente emotivos. Estamos a falar de seres humanos duros como pedras e fortes como as montanhas, não porque o queiram, mas porque não têm mesmo outro remédio senão o serem. Aqui vence a “Lei do Mais Forte”: és duro o suficiente para suportar a Natureza, a fome, a pobreza, o desespero? Então vives. És frágil, demasiadamente emotivo, demasiadamente mimado, demasiadamente choramingas? Morres. Este não é um mundo para poetas, para adolescentes enfadados e para velhos. E, no entanto, estes homens e mulheres nunca deixarão de ser humanos, nunca deixarão de sofrer se um cão morre, se um deles cai e não se levanta mais.

Jack London lutou sempre pelos fracos e pelos oprimidos. Amava a força das mulheres, a lealdade dos cães e sentia uma profunda admiração pelos índios americanos e pelo seu longo sofrimento nas mãos do “Filho do Lobo”. E o Homem Branco está lá, está sempre presente, já “indianizado”, já convertido à tristeza orgulhosa destes anjos avermelhados, de longos cabelos escuros...

Foto de Jack London retirada de:http://2.bp.blogspot.com/_DTkF0SdsrV8/SAuAMeHr0I/AAAAAAAAAmI/7j1zCeV1YDA/s200/image.jpg

Faltam 49 dias Para a Recolha dos “Monos”

Uma Iniciativa EscolaElectrão

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sábado, março 13, 2010

Bibliomúsica

Hoje fiquem com a vencedora do Óscar 2010 para a melhor canção original : "Weary Kind" tema do filme Crazy Heart interpretada pelo seu Autor.

quinta-feira, março 11, 2010

Lição de Vida – Para Que Serve a Loucura?

 

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Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim: um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!” Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.

E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua. Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

Assim me tornei louco.

E encontrei tanta liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.

Excerto da obra O Louco de Kahlil Gibran

Imagem retirada de:

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Faltam 53 dias Para a Recolha dos “Monos”

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quarta-feira, março 10, 2010

A Maldade Não Tem Nacionalidade

O que é que uma criança autista espancada por colegas na Itália e uma homenagem a duas crianças assassinadas na Austrália têm em comum? Ambas foram vítimas de cyberbullying. No primeiro caso, uma turma não só passou “alegres momentos” a espancar uma criança autista como, ainda por cima, gravou tudo e publicou a notícia no Youtube.

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Quanto ao segundo caso, tratava-se de um memorial online, erigido pelos pais desses dois meninos, no Facebook. Estupefactos, revoltados e magoados, descobriram que este espaço foi usado para publicar fotografias pornográficas, insultos e até ameaças de morte.

Fartos desta passividade dos grandes senhores da era digital, os italianos perderam a paciência, arregaçaram as mangas e condenaram três executivos da Google (a youtube é propriedade deste portal) a seis meses de pena suspensa. Não durou muito para que as “falsas virgens” e os supostos defensores da liberdade e da democracia começassem a bradar que o fim do mundo estava à porta: segundo a notícia no Expresso.pt (poderão lê-la aqui: http://aeiou.expresso.pt/icyber-bullyingi-google-e-facebook-debaixo-de-fogo=f570131 ) Para o jornalista Jeff Jarvis, autor do influente blogue Buzz Machine, o que o tribunal italiano pretende é que os sites validem antecipadamente tudo o que publicam. O resultado prático, argumenta, é que "nenhum site permitirá a publicação porque o risco é muito grande". "Isso mata a Internet".. Quanto aos pais australianos, estes enviaram uma carta de protesto ao fundador do Facebook, mas a porta-voz da popular rede social, Debbie Frost, respondeu nos seguintes termos: "O Facebook é intensamente auto-regulado e os utilizadores podem e devem reportar conteúdos que considerem questionáveis ou ofensivos".

Não. Nem o Facebook nem o Youtube são regulados. Enquanto não existir uma legislação fortemente punitiva em relação ao cyberbullying, casos como este continuarão a proliferar violentamente em todas as redes sociais. Reportar um comentário abusivo não serve para literalmente nada se, depois da denúncia, ficar tudo “em águas de bacalhau”. A título de exemplo, na Austrália, a identidade de um cyberbully só pode ser revelada se o insulto for uma real ameaça de morte. No mês de Fevereiro do ano passado, um pai de uma rapariga vítima de cyberbullying dirigiu-se aos responsáveis do Facebook na sua terra natal. Disseram-lhe que não podiam fazer nada e que não podiam revelar a identidade dos agressores porque, em nenhuma das mensagens que foram publicadas, não havia lá nada que transparecesse a uma ameaça de morte. Pior ainda, a polícia australiana afirmou exactamente o mesmo. As ditas mensagens “inofensivas” diziam qualquer coisa como “Corta os pulsos e sangra até à morte” ou “põe uma bala na cabeça”. Se isto é coisa pouca, então o que é que um agressor precisa de escrever para que a sua identidade seja revelada?

Os Grandes Senhores da era digital podem e devem castigar os agressores que “infectam” o bom nome e prestígio da sua empresa. Assobiar para o lado é o equivalente a um professor assistir a uma cena de pancadaria na sala de aula e não tentar fazer nada para a parar. Assobiar para o lado seria o mesmo que um cidadão testemunhar um atropelo e fuga e não telefonar à polícia a denunciar o caso.

Os dias felizes e dourados da Internet “Defensora da Liberdade” chegaram ao fim, e os seus utilizadores exigem a responsabilidade e a punição de quem abusa destas plataformas. Preservar os direitos de alguém que não sabe respeitar os direitos dos outros é algo que ninguém entende. Escreveu? Insultou? Agora, responsabilize-se pelo que disse. Por isso mesmo, a Comunidade Europeia está a preparar neste momento uma legislação que visa “passar por cima” do poder da Google, Facebook e de outras plataformas digitais, caso os direitos humanos sejam desrespeitados. Para tal, bastaria apenas banir o agressor da rede social e publicar o seu nome online. Só isto já seria o suficente para diminuir uma boa parte dos casos de cyberbullying. Como afirma Karen North, e muito bem, Vivemos numa sociedade onde se espera que as empresas assumam as suas responsabilidades. Trocando por miúdos: se companhias como a Marlboro ou a Nestlé são chamadas à barra dos tribunais se pisarem os direitos humanos, quem é que a Google, o Facebook e o Hi5 pensam que são, para acharem que podem escapar impunes?

Imagem retirada de:

http://mariano.delegadodepolicia.com/wp-content/uploads/2009/12/cyberbullying.gif

Faltam 54 dias Para a Recolha dos “Monos”

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terça-feira, março 09, 2010

Livro Da Semana

 

O Deus Da Primavera, de Arabella Edge

clip_image002 Pintura e Literatura têm andado, durante séculos, de mãos dadas, e são cada vez mais os livros dedicados ao um certo quadro ou a um certo pintor. Por exemplo, Tracy Chevalier já criou dois romances históricos, onde o tema central são duas obras-primas da pintura: A Dama e o Unicórnio e Rapariga com Brinco de Pérola (já deu direito a um filme). O escritor James Runcie escreveu A Cor do Céu, cuja história gira à volta de um pintor chamado Paolo, a descoberta do azul-Ultramarino (que ainda hoje deslumbra os amantes da pintura) e o quadro Maestà, que ainda hoje pode ser visto no Palazzo Pubblico, em Sienna (Itália). O Código Da Vinci gira à volta das obras e mistérios do grande génio Leonardo Da Vinci. Por fim, o escritor maldito Jean Genet dedicou vários anos da sua vida a escrever um livro cujo objectivo era estudar, analisar, divulgar e homenagear a arte esplendorosa de Rembrandt (iremos falar dele, nos próximos dias...).

Temos que parar por aqui, senão o artigo será longo. Mas o leitor já se apercebeu de que o livro da nossa semana é, desta vez, dedicado à história de um quadro muito famoso e, curiosamente, faz ligação com o livro da semana passada. É que os perigos do mar continuam a assombrar este romance...

estamos, portanto, no século XIX. Théodore Géricault, o menino bonito das academias de arte, o último grito da pintura genial, tinha acabado de ganhar o “óscar” da pintura do seu século: a Medalha de Ouro do Salom. Infelizmente, para desgraça de todos os seus fãs... estava apaixonado. Tudo o que ele tinha na sua cabeça era a sua amada Alexandrine, casada com o tio da nossa personagem principal. Nada de pânico, isso é apenas um pormenorzito. Tornam-se amantes e Géricault está feliz como uma criança de cinco anos a quem lhe ofereceram um triciclo. Como todos os apaixonados que se prezem, só pensa nela, só sonha com ela, só vive para ela. E lá se vai o talento, o génio, a arte.

Até que, finalmente, é convidado para uma soirée na casa de um seu amigo. Aborrecido de morte, lá faz um esforço e tenta ser uma boa visita: ouve muitas histórias, sorri muito, fuma uns cigarritos, o costume. Mas é uma conversa em particular que o irá marcar para o resto da vida. Durante o serão, um velho militar critica fortemente a “tacholândia” do governo francês: o comando da fragata Medusa foi dado a um capitão que há 25 anos não pilotava navios e o resultado foi a trágica morte de centenas de marinheiros. Os sobreviventes, à deriva no alto mar, viram-se forçados a seguir todas as regras do manual de sobrevivência, inclusivamente o canibalismo. Géricault ficou tão chocado com esta história que não durou muito tempo para finalmente arranjar um tema para um novo quadro: o desespero dos abandonados e a injustiça dos poderosos. Mas, para isso, precisava de conhecer melhor as personagens deste drama. Precisava de conhecer melhor a intriga, precisava de saber qual era o aspecto desta embarcação. E, pouco, a pouco, esta tragédia começou a ser, para Géricault, uma terrível e doentia obsessão...

A Fragata Medusa é um quadro baseado numa tragédia infelizmente real, e foi no seu tempo uma espécie de metáfora à vaidade e incompetência humanas. Vanitas Vanitatum, como dizia o 2º versículo do Eclesíastes. Vaidade, tudo é vaidade.

E os exemplos do passado parecem não conseguir dar lições de vida aos governantes do presente.

Faltam 55 dias Para a Recolha dos “Monos”

 

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sábado, março 06, 2010

Os Óscares são amanhã!!

Pela primeira vez em muitas décadas são dez os felizardos candidatos à categoria de “melhor filme”, ao contrário do que se tem feito nos últimos anos: 7 candidatos no máximo dos máximos. Tal só tinha sido visto em 1944, quando essa grande obra-prima da sétima arte, Casablanca, levou ara casa este galardão tão desejado.

É também a primeira vez em muito tempo que um filme de animação, Up, tem a grande oportunidade de ser a película do ano (segundo a Academia, é claro). No ano passado, foram muitas as críticas por Wall-E não ter merecido este destaque especial. Mas, de facto, este ano, há “para o menino e para a menina”. Senão, vejamos:

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Avatar, de James Cameron

É, sem dúvida, o grande preferido e o mais amado de todos os candidatos. Tem tudo para agradar: uma bela história de amor, a mensagem do costume (Salvem a Natureza), muitas batalhas, muitos efeitos especiais de estarrecer qualquer um... Mas tem uma desvantagem muito forte: nunca alguma vez na vida um filme ganhou esta categoria sem ter um único actor candidato ao óscar da melhor interepretação. Além disso, temos um problema: há uma mulher a concorrer...

Em Estado de Guerra, de Kathryn Bigelow

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Preparem as bombas, limpem as armas, enterrem as minas: a brigada dos defensores da igualdade dos sexos está a trabalhar no duro para que Kathryn Bigelow seja a primeira mulher a ganhar o óscar do melhor filme. Se, de facto, levar para casa a estatueta, poucos irão reparar nesta triste verdade: dos dez candidatos, esta realizadora é, segundo a opinião de muitos, a que mais merece levar o prémio para casa, juntamente com o Distrito 9.

Sacanas Sem Lei, de Quentin Tarantinoclip_image006

Para quem gosta de puro humor negro, misturado com muita violência e alguma inteligência (Tarantino tem um estilo, temos que o admitir, muito próprio), Sacanas Sem Lei são duas horas bem passadas. Mas a Academia de Óscares, apesar de já ter provado ter sentido de humor, não gosta lá muito de piadas parvas com sangue a esguichar. Prefere os realizadores “conservadores” e os “temas sérios”.

 

 Distrito 9, de Neil Blomkampclip_image008

Se não ganhar o óscar do melhor filme, será um dos grandes injustiçados: Distrito 9 é o filme de ficção-Científica mais surpreendente de há décadas atrás (a nossa criítica pode ser lida aqui: http://bibliotecaportaberta.blogspot.com/2009/09/nao-isto-nao-e-um-filme-de-extra.html ). Mas, infelizmente, a sua grande falha é ser... um filme de ficção-científica. Os júris dos Óscares não gostam deste género cinematográfico e consideram-no um género “menor”, juntamente com os filmes de terror ou, até mesmo, a comédia.

Precious, de Lee Daniels

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Como dizia a crítica na revista Visão, há cerca de três semanas atrás, isto é mesmo o “fado da desgraçadinha”: violações, incesto, alccolismo, filha autista, violência doméstica... É só escolher. O filme não é mau, é péssimo. Mas como a actriz principal é uma negra muito gorda, é capaz de agradar às minorias...

Uma Educação, de Lone Scherfigclip_image012

Não aquece nem arrefece: é igual a 557.979, 6 filmes alusivos aos anos sessenta e à descoberta do sexo e da liberdade. É bem interpretado, ao menos podemos dizê-lo...

Up, Altamente, de Pete Docteur e Bob Peterson

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Não chega aos calcanhares de um Wall-E mas é um filme muito ternurento e muito bem-disposto. E é interessante repararmos que um dos heróis desta história é um velhinho rezingão e não um jovem louro de olhos azuis. Se ganhar o galardão de melhor filme, não vai ser por aqui que os parentes cairão na lama.

Blind Side, de John Lee Hancock

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Outra história de puxar a lagriminha: um jovem negro, gigante e musculoso, meio “burrinho” é ajudado por uma branca rica, “ boa cristã”, uma zelosa mamã cheia de filhos. Esta acha que “Big Mike” só precisa de um empurrão para vencer na vida.

Nas Nuvens, de Jason Reitmanclip_image018

Aguém ouviu falar deste filme? Pois, nós não. Segundo as críticas, é um filme que começa muito bem (o genérico, dizem eles, é excelente) mas descamba na banalidade. Trata-se da história de um homem que é um excelente profissional, quando se trata de... despedir trabalhadores. George Clooney vai bem, como sempre.

Um Homem Sério, dos Irmãos Coenclip_image020

Os irmãos Coen são os Irmãos Coen e está tudo dito. São brilhantes, hilariantes, surpreendentes. E o humor não pode ser mais judeu. Eis um filme que merecia mesmo ganhar o óscar do melhor filme.

Faltam 58 dias Para a Recolha dos “Monos”

 

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sexta-feira, março 05, 2010

World Press Photo

Os resultados já foram anunciados no mês passado, mas aqui fica a nossa homenagem a um dos melhores concursos de fotografia deste planeta: o World Press Photo, uma epécie de óscares da bela arte de captarmos um instante.

O primeiro prémio foi muito justamente dado ao fotógrafo italiano Pietro Masturzo, por ter captado o desespero e raiva de três mulheres iranianas, ao tomarem conhecimento dos resultados das eleições presidenciais que, na opinião de muito boa gente, foram falsificados. Mas este concurso, que conta sempre com a participação de mais de 100.000 fotos vindas de todo o mundo, também avalia e galardoa várias categorias: categoria do desporto, da notícia, das artes, de personalidades, Natureza, Estórias, etc.

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Deixamos aqui mais dois “flagrantes da vida real”: um judeu radical e histérico a atirar vinho a uma muçulmana idosa e indefesa (para os muçulmanos, o álcool é proibido) e uma girafa morta, por causa da falta de água no vasto deserto.

Queres dar uma espreitadela às restantes fotos? Então, espreita estes dois sites:

Site Oficial:

http://www.worldpressphoto.org/index.phpoption=com_photogallery&task=blogsection&id=20&Itemid=257&bandwidth=high

Jornal Público:

http://static.publico.clix.pt/docs/media/wpp2010/

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Rina Castelnuovo , 3º prémio na categoria “Notícias”

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Stefano de Luigi, 2º prémio na Categoria “Temas Contemporâneos”

Faltam 59 dias Para a Recolha dos “Monos”

 

Uma Iniciativa EscolaElectrão

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Imagem de:
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quinta-feira, março 04, 2010

Bibliomúsica – O Direito À Diferença

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A propósito do Leandro Filipe, o menino que supostamente cometeu suicídio por ter sido vítima de bullying na sua escola, ocorreu-nos publicar esta canção dos Linkin Park. Esta música fala precisamente da intolerância e da crueldade existentes nas escolas, “alimentadas” pela indiferença dos professores, pais, funcionários e restantes alunos. Prestem muita atenção à letra: é uma verdadeira lição de vida.

Apresentamos também um anúncio contra o Bullying. A mensagem é clara: toda a gente sabe que o problema existe, mas se ninguém denuncia estes casos e toda a gente se cala, as crianças traumatizadas continuarão a ser uma constante nas nossas escolas. Um gesto nosso pode fazer toda a diferença. Por isso, se têm conhecimento de algum miúdo ou miúda que está a ser vítima da crueldade dos colegas, façam o favor de não se calarem!

Linkin Park (Numb) – Legendado

Levantem-se Contra o Bullying (Anúncio)

Uma Iniciativa EscolaElectrão

Faltam

60 dias

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Para a Recolha dos “Monos”

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quarta-feira, março 03, 2010

Com Que Então, A Tua Casa Está A Virar Um Museu!

E se utilizamos a palavra “museu” é porque estamos a ser muito simpáticos!

clip_image002 Toda a gente, em grau maior ou menor, tem um fraquinho por velharias. Não há nenhuma criança que não se sinta fascinada por aquela aparelhagem, perdão, mastodonte antigo que está a ganhar pó numa prateleira, dispensa ou garagem qualquer. Não há puto que não ache piada àquele quadrado esquisito que os pais chamavam “disquette” e não há adolescente que não se sinta entusiasmado ao pé de um exemplar de um dos primeiros computadores caseiros que foram criados. “Oh, pai, liga lá, só para ver se ainda trabalha!”, é o que dizem logo. E ficam de olhos esbugalhados quando lhes mostramos os primeiros jogos de computador. Custa-lhes a acreditar que aqueles desenhos toscos e tão infantis, de cores berrantes e doentias, causavam furor aos primeiros “cibernautas” do mundo inteiro. E que diremos nós dos primeiros telemóveis, tijolos pesadíssimos que, ironia das ironias, ainda conseguem ter melhor rede do que os “telelés” modernos? E as primeiras máquinas de lavar a roupa? E as televisões a preto e branco? E...

clip_image004 Mas se as primeiras gerações de electrodomésticos e de computadores ainda têm o ar da sua graça, o problema são as terceiras, quartas, quintas e seguintes gerações. Por mais engraçados que os aparelhos sejam, a verdade é que as casas de hoje são cada vez mais pequenas e o tempo dos sotãos misteriosos, onde as crianças brincavam às escondidas e tropeçavam em velhas fotos de família, desapareceram, a não ser para alguns felizardos. Espaço é sinónimo de “maior prestação ao banco” e as casas de hoje querem-se práticas, funcionais, arejadas, solarengas e saudáveis. Não há espaço para frankensteins informáticos. Pior ainda, agora até já se sabe que não só são um chamariz para o pó como, ainda por cima, poluem bastante o meio-ambiente. Os metais em corrosão ou os chips danificados, por exemplo, podem envenenar qualquer lugar da nossa casa. O nosso planeta, graças ao Admirável Mundo Novo do Consumismo, está a virar uma lixeira a céu aberto.

Ora, é precisamente aqui que entra o projecto EscolaElectrão: esta iniciativa pretende promover um espírito mais ecológico nas novas gerações, permite alertá-las para a importância da reciclagem, recompensa as escolas que mais entusiasmo demonstraram e, de caminho, até nos leva de graça os mastodontes que enchiam metade do espaço da nossa casa. Tudo o que precisamos de fazer é... trazer a “sucataria” toda para a escola. Do resto, tratam eles.

Por isso, toca a fazer uma ronda pela casa. Tragam tudo o que é eléctrico e que está danificado: aquecedores, telemóveis, frigoríficos, computadores caseiros, ventoinhas, serras eléctricas, batedeiras, impressoras, máquinas fotográficas... Desde que tenha os botões on/off já serve.

A escola agradece, a sua casa agradece e o planeta suspirará de alívio.

Ilustração retirada de:

http://tomilhomentaehipericao.blogspot.com/2009_08_01_archive.html

segunda-feira, março 01, 2010

Livro Da Semana

 

História Trágico-Marítima, de Bernardo Gomes de Brito

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Custa-nos bastante a acreditar mas, há cerca de duzentos anos atrás, os destinos de uma nação eram muitas vezes decididos não por via terrestre ou aérea mas por via marítima. Durante milhares de anos, as grandes guerras eram muitas vezes travadas em alto-mar e não através de aviões, bombas nucleares ou minas. Por isso mesmo, Portugal foi imensas vezes cobiçado: a sua ligação ao mar não só era uma porta para a riqueza como, melhor ainda, era uma excelente porta de entrada para o continente europeu.

Custa-nos bastante a acreditar mas, há cerca de duzentos anos atrás, a vida de marinheiro era tão terrivelmente perigosa que só os sonhadores, os desesperados e os criminosos é que desejavam fazer parte da tripulação de um navio. Muitos sofriam de doenças crónicas, envelheciam extraordinariamente depressa, quase não tinham dentes, viviam curvados e mirrados, a pele de um marinheiro assemelhava-se a um velho pergaminho e morriam muito cedo. Além disso, estavam completamente dependentes dos caprichos do clima: sem vento, o barco não se movia (chegavam a esperar dias para poderem largar velas e continuar a viagem), com vento a mais o barco podia virar e afundar-se, com tempestade à vista a morte era quase certa.

Todavia, esta existência selvagem de lobos capazes de enfrentar um monstro chamado “Mãe Natureza” tinha os seus apelos e o seu fascínio: era a única forma de se conhecer o mundo e de se poder ver civilizações perdidas ou imaginadas nas velhas histórias de encantar. Os relatos de um velho lobo do mar eram famosos e era bastante comum uma enorme multidão juntar-se à volta do velhinho idoso que viu o inimaginável e sobreviveu para contar a história. Não havia televisão nem cinema nem internet nem fotografias. A imaginação voava e cada pessoa escutava e entendia os testemunhos de um homem do mar segundo a sua vivência e as suas crenças. Um marinheiro era, acima de tudo, um sobrevivente e, por isso mesmo, tinha autoridade moral para dar lições de vida aos outros.

Custa-nos bastante a acreditar mas, no tempo do Titanic, os coletes e botes salva-vidas não eram obrigatórios, eram apenas um capricho ou benesse dos ricos proprietários dos cruzeiros. Bruce Ismay, o dono do Titanic, ainda hoje é fortemente acusado de negligência e ganância. Porém, foi um dos poucos empresários do seu tempo que se deu à “maçada” de gastar dinheiro em coletes salva-vidas para todos os tripulantes, incluindo os da terceira classe, uma atitude que, nesse tempo, era considerada “esquisita” aos olhos dos milionários, uma vez que a lei não os obrigava a tal cuidado.

Hoje, viajar de barco já não é um perigo. Sim, está bem, existem piratas e terroristas mas, tirando esse detalhe, é tão seguro como atravessarmos a estrada de uma cidade deserta. Os marinheiros de antigamente, fizessem eles uma viagem ao nosso tempo, fartar-se-iam de gozar com os “machos latinos” alourados e bronzeados, de pele acetinada de bebé, que se acham muito aventureiros e destemidos só porque compraram um barquito movido a motor diesel, apetrechado de uma mini-farmácia de prontos-socorros e de 557.979,6 bóias e coletes salva-vidas. Em suma: para eles, a vida marinheiro já não teria graça nenhuma e seria, como diz a personagem Ega d'Os Maias, uma sensaboria de rachar.

E, sim: custa-nos a acreditar mas, há mais de cem anos atrás, os jornalistas não existiam. Denunciar as injustiças, a corrupção, a fome, a má gestão de governos ou de empresas, crimes graves ou menos graves e todo o restante sofrimento na Terra não era uma profissão. Havia relatos, sim, mas estes não passavam de “pura carolice” de alguns curiosos da História. E, claro, sempre existiram os cronistas. Ora, no tempo em que os jornalistas não existiam, o nosso livro da semana é um dos mais importantes testemunhos históricos de toda a Humanidade. Trata-se de uma compilação de naufrágios reais, contados muitas vezes na primeira pessoa, ou seja, contados por sobreviventes que estiveram lá, viram tudo, assistiram ao horror e sofrimento de companheiros seus e, “milagrosamente”, escaparam da morte. Por isso mesmo, estas histórias tocam-nos profundamente: não são personagens inventadas, saídas da cabeça de um escritor. São seres humanos como nós, gente que tinha família, amigos, filhos, mulher, tinham as suas fés religiosas, os seus medos e superstições, os seus sonhos, desejos, tinham as suas desavenças com o vizinho do lado, tinham o seu cão ou o seu cavalo ou mula, a sua casita pobre e o seu rio, onde pescavam o almoço e o jantar para os seus. Terão sido felizes? Terão sido amados?

E todos eles já deixaram este planeta e foram esquecidos. Não lhes conhecemos os rostos e até a idade. Tudo o que resta deles é a memória de um sobrevivente, também ele esquecido no tempo. E se não fosse o meritório e valioso contributo de Bernardo Gomes de Brito, que se deu ao trabalho de compilar todos estes testemunhos, estes documentos históricos não teriam chegado nunca às nossas mãos.

A História Trágico- Marítima é, hoje, vista como sendo uma antítese d'Os Lusíadas: em vez de um Portugal grandioso, sábio e visionário, temos o Portugal do costume, mesquinho, negligente, megalómano, incompetente e corrupto. E, como sempre, para não variar, quem paga é sempre o “peixe miúdo”.

Mais de trezentos anos depois, este país parece não ter mudado nada.

E já que estamos a falar de vidas de marinheiros...